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Terra Vil, a Crítica

“Terra Vil” (2025) é a primeira longa-metragem de Luís Campos, depois de algumas curtas-metragens que percorreram o percurso de festivais de cinema.

Retrata a história de duas famílias incompletas e disfuncionais que vivem da pesca da lampreia, que escasseia devido às alterações climáticas. Estreia na próxima quinta-feira 26 de fevereiro nas salas de cinema nacionais, com distribuição da Films4You.

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Da curta à longa-metragem, com Terra Vil

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O projeto de Luís Campos remonta ao ano de 2012 – altura em que o realizador começou a escrever o argumento – e, em 2015, fez a primeira apresentação pública do argumento. Só por aí se percebe a dificuldade que é fazer uma primeira longa-metragem de ficção em Portugal, especialmente quando os apoios escasseiam.

Em termos temáticos, “Terra Vil” não é muito diferente das quatro curtas-metragens anteriores do realizador – “Carga” (2017), “Muletas” (2017), “Boca Cava Terra” (2022) e “Monte Clérigo” (2023). Em todas elas há o fator infância/adolescência e uma família disfuncional. Além disso, duas delas – “Carga” e “Boca Cava Terra” – têm a pesca como elemento narrativo. Face a isto, percebemos um interesse claro de Luís Campos para as suas narrativas que faz com que se aperfeiçoe de filme para filme.

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“Terra Vil” é, pois, um filme que conta a história de João (interpretado por William Cesnek), um rapaz de 12 anos, que vive sozinho com o seu pai António (Rúben Gomes), após a mãe se ter divorciado do pai. Ele refugia-se na bebida e é a vizinha deles Teresa (Lúcia Moniz) quem garante alguma estabilidade na vida de João. António e Teresa trabalham juntos, com ele na pesca da lampreia e ela a vendê-la. Certo dia, António sente-se no direito de ser pai de uma das filhas de Teresa, – apesar de mal ser pai do seu filho – mas algo corre mal…

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A inocência da infância?

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“Terra Vil” começa por nos contar uma lenda de uma lampreia e o seu lado de supremacia, numa sequência de animação muitíssimo criativa. Estes dois pequenos fatores introduzem-nos discretamente a duas personagens: a António pela lampreia e a João que se vai revelar um artista a fazer desenhos.

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Pouco depois, entramos no mundo fechado e frágil de João onde, na escola, sofre de ‘bullying’. Indiferente, é, na verdade, este ataque que o fortalece perante a vida difícil que tem em casa.

Em casa, António regressa bêbedo e é João que o vai amparar. Ainda assim, ele tem tempo de reparar que a sua torneira foi arranjada contra a sua vontade. É aí que entra Teresa. Afinal, é ela quem equilibra esta disfuncional família.

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Referências históricas / locais

Terra Vil
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Nesta longa-metragem é também referido o desastre da ponte de Entre-os-Rios. Inicialmente, questionamos: será este um filme cuja ação decorre em 2001? No entanto, esta é uma mera referência que servirá para despoletar a narrativa, repescada numa televisão plasma dos anos 2020 e que, momentos mais tarde, trará ‘smartphones’ à narrativa.

Ainda que seja uma ‘mera’ referência, a menção deliberada a este incidente por parte do realizador não é ingénua e servirá como forma de demonstrar, criticamente, a pouca atenção que é dada ao norte (e também interior) do país. Assim, “Terra Vil” não é um filme de época, mas é um filme que está preso ao passado por um cordão umbilical que dificilmente será cortado…

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Para além desta referência, também, por exemplo, a religiosidade está presente em “Terra Vil” com imagens de uma procissão desta vila. Podemos, por isso, dizer que este é um filme que se orgulha de ser português e que pretende demonstrar essa portugalidade para todo o público que o veja. A religião vai ser igualmente importante no clímax do filme…

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O argumento de Terra Vil

Passando agora a uma análise mais da ordem do argumento… Como já explanei, “Terra Vil” é, em certa medida, um alargamento das curtas-metragens do realizador Luís Campos. Neste aspeto, a passagem da curta para a longa-metragem é francamente positiva. Contudo – não sei se pelos mais de dez anos desde a escrita até à obra final ou não -, o argumento está, de facto, ‘frágil’. Passo a explicar: há um ponto de viragem na narrativa já a mais de metade do filme. Certo que, para lá chegarmos, tivemos de ‘percorrer’ o resto da história e, em concreto, as personagens. Contudo, senti um desequilíbrio bastante grande nesse aspeto.

