Sleepy Hollow | Primeiras Impressões


Os criadores de “Fringe” só podem ter perdido a cabeça, para acordarem o cavaleiro mais mal humorado e decapitado de todos os tempos. Duzentos anos mais tarde, o demónio sem cabeça continua à procura dela, e Ichabod Crane é mais novo e viril que Johnny Depp. Aceitam um conselho? Ponham-se a jeito, porque vão mesmo perder a cabeça!


Sim, é ele! O cavaleiro sem cabeça regressou, para finalizar a obra inacabada em 1999. Por essa altura, Johnny Depp (Ichabod Crane) vendia a imagem excêntrica de um detetive visionário – uma espécie de optometrista forense – com geringonças bizarras e apetrechos esquisitos, que não lembram nem ao diabo. Ainda nessa linha temporal, Christina Ricci (Katrina Van Tassel) encarnava a alma de bruxinha bondosa com um fraquinho por homens pálidos e métodos pouco ortodoxos. Mas, muita coisa mudou em dezasseis anos de absentismo. Sleepy Hollow foi apanhado pelo sopro da modernidade e obrigado a adaptar-se às exigências dos enredos atuais, sem cair no facilitismo óbvio do cliché anacrónico.

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E se o Ichabod Crane do filme homónimo tinha receio de oferecer a cabeça à lâmina, já o seu substituto (Tom Mison) apresenta o pedigree de um soldado da Revolução Americana. É naquele campo de batalha simbólico, que Crane enfrenta o machado ardente do cavaleiro decapitado, estreitando os laços sanguíneos entre os dois guerreiros para a eternidade. Até parece um suspiro de apaixonados, mas a verdade é que ambos são teletransportados para a atualidade da pacata aldeia nova-iorquina de “Sleepy Hollow”. Aqui, neste palmo de terra com cento e quarenta e quatro mil habitantes, respira-se um ar misterioso e esotérico, não só pelo mediatismo de um lunático que anda a ceifar as goelas de alguém, mas pelo estilo sobrenatural que tresanda a Fringe. De facto, não é de estranhar tal afirmação – dita num bom sentido – não fossem Alex Kurtzman e Roberto Orci os responsáveis por este segundo remake do clássico de Washington Irving.

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Que o diga o cherife August Corbin (Clancy Brown), que no conforto de uma tarte de maça caseira e dois dedos de conversa, é interrompido por uma ocorrência nos estábulos de Fox Creek. A sua compincha Abbie Mills (Nicole Beharie) segue-lhe as pisadas para mais tarde encontrar o seu mentor dividido em duas partes. E enquanto a “Morte” anda por aí a esquartejar crânios como quem corta rodelas de cebola, Ichabod é o alvo perfeito para servir de bode expiatório destes eventos macabros. Não estivesse a palavra de honra tão desvalorizada em duzentos e cinquenta anos de história, o teste do polígrafo seria obsoleto. Mas, a dúvida persiste: será Ichabod um viajante do tempo? ou o paciente do ano na instituição psiquiátrica mais próxima de si? Pelo menos, Abbie parece acreditar na sua inocência, mas o seu superior hierárquico Frank Irving (Orlando Jones), não vai facilmente em cantigas. É nesta cadência sucessiva de logística criminal que, as personagens intervenientes, vão colocando as orelhas de fora consoante a necessidade da sua intervenção.

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É facil entrar no universo de Sleepy Hollow e sentirmos aquela nostalgia do ambiente soturno e nublado, que precede a entrada triunfante do cavalo napoleónico. Basta o cavaleiro negro atiçar as rédeas do seu unicórnio infernal para rejubilarmos de satisfação, como se uma estrela de rock tivesse acabado de subir ao palco. Contudo, os hábitos e costumes medievais de outrora foram totalmente descaraterizados, dando lugar ao espírito capitalista de um Starbucks em cada esquina. Aliás, para Ichabod Crane a realidade parece-lhe mais estranha do que a sua própria existência. E é nesse contexto de adaptação aos modos hodiernos que Crane começa a estabelecer uma relação empática com a agente Mills, como se uma dupla de justiceiros de épocas diferentes fosse chamada a colaborar num caso comum. Na verdade, se não existisse este duo dinâmico e a sua ligação simbiótica, Sleepy Hollow, não seria mais do que um psicopata à procura de protagonismo.

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Os dois investigadores, até têm direito a um esconderijo clandestino no arquivo da esquadra policial. Aonde é que já vimos isto? E enquanto o senhor sem pescoço continuar a oferecer trabalho redobrado, há que desenterrar bíblias centenárias e invocar as cruzes de cristo para enfrentar os demónios que andam por aí. E se os olhos bem abertos por vezes conseguem pregar-nos partidas, então Ichabod terá muito com que se preocupar, enquanto adormece e vagueia pelas premonições da sua falecida esposa Katrina Crane (Katia Winter). Ela irrompe pelos seus sonhos mais profundos, como um “call of duty” para reunir as tropas e fazer frente à ameaça maligna eminente.

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Sleepy Hollow é um drama sobrenatural, que não pretende romper completamente com alguns dogmas do seu passado, mas propõe expandir o horizonte temporal da lenda sem desfigurar a matriz que a carateriza. Ao estabelecer esta ponte entre passado e presente é como se existisse um veículo de continuidade, que respira em novas direções e permite calcar um território mitológico mais desconhecido e abrangente. O leque de atores é do melhor que há, e as interpretações individuais são de elevada qualidade e rendimento. Em suma, poderá dizer-se que Sleepy Hollow é uma memória louca e viciante que regressou às luzes da ribalta para nos fazer perder a cabeça de livre vontade.

P.S – Heads Will Roll…

MS

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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