The Accountant – Acerto de Contas, em análise

The Accountant é um “tour de force” que casa drama e ação num híbrido inteletualmente estimulante e intricademente fervoroso.

Gavin O’Connor (Warrior) poderá não ser o nome mais consensual na sobrelotada e aguerrida carpete de cineastas, mas os seus filmes, especialmente aquele já mencionado, traduz uma certa marca distintiva que parece tender a empurrar o realizador norte-americano para o debate e embate antagónico familiar. Mas se “Warrior” gritava logo ao que vinha de forma descarada, este Contabilista regozija-se por iludir com os óculos catedráticos de um Christian Wolff (Affleck), que não é menos do que parece, mas é muito mais do que aparenta ser, quer na forma, quer no conteúdo. É daquele tipo de personagens que se veste a pele e deixa-se pelar as múltiplas camadas do seu substrato, para só depois conseguirmos apreciar um Ben no auge do seu jogo.

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O argumento de Bill Dubuque (O Juiz) remete-nos para o cenário improvável de um individuo com síndrome de “Asperger” – os “Aspies” como eram apelidados outrora os pacientes que sofriam de autismo, uma patologia que é hoje descrita cientificamente como uma forma de autismo altamente funcional. Christian Wolff (um dos seus muitos “alias”) é, por isso, um lobo solitário politicamente aprumado e obsessivamente organizado, que não reúne qualquer ou nenhuma simpatia pela sua matilha social, encontrando muito mais empatia nas suas equações matemáticas.

“Christian Wolff (…) é daquele tipo de personagens que se veste a pele e deixa-se pelar as múltiplas camadas do seu substrato, para só depois conseguirmos apreciar um Ben no auge do seu jogo.”

Mas Dubuque, não nos quer entendiar com mais um caso clínico de genialidade cognitiva como se invocar um John Nash ou um Will Hunting chegasse para dar coro às hostes. Não, aqui o caminho que se pretende trilhar só poderia elevar a testada fasquia da proficiência inteletual, reclamando que um tal de “Bom Rebelde” seja menos bom e mais “Bourne” que simples rebelde. É nesta duplicidade entre a contenção metódica e a descompostura rigorosa que vive Ben Affleck como nunca viveu, ele que sempre pareceu demasiado “compincha” no grande ecrã, caminha agora como Wolff na sua melhor pradaria. Mas afinal quem é este contabilista misterioso que por esta altura já deve ter captado toda a vossa atenção?

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Bem, se optarmos pela resposta mais rápida, podemos contabilizar que este contabilista costuma trabalhar com somas de dinheiro avultadas, daquelas que envolvem algo de ilícito. Trocando por miúdos, Christian Wolff  é o “cleaner” que é convocado pelas grandes organizações criminosas para colocar ordem nas contas da casa e, talvez, algo mais…E é neste (algo mais) que o enredo floresce como uma planta rara que dá nas vistas de vez em quando, oferecendo um tom sombrio e belicista que não se compadece com as amarras temáticas da sua vertente mais dramática.

“É nesta duplicidade entre a contenção metódica e a descompostura rigorosa que vive Ben Affleck como nunca viveu, ele que sempre pareceu demasiado “compincha” no grande ecrã, caminha agora como Wolff na sua melhor pradaria.”

A condição especial de Wolff é tratada aqui de forma pouco convencional ou até contra natura de um ponto de vista estritamente médico, já que a “plot” viaja frequentemente ao passado tenro do contabilista para nos dar a conhecer a brutalidade do seu treino coercivo em “Pencak Silat”, uma arte marcial oriunda da indonésia supervisionada impetuosamente por um pai militar, crente na violência como terapia darwinista de sobrevivência na selvajaria do mundo. E é com uma rima de berçário como mote – que invoca o nascimento e a morte de Solomon Grundy numa semana -, que Wolff é lançado às feras como um cão para desancar sozinho num grupo de delinquentes, conferindo uma rudeza ao guião de cortar a respiração.

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A intriga principal envia Wolff aos livros contabilísticos de uma multinacional de robótica (Living Robotics), aonde esbarra com um cérebro menos luminoso que o seu, o de Dana Cummings (Anna Kendrick), a rapariga “dorky” de trazer pela secretária que trata da contabilidade lá do sítio. É ela quem sustenta a cara de póquer de Wolff com a sua doçura e avidez por uma ligação interpessoal, atenuando a sua dimensão mais sisuda e plácida, num equilíbrio de forças “Pollock” gerido com pinças por O’Connor.

“O enredo floresce como uma planta rara que dá nas vistas de vez em quando, oferecendo um tom sombrio e belicista que não se compadece com as amarras temáticas da sua vertente mais dramática.”

Sim, porque apesar de Affleck hipnotizar-nos com adições e subtrações em paredes e vidros até as esferográficas esgotarem a tinta e as testas ficarem com túneis de entrada e saída direta, a trama secundariza-se para alocar outros intervenientes de peso como Ray King (J.K. Simmons), o diretor da Divisão Criminal do Departamento do Tesouro, Brax (Jon Bernthal), um assassino a soldo com uma agenda oculta ou Lamar Black (John Lithgow), o boss da “Living Robotics” com ar de benfeitor. Tudo isto é cozinhado lentamente numa panela de pressão até o ponto de ebulição ser atingido, quando os números deixarem de o ser para serem outra coisa qualquer.

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The Accountant espreita pelos cantos e apanha-nos desprevenidos quando menos esperamos. O’Connor consegue efetuar esta colagem de várias temáticas geralmente tratadas isoladamente, abordando-as de forma séria e pertinente, que acabam por fazer emergir este anti-herói com um “je ne sais quoi” de “Daredevil”. Ben Affleck é magnético e inquietante na construção dual deste prodígio letal, cujo potencial é amplificado pelos trechos abstratos e padronizados de Mark Isham – o renomeado compositor que afirma ter criado aqui a sua “score” mais diversificada. Acerto de Contas passa a fatura com sofisticação e espalhafato, na antecâmara de um “Justice League” ou até mesmo de um “Batman” de Affleck.

P.S. – Nasceu numa segunda, batizou-se numa terça, casou-se numa quarta, adoeceu numa quinta, piorou numa sexta, morreu num sábado, enterrou-se no domingo, e este foi o fim de Solomon Grundy…


O MELHOR
– A interpretação intimista e musculada de Ben Affleck como um “one man show” imparável. O enredo esconde eficazmente a revelação das suas surpresas.

O PIOR – Alguns momentos mortos e “flashbacks” com demasiada exposição quebram a espaços a cadência da ação.


Título Original: The Accountant
Realizador: Gavin O’Connor
Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J. K. Simmons
NOS | Drama | 2016 | 128 min

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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