˝The Criminal Man" | © LEFFEST

LEFFEST ’19 | The Criminal Man, em análise

The Criminal Man” é um pesadelo de niilismo geórgico e um dos filmes mais tenebrosos em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Independentemente do seu sucesso ou fracasso, há que admirar as ambições do realizador Dmitry Mamuliya. Com “The Criminal Man”, o cineasta geórgico tenta mapear a evolução de um assassino mesmo antes de este matar a primeira vítima. Trata-se de um retrato de personagem perdido em abstrações complicadas e uma pintura social afogada em niilismos. Há realismo puro e duro e há fantasia estilística, há uma tentativa de explorar emoções com resoluta inexpressão. Há muito e muito pouco, pois de toda esta receita resulta uma confecção tragicamente sensabor.

O filme começa com um prolongado plano geral de dois carros brancos a atravessar a paisagem despida. Vemos o interior de um dos carros e vemos a cara de um homem que tudo isto observa à distância. A ação move-se em compasso glacial, mas, antes de nos apercebermos do que se passa, três tiros são disparados e as viaturas desaparecem. Um homicídio acabou de ter lugar e a vítima é o guarda-redes da equipa nacional de futebol da Geórgia. A testemunha que isto viu é um zé-ninguém, mas o impacto do evento vai-lhe dar a ilusão de ser alguém importante.

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Giorgi Meskhi é um homem de 28 anos que trabalha na indústria local. Ele tem uma irmã e tem uma sobrinha, tem desejos e uma cara que nada revela. Ele vive uma existência sem sentido ou significado, ou pelo menos essa é a ideia que lhe consome o espírito e envenena a mente. Como tantos outros homens violentos do cinema, ele é um niilista que procura encher o vazio que tem no coração com qualquer coisa que o faça sentir vivo. No caso de Giorgi, o que lhe insufla o peito de orgulho e significado é o horror que viu naquela estrada anónima.

De facto, ele começa por não contar o que quer que seja a ninguém, nem mesmo à polícia. Só mesmo a vontade de ter outros a reconhecer a sua importância o faz contar à irmã. Não que ela tenha grandes conselhos para dar a este indivíduo cuja obsessão se torna tão intensa que ele retorna ciclicamente à cena do crime. Uma vez, ele até se deita no chão imitando a pose do cadáver e suscitando suspeitas de outros vagantes da estrada. Nesse sentido, “The Criminal Man” é uma grotesca forma de romance, uma história de amor entre um homem e uma carcaça humana, entre a vida sem sentido e a Morte.

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Qual “Joker” do Cáucaso, “The Criminal Man” é um documento das origens do mal. Giorgi pode não se pintar como um palhaço assassino, mas a sua revolta contra o mundo nasce da mesma loucura de alguém que se julga no direito de tirar a vida a outro. Todos lhe devem e ninguém lhe paga, todos são apenas sacos de carne à mercê do predador. O que começa por ser uma investigação amadora torna-se na transfiguração da testemunha no assassino e, à medida, que Giorgi perde a moralidade também o filme perde forma e começa a fragmentar-se

Para melhor delinear as mudanças que o filme vai sofrendo, o realizador e o coargumentista Archil Kikodze separaram o conto em capítulos e raramente se dão ao trabalho de unir as partes díspares com transições fluidas. A aura de Dostoievski consome o filme e seus arcos narrativos, mas estes cineastas não têm nem um pingo da astúcia desse astro literário. Parte do problema é que Giorgi é patologicamente vazio e desprovido até da insanidade expressiva que torna estas tramas sociopáticas em algo empolgante. A consequência destes passos em falso é um drama tão vazio como o seu protagonista.

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Nada disto é culpa de Giorgi Petriashvili, mas o ator principal também não ajuda. A sua prestação está em perfeita sintonia com as demandas do guião, mas o niilismo vácuo do texto faz da performance um buraco negro. Giorgi é uma cifra e um mistério por resolver. O problema é que o espectador nunca sente vontade de desvendar os seus segredos. Este assassino em crescimento não surpreende e não nos diz nada sobre a natureza humana. Sua transformação aparenta nascer mais do desejo dos cineastas chocarem a audiência burguesa do que de qualquer tipo de inspiração artística.

Pelo menos, “The Criminal Man” é geralmente bem filmado. Apesar de ter uma conclusão odiosa, um interlúdio musical é um orgiástico espetáculo de fotografia e movimento de câmara seguido de uma perseguição noturna tão tensa que nos faz perder a respiração. Outros momentos individuais também se destacam, só que a sua junção na tapeçaria fílmica é meio desajeitada. Na boa tradição do slow cinema sem propósito, “The Criminal Man” veste a sua letargia como uma medalha de honra e nunca se indaga sobre a funcionalidade de tais escolhas rítmicas. Por outras palavras, o filme é tão aborrecido que podia ser receitado como um alternativo aos soporíferos mais fortes do mercado.

The Criminal Man, em análise
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Movie title: The Criminal Man

Date published: 2019-11-22

Director(s): Dmitry Mamuliya

Actor(s): Giorgi Petriashvili, Vladimer Kobakhidze, Goderdzi Liparteliani, Natalia Jugheli, Madona Chachkhiani, Nukri Revishvili, Anna Talakvadze, Vasilisa Zemskova

Genre: Drama, Thriller, 2019, 135 min

  • Cláudio Alves - 35
35

CONCLUSÃO:

“The Criminal Man” quer ser Dostoievski, mas nem chega aos calcanhares das mais prosaicas histórias de vilões da banda-desenhada. O filme é portentoso e rígido, glacial e entediante. Ocasionalmente, vislumbramos o potencial de algo melhor. No entanto, esse potencial nunca se concretiza em nenhum feito meritoso.

O MELHOR: O assassinato inicial é impressionante na sua rigidez formal.

O PIOR: O ritmo letárgico, o vazio textual e a inexpressão absoluta.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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