O Caso Spotlight, em análise | Óscar 2016 Melhor Filme

 

O Caso Spotlight é uma rara besta cinematográfica: económico e musculado, mas simultaneamente cativante e importante.

 

FICHA TÉCNICA

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Título Original: Spotlight
Realizador: Tom McCarthy
Elenco: Michael Keaton, Rachel McAdams, Mark Ruffalo
Género: Biografia, Drama
NOS | 2015 | 128 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

Há vários tipos de filmes no mundo, mas apenas alguns deles têm o potencial de nos inspirar (nem que momentaneamente) a mudar de carreira.

Rocky fez-nos querer acordar cedo, tomar suplementação e treinar incansavelmente. Braveheart fez-nos querer pintar a cara e lutar pela liberdade com um kilt. Gandhi fez-nos querer ser melhores humanos. Que diabo, Forrest Gump fez-nos querer correr como se não houvesse amanhã!

Depois há O Caso Spotlight… o filme que nos impele a procurar temas fraturantes e esmiuçá-los até não sobrar nada mais que osso e uma revelação essencial.

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E se nos permitem o auxílio de uma útil analogia, o filme de Tom McCarthy é como uma boa banda de cera: uma vez colocada, já não há volta a dar, só resta arrancar. Ambientado ao estado de coisas em 2001, a película baseia-se em factos verídicos e segue a tenaz equipa de repórteres de investigação do Boston Globe. Liderada pelo respeitado mas rebelde Robby, a equipa conhecida por Spotlight trabalha afincadamente para investigar alegações de abuso no seio da Igreja Católica, mas nada os podia preparar para o alcance catastrófico do escândalo ou o quão longe vai a praga de fraude e apatia.

Cinematograficamente falando, o conceito de recontar a história de Spotlight tinha tudo para correr horrivelmente mal, mas sob a alçada da mestria de McCarthy, tudo se conjuga com a mais refinada precisão. Honestamente falando, O Caso Spotlight é um dos melhores dramas sobre jornalismo de investigação da história do Cinema, equilibrando-se nas alturas com as icónicas presenças de gigantes como Os Homens do Presidente ou O Informador.

Equilibrado e astucioso, O Caso Spotlight é especialmente exímio na exploração da “área-cinzenta”. Se por um lado os vilões não podem exatamente ser considerados exclusivamente vis, também os heróis não são retratados como tal, estando inclusivamente abertos a um retrato que não persiste sem uma parte de mácula. “Se é preciso uma vila para criar uma criança, é preciso uma vila para abusar de uma”, diz, a certa altura, um dos personagens. E no filme de Tom McCathy ninguém sai incólume.

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O elenco é formidável, de uma ponta à outra, e grande parte da razão para o sucesso da película. É que este trata-se de um puro exercício de “esforço de equipa”, onde cada ator trabalha com a inteligência da subtileza para não roubar qualquer foco ou importância ao poder do material-base, e no entanto, toda e qualquer performance é crucial para o sucesso do conjunto.

O sentido de gestão e contenção é transportado para o fantástico argumento, um musculado exercício em economia – cada palavra importa e cada cena existe com um propósito: o de levar a investigação mais longe. Adicionalmente, não há atalhos desnecessários para a vida pessoal de qualquer um dos jornalistas, o que nos obrigaria ou a requerer um ponto-de-vista único e profundo ou a solicitar a amalgama dos pontos-de-vista de todo o elenco. Ambas revelar-se-iam tarefas incompletas ou virtualmente impossíveis. E McCharthy e Josh Singer escolheram a premissa do distanciamento, dando-nos a conhecer apenas o estritamente necessário sobre cada um dos jornalistas e deixando que o seu trabalho defina o resto da sua figura cinematográfica.

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Por outro lado, os sobreviventes não são vítimas – uma diferença crucial estabelecida pelo filme – e o argumento dá um honroso espaço às suas desoladoras histórias e experiências que, emergindo de uma catarata de vergonha, medo e lágrimas, nunca são reduzidas a meros adereços para chegar a um determinado fim.

McCarthy orquestra a investigação procedural com precisão cirúrgica, aplicando uma noção de ritmo inacreditável para um filme que contem cenas que se estendem por minutos e que versam sobre esse “lírico” tema que é o obstáculo da burocracia para aceder documentos selados pela justiça mas abertos para consulta pública. E, como que por magia, essas são genuinamente entusiasmantes.

Mas o sabor que fica na boca depois de um autêntico showcase de exímia subtileza e contenção estilística não deixa de ser angustiante, como se cinzas se desfizessem na boca. Porque é impossível afirmar com franqueza de um espírito puro que se gostou do filme de McCarthy.

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Tenso, meticuloso e pernicioso, O Caso Spotlight é a narração essencial de um escândalo contemporâneo. Mas o derradeiro e mais violento soco no estômago chega no final. Porque O Caso Spotlight não é, exatamente, um filme para se gostar.

É um filme para enraivecer, para gritar. Para acordar e magoar. E como a respetiva reportagem que o inspirou e que não podemos esquecer, é um filme para nos mudar.

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Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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