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O plot-point onde tudo muda

Assim, é nos cerca de 30 minutos finais de “Terra Vil” que tudo muda, de repente. João e António vão à pesca da lampreia e reparam numa das filhas de Teresa, Paula (Francisca Sobrinho), com o seu namorado Rui (Manuel Nabais). Desde que António o conheceu num piquenique que não vai muito ‘à bola’ com ele… Ao vê-los juntos num carro junto à margem do rio, António arranca-a à força do namorado e leva-a com ele. Numa discussão a bordo, ela acaba por cair e, de castigo, António deixa-a ali durante a noite. Ora, este facto provoca também um rompimento entre António e Teresa.

Numa nota de intenções, Luís Campos revela: “Pretendo questionar os pontos de vista de uma sociedade liderada por homens no que diz respeito ao comportamento com o sexo oposto e como algumas convenções morais pré-estabelecidas relacionadas com o modo como lidamos com os outros são mais complexas do que parecem.” Este ato de António é precisamente uma forma de ele querer demonstrar a sua superioridade, tal como uma lampreia…

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Paralelamente, numa visita de estudo à Viarco, onde João mostra os seus dotes de desenho, ele defende-se de um ataque de ‘bullying’. João torna-se assim a lampreia da lenda, ao atacar o seu ‘predador’.

Mais tarde, cada vez mais distantes, António e Teresa acabam por seguir caminhos diferentes numa procissão. Ele, bêbedo, acaba por ser agredido por Rui e cai inconsciente. É, pois, João quem o salva e, depois deste acontecimento, também Teresa acaba por perdoa-lo. Especialmente, quando ele aceita que João fique por uns tempos numa associação enquanto tenta curar-se do alcoolismo. Embora possa ser um desfecho demasiado ‘fácil’, a verdade é que torcemos para que tal acontecesse…

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A fotografia do filme

Terra Vil
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Passando, agora, à parte técnica do filme. Mais concretamente, a parte da fotografia de “Terra Vil”… Apesar do formato 2.35 resultar muito bem no filme, especialmente tendo em conta os décors exteriores, a verdade é que, depois, em certos enquadramentos mais centrados nas personagens, o mesmo formato não resulta tão bem, o que é pena.

Por um lado, a localização das personagens no enquadramento podia ter sido melhor pensada ou, em alternativa, podia ter-se utilizado antes o formato 1.85 para um compromisso intermédio entre as personagens e os décores. Por exemplo, na cena do piquenique é onde se sente uma pior fotografia (talvez por as personagens estarem mais próximas entre si?).

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Os atores de Terra Vil

Terra Vil
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Por fim, deixo ainda algumas notas sobre os atores do filme. Em primeiro lugar, William Cesnek capta a sua personagem na perfeição, sendo esta a sua estreia no cinema. Sem ser uma personagem que ganhe protagonismo, são ‘violentos’ alguns dos seus olhares, destacando-se, por exemplo, o momento em que João está a defender o seu pai na polícia.

Quanto aos veteranos, Rúben Gomes e Lúcia Moniz, conseguem também formar uma dupla forte onde as personagens sobrepõem-se (felizmente) aos atores. Nomeadamente, Rúben Gomes consegue ser uma personagem austera e profunda com impacto no ecrã.

Terra Vil

Conclusão

  • A primeira longa-metragem de Luís Campos é uma passagem modesta mas digna do formato curto para o longo.
  • Em geral, “Terra Vil” é um filme bem conseguido onde a portugalidade fala alto e se dá destaque ao ambiente e às personagens.
  • Um pouco aquém está o argumento do filme onde um plot-point dramático muda tudo poucos minutos antes do final da narrativa.
  • A fotografia do filme está, em geral, positiva. No entanto, nem todos os enquadramentos resultam no formato 2.35.
  • O trabalho dos atores é francamente positivo, destacando-se a estreia de William Cesnek.
Overall
7.5/10
7.5/10
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