Naque

Teatro: Ñaque | em análise

A peça “Ñaque”, do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinistierra, em cena no Teatro Villaret com José Pedro Gomes e José Raposo é um daqueles espectáculos imprescindíveis pela diversão, paixão e inteligência que nos oferece. Ao mesmo tempo é uma notável (auto) homenagem aos (dois) actores e aos espectadores e ao teatro para que nunca sejam esquecidos.

Estreou em Lisboa, mais uma versão de “Ñaque”, de J. S. Sinistierra, desta vez com a interpretação de duas grandes figuras da arte de representar e dois grandes especialistas da comédia: José Pedro Gomes e José Raposo. E é de comédia que trata este espectáculo, que não uma qualquer ‘conversa da treta’ —  com todo respeito para esse espectáculo —  já que “Ñaque”, funciona como uma extraordinária paródia ao teatro clássico, uma homenagem aos dois actores, um festival da arte de representar, uma ode ao prazer da cena, da sua irrepetibilidade e da sua força para interagir com o público.

Curiosamente José Pedro Gomes e José Raposo, já tinha contracenado no teatro em 1992 na peça “Depois de Magritte”, do dramaturgo inglês Tom Stoppard — numa pequena sala do Centro Comercial das Amoreiras, entretanto encerrada — e nunca mais se encontraram em palco, apesar da sua tremenda química interpretativa, amizade e cumplicidade. Contudo, a peça escrita em 1980, por J.S. Sinisterra, com o título integral de “Ñaque ou de Piolho e Actores”, foi encenada em Portugal há pouco tempo, pelo CENDREV (Évora), que fez uma série de espectáculos pelo País, com José Russo e Jorge Baião, como protagonistas. É essencial recordar principalmente a fantástica e premiada encenação do Teatro Meridional, que inaugurou em 1994, bem a propósito, a Sala das Novas Tendências do Teatro da Comuna, em Lisboa, com Miguel Seabra e o espanhol Alvaro Lavin a interpretarem os atrapalhados Solanos e Ríos. Peça essa, que a companhia do Beato, que comemora agora 25 anos, parece manter ainda no seu repertório, embora com outros actores.

Sobre o dramaturgo espanhol J. S. Sinisterra (Valência, 1940), ele tem dedicado a sua vida a explorar os novos caminhos estéticos e temáticos do teatro, que devem ser realçados antes de falarmos desta peça de teatro que procura chegar a um público, mais abrangente. Aos seus famosos laboratórios de criação teatral J. S. Sinistierra tem uma longa carreira como pedagogo, investigador e teórico do teatro. A sua obra coloca-o como um dos mais destacados dramaturgos da língua espanhola e do mundo. Desde que criou o seu projecto Nuevo Teatro Fronterizo, que tem impulsionado como que um ou mais espaços de diálogo entre a cena e as várias realidades sociais.

Neste espectáculo, apenas “Ñaque”, com encenação, cenários e figurinos do jovem actor Marco Medeiros (Lisboa, 1985), tradução e adaptação da Professora Maria João da Rocha Afonso, os protagonistas Solano (José Pedro Gomes) e Ríos (José Rapos), são dois cómicos — do melhor que há em Portugal — ambulantes, saídos das peças do Século de Ouro (séculos XVI e XVII) da literatura espanhola, e que chegam ao presente, chamando-se um ao outro nos bastidores antes de chegarem à cena, um com uma bicicleta lata com modinhas atrás e o outro arrastando um cavalo-baloiço de madeira. Estão vestidos à maneira dos homens do ‘cante alentejano’, para se encontrarem com o público e representarem. No início os dois actores da peça —  que por fezes se confundem com os próprios — temem este encontro, pois não sabem como satisfazer as naturais expectativas desse público, cujo olhar é implacável e que vai atravessá-los sem piedade. A dada altura, Solano e Ríos abandonam o palco e caminham para plateia — e depois para o foyer para falar com a audiência e discutirem, sobre esse assunto. Esse gesto de ruptura, com a cena mais convencional, dá início a um profunda e irónica reflexão sobre a natureza do teatro a condição do actor e sobre os papéis – às vezes intercambiáveis – das relações dos actores com o público, na arte teatral.

