© Paramount Pictures

Smile, em análise

“Smile”, de Parker Finn, não passou despercebido depois do marketing. É merecido o hype? Descobre nesta análise sem spoilers.

Após duas curtas-metragens de terror, Parker Finn, enquanto realizador e argumentista, serve-nos a sua primeira longa-metragem do mesmo género: “Smile”, da Paramount Pictures. Se o seu nome não era conhecido até agora é muito provável que comece a ser lembrado por boas razões, uma vez que este projeto arrebatou as salas de cinema ao ponto do público sair do filme com um sorriso na cara.

Na história acompanhamos Rose Cotter, interpretada por Sosie Bacon, uma psiquiatra traumatizada desde a infância, que ao presenciar o suicídio de uma paciente entra numa espiral sobrenatural provocada por uma maldição que a faz reviver o passado. Logo no primeiro segundo, a obra mostra a sua intenção – apresenta um plano de pernas para o ar e, como esse, aparecem outros no desenvolvimento – mostrando que o universo que estamos a presenciar vai dar muitas voltas até deixar a vida da personagem do avesso.

O próprio conceito que segura a premissa é subvertido. Pega num detalhe aparentemente simples, um sorriso, para nos fazer refletir sobre a ligação geralmente feita entre essa expressão e o nosso estado de alma/saúde. Trata-se de uma suposição, muitas vezes, quase automática inclusive em meios médicos – há um pequeno detalhe no filme que nos mostra a protagonista num consultório com um papel (propositadamente focado e aproximado pela câmara), onde vemos um panfleto afixado que associa o sorriso ao lado positivo, ao estado de menor dor.

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© Paramount Pictures

Neste sentido e, de forma inteligente e subtil, “Smile” deixa uma crítica social, que é comum nos filmes de terror, sobretudo, que têm a saúde mental como pano de fundo. Isto porque, como bem sabemos, por trás de um sorriso pode sim estar muita dor e outros sentimentos negativos. Esta ideia é, de certa forma, vivida em outros filmes como o “It” e o “Joker“, onde os protagonistas são palhaços e não é por isso que os seus sorrisos transmitem alegria e confiança, pelo contrário.

Para reforçar ainda mais esta ideia temos o trauma como âncora da história. A nossa protagonista não tem sequer hipótese em ser percepcionada de outra forma. Sabemos sempre que é alguém frágil, ao mesmo tempo forte por estar a aguentar-se, mas que a qualquer momento pode desabar e apanhamos justamente o momento em que isso acontece. A partir daí, a narrativa torna-se previsível, mas nem por isso desinteressante fora uma ou outra sequência que podia ter sido deixada de lado.

A protagonista, após um breve período de investigação, descobre o motivo por detrás da maldição – uma revelação sem qualquer efeito para o público que montou as peças do puzzle muito antes. Aí vem o clímax do filme, a resolução, um momento supostamente marcante (até certo ponto é), mas que acaba por não ser satisfatório por mais imagético e chocante que seja. Sim, porque nesse ponto do filme não pude deixar de pensar que seria um material óbvio para fãs, por exemplo, do festival de terror MOTELX e não para o público em geral que está habituado a um terror mais light, menos pesado.

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A entrada de Rose numa espiral de loucura é incrível e alucinante. A atriz Sosie Bacon está de parabéns pela representação, porque o seu desiquilíbrio vai aumentando a cada passo e é muito notório e convincente. O restante elenco também cumpre muito bem o seu papel, apesar de serem personagens mais rasas, sem grande profundidade e até dispensáveis na obra. O noivo da personagem (interpretado por Jessie T. Usher), por exemplo, não tem um guião satisfatório e acaba por ficar bastante solto na narrativa. A sua existência seria indiferente e até incomoda, porque nada acrescenta.

O terror em si está muito bem construído. Afinal, a sensação de instabilidade e perigo constante não é positiva e essa tensão é crescente ao longo da obra – tanto na cabeça da protagonista, como em materializações físicas – a maldição tem um rosto e, infelizmente, ele não fica só pelo subentendido. No terceiro ato é bastante exposto, sem disfarces, o que causa estranheza e choque, mas ao mesmo tempo diminui o fator medo do desconhecido. Esta decisão no filme leva também a que seja um terror menos psicológico, embora tenha óbvios elementos, e se torne assumidamente do subgénero do terror sobrenatural. Faz uma mistura dos dois, que pode agradar mais uns do que a outros, mas em última instância, funciona e marca quem o assiste.

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© Paramount Pictures

Um dos aspetos mais positivos da obra está na tentativa de fugir a alguns clichés, como a má construção de jump scares com o recurso, por exemplo, ao elevar do som. Pensamos que o mal nos vai saltar na cara quando a personagem fecha a porta de um armário, mas depois o terror evidencia-se de uma forma menos óbvia, menos agressiva até, para que depois a passos largos se vá aproximando cada vez mais. “Smile” realmente não funciona como os filmes de terror mais comerciais a que estamos habituados e, só por essa diferença já vale o mérito.

Há até uma contrariedade ao nível do som, um aspeto que é tão importante para criar ambiente e tensão, sobretudo, em filmes de terror, aqui é trabalhado por Parker Finn com muita cautela, ao ponto de existirem momentos de silêncio que, curiosamente, são ainda mais capazes de ter esse efeito. Provavelmente, porque foge ao comum e incomoda. Ficamos ainda mais atentos a tentar desvendar o que vem aí e esse segurar de atenção é crucial na experiência cinematográfica.

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“Smile” é, em certa medida, uma lufada de ar fresco no terror que procura valorizar a diferença e a todo o momento subverter as nossas expectativas, deixando-nos apreensivos. Por isso, o mais aconselhável é não ver o trailer – para não estragar a experiência e o fator surpresa dos melhores momentos – e ir “às cegas” para a sala de cinema. Lá dentro estará garantido um sorriso.

  • Rafaela Teixeira - 70
70

CONCLUSÃO

A primeira longa-metragem de Parker Finn é inegavelmente impactante e distinta da maioria das estreias de terror que temos visto ultimamente. Além de uma crítica social necessária, trabalha o trauma com mestria e sabe desenvolver a narrativa com momentos de tensão crescente que nos deixam colados ao ecrã.

Apesar de não ter o melhor argumento, consegue trazer uma experiência cinematográfica marcante e capaz de chocar o público, sobretudo, aquele que não tem hábito de ver muitos filmes de terror.

O marketing foi intenso, e ainda bem, porque senão poderia ficar esquecido e muitos sorrisos ficariam por dar.

Pros

  • A aposta na crítica social
  • A performance de Sosie Bacon
  • O trabalho de som
  • A fuga aos clichés do género
  • Final com imagética impactante

Cons

  • A previsibilidade da narrativa
  • Algumas das personagens secundárias são rasas e desnecessárias
  • Final pouco satisfatório
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Rafaela Teixeira

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