“Heis-de saber, meus senhores, que há oito tipos de companhias e de representantes, todas diferentes : bululú, ñaque, gangarilha, cambaleo, garnacha, bojiganga, farândula e companhia (…); ñaque são dois homens que fazem um trecho dum auto, um entremês e dizem umas oitavas e duas ou três loas. Cobram a oitavo, vivem contentes, dormem vestidos, comem como esfomeados, despiolham-se no verão entre os trigais e, no inverno, com o frio, não sentem os piolhos.”, uma passagem — e mais algumas páginas — do livro de Agustín de Rojas Villadandro “El Viaje Entretenido” (1603) são a base da “Ñaque ou sobre piolhos e actores”, de J. S. Sinistierra, que depois de superarem os temores iniciais, os dois cómicos começam a fazer o que melhor sabem: a contar as suas divertidas e acidentais andanças e a interpretar as ‘loas’, ‘entremeses’ e autos religiosos, herdados do teatro popular espanhol dos séculos XVI e XVII. O texto é simples e complexo ao mesmo tempo, uma vez que gira em volta de uma única situação de diálogo, encadeando a tal variedade de sub-produtos literários do Século de Ouro espanhol, autos da cultura popular, que no fundo resgatam formas marginais do acontecimento teatral.

Com o apoio de uma cenografia minimalista com umas escadas e uma árvore metálicas,  e umas luzes que fundem o castanho dos campos com o azul dos céus, José Pedro Gomes e José Raposo explodem de energia, criatividade e humor: põem a sala às gargalhadas e superam na perfeição, muitas vezes rindo de eles próprios, a pouco mais de uma hora de representação. As interacções com o público alternam com uma espécie de paródia ilustrada, sobre os oito tipos de companhias e registos teatrais pertencentes ao tal barroco espanhol, incluindo o ‘ñaque’. O ambiente criado pelos dois actores é o da comédia pura e dura, que valendo-se dos seus extraordinários recursos e talento, utilizam uma gestualidade exagerada, um trabalho corporal levado ao limite, e uma desafinada interpretação vocal e musical. A interacção com o público é permanente e fundamental para criar essa atmosfera e facilitar a assimilação desses géneros cénicos antigos e dessas formas de interpretar um texto de teatro ou representar, pouco habituais na actualidade. À margem dessas distâncias temporais e culturais, José Pedro Gomes e José Raposo, os protagonistas de “Ñaque” demonstraram que a essência do teatro continua ser um simples encontro de actores — e que actores — e espectadores, num espaço e tempo que não se voltam a repetir. Esta condição de acontecimento único faz com que toda a representação  teatral seja efémera.

É assim que ao aproximar-se do final, os cómicos voltam a experimentar o medo de que a sua arte se perca no tempo e no esquecimento. E recusando-se a isso exageram na sua representação, gesticulando e dizendo o texto sem pausa e por vezes sem sentido. Desesperados, os actores procuram um antídoto contra esse esquecimento, mas o seu esforço vai-se tornar obviamente inglório. Solano e Ríos desaparecem para deixar em cena somente os corpos de Gomes e Raposo abandonados no palco, quase vazio só com as escadas e a árvore metálica em fundo. Os actores – despojados das suas personagens – começam a interpretar fragmentos de outras obras em que participaram, num tosco espectáculo. O esforço é comovedor, mas inútil. Pouco podem fazer para salvarem-se do nada que se aproxima com o final. A comédia como a vida, também tem um fim.  Longe do teatro de pose ou das por vezes por vezes estúpidas e escatológicas representações de stand up comedy, — tão em voga em algumas salas nacionais —   José Pedro Gomes e José Raposo, evidenciaram que o teatro assenta num bom texto e que eles continuam bem vivos e a trabalhar com a dose exacta de paixão e inteligência para nunca serem esquecidos.

JVM

"Ñaque", em análise

Movie title: Ñaque

Date published: 18 de March de 2018

Actor(s): José Pedro Gomes, José Raposo

Genre: Comédia, , 2017, 93 min

  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO

A história do teatro, classista e elitista, legou-nos e engrandeceu-se com uma imagem da arte dramática assente em valores literários, textos mais ou menos ilustres, como um privilégio da escrita, “Naque” pelo contrário é simplesmente uma comédia absurda combinada com outros géneros teatrais menores, engrandecida pela interpretação de dois grandes actores.

O MELHOR: Os actores que bastam olhar um para o outro para adivinharam o que o outro vai dizer ou se calhar improvisar;

O PIOR:
A plateia do velho Teatro Villaret, se tiver o azar de apanhar alguém bastante alto na cadeira da frente, vai ter que fazer uma grande ginástica no pescoço para poder ver bem o espectáculo.

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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