The Crown, quinta temporada em análise

Chegados os anos 90, “The Crown” centra-se no melodrama familiar e foge à história política. Nesta quinta temporada, a série da Netflix exibe elenco renovado, com Imelda Staunton, Elizabeth Debicki e Dominic West impressionando nos papéis principais que outrora valeram prémios aos seus intérpretes. Depois do triunfo passado do programa, especialmente nos Emmys de 2021, será que esta nova remessa de episódios seguirá a tradição de sucesso? Uma coisa é certa – na presente situação real, com novo rei no trono e o luto ainda fresco, a nova temporada vai dar que falar, quer seja por boas ou más razões.

Num teste de Rorschach, faz-se a avaliação psicológica através da interpretação pictórica. Ao paciente mostra-se uma mancha de tinta, forma abstrata e simétrica sobre a qual cada pessoa pode projetar sua especificidade mental, daí extraindo diferentes possibilidades de significado. O importante é que a experiência de quem vê faz-se gesto revelador não para o objeto observado, mas sim em relação ao observador. Mencionamos tudo isto para contextualizar uma das melhores e mais frustrantes qualidades de “The Crown.” Já na sua quinta temporada, a megaprodução da Netflix persiste num limiar de ambiguidade e ambivalência, transfigurando-se numa espécie de teste de Rorschach à escala épica.

Cada um vê algo diferente no mesmo objeto televisivo, expondo-se a si mesmo pelo caminho. Peter Morgan é sabido defensor da monarquia, mas a série que criou tanto deleita republicanos como monárquicos, gregos como troianos. Não se trata de uma equivalência certa entre a crença política do espetador definir o amor pelo programa. Muitas vezes, o oposto acontece, com cada fação a encontrar razões diametralmente opostas para se ultrajar perante “The Crown.” Judi Dench é uma das muitas figuras públicas que veio criticar esta dramatização da História, apontando o dedo a algo que a atriz considera lúrido e inapropriado num momento de simultâneo luto sobre a morte de uma rainha e celebração pela ascensão de novo rei.

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© Netflix

Esta multiplicidade de interpretação sem nenhuma intencionalidade clara pela parte dos artistas criadores sempre esteve no âmago do sucesso e antinómico fracasso da série perante diferentes audiências. Em suma, a ambivalência é sua maior qualidade e o maior defeito. Nos anos anteriores, isso beneficiou muito a série, permitindo-lhe puxar pelo aspeto visceral da sua história sem cair na esfera do comentário social. Apesar de celebrarmos quando “The Crown” deixa a ambiguidade e realmente mostra uma opinião política sobre aquilo que, na essência, é uma narrativa factual intrinsecamente política, entendemos quanto isso pode diluir sua qualidade operática. Contudo, há que haver um equilíbrio, um balanço que é difícil preservar.

Neste caminhar pela corda bamba, negociando as forças do melodrama familiar e da crónica de uma nação ao longo do século XX que puxam em direções opostas, a quinta temporada vacila mais do que esperado. Deitam-se fora os livros de História em prol do tabloide, sustentando-se dez episódios num registo que pisca o olho à telenovela sem abandonar os preceitos do drama de prestígio. A qualidade técnica da produção mantém-se firme, e o elenco também, mas a falta de perspetiva que outrora foi benefício, agora é o que faz cair o Carmo e a Trindade. Começando e acabando com o iate real enquanto metáfora para a família Windsor às portas de um novo milénio, esta quinta temporada entretém, mas também frustra.

Enfim, nem tudo são dramaturgias anti climáticas ou um final que parece prólogo ao invés de conclusão. Temos que reconhecer que, sendo esta a penúltima temporada, encontramos a equipa de “The Crown” num período de transição. Também a realidade do presente influencia a leitura da série, mesmo que toda a produção tenha sido concluída muito antes de Isabel II dar lugar a Carlos III. Se há alguma falinha mansa no modo como se aborda o antigo Príncipe aquando do divórcio, ela não se manifesta devido à censura do artista. Afinal, nem tudo é um mar de rosas para o Carlos agora interpretado por Dominic West, cuja aparência em nada sugere o novo rei.

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Repare-se como ele passa a maior parte da temporada em esquemas e intrigas, sedento do trono ora por abdicação da mãe ou outro azar do destino. Sempre se perdem as personagens numa tempestade de contradições. Isso acontece com Carlos e os outros membros da Família Real também, nomeadamente a Princesa Diana. Elizabeth Debicki segue Emma Corrin no papel mediático, dando vida a uma versão mais multifacetada da figura trágica. Quem deseja uma vitimização mártir com glamour à mistura é capaz de se desiludir, especialmente nos primeiros episódios, quando a personagem é presença secundária. Há toques de inteligência fria na caracterização, uma vontade de mostrar arestas vivas e um suspiro de humor traquinas de vez em quando.

De facto, comparando com as que a precederam, diríamos que esta é a temporada com mais humor do “The Crown,” chegando mesmo a torcer o nariz ao simbolismo desbocado de Morgan em momentos metatextuais. Voltando à princesa do povo – mais do que a imitação perfeita, estamos perante uma prestação de Debicki onde se privilegia a criação do argumentista à figura idealizada das massas ou o espectro perpetuado em filmagens de arquivo. Prevemos que haverá muita gente insatisfeita com esta nova visão de Diana, mas, por cá, assumimo-nos fãs. O mesmo acontece com Imelda Staunton que segue Claire Foy e Olivia Colman no papel da Rainha Isabel II.

Num desempenho definido pela inação, pelo fazer nada e o esconder da emoção, a atriz consegue escavar a humanidade perdida entre o subterfúgio da chefe de estado. No equilíbrio entre a mimese e a caracterização original, atrevemo-nos a declarar Staunton como a melhor rainha até agora. Visto que as outras atrizes ganharam Emmys pelos seus esforços, esperamos que a justiça se repita com a nova monarca. O elenco é a maior mais-valia da série. Sempre foi e sempre assim será, desafiando uma panóplia de atores a trabalharem em registos de difícil demonstração emocional. Podíamos escrever um pequeno livro sobre as várias escolhas do elenco e suas melhores cenas.

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© Netflix

Pensamos numa autópsia matrimonial sobre ovos mal mexidos para Debicki e West, uma confrontação invernal para o Príncipe Filipe de Jonathan Pryce, no romantismo melancólico de Lesley Manville e Timothy Dalton como Margarida e seu antigo noivo, as muitas camadas de desilusão que Staunton incorpora no episódio sobre o annus horribilis de 1992, etc. Até as estrelas convidadas primam pela complexidade, desde um capítulo dedicado a Mohammed Al-Fayed até aos interlúdios de gente anónima numa hora focada sobre o tema do divórcio. Só a figura do primeiro-ministro é marginalizada pelo guião nesta etapa da história onde a fação política da narrativa aparece rasurada, esquecida.

Sem a grandiosidade de glórias passadas, esta nova temporada de “The Crown” desaponta em algumas medidas sem deixar, por isso, de ser um fenómeno televisivo que merece a atenção de todas as audiências. Desde a imagem de um palácio reduzido a cinzas até ao suspiro contido de um final que antecipa a perda de um ícone, esta é uma megaprodução com muito valor e prestações fabulosas, joias preciosas que brilham até na mais profunda escuridão.

“The Crown” estreia já dia 9 de novembro na Netflix. Não percas!

The Crown, quinta temporada em análise

Movie title: The Crown

Date published: 6 de November de 2022

Actor(s): Imelda Staunton, Elizabeth Debicki, Dominic West, Jonathan Pryce, Lesley Manville, Claudia Harrison, Marcia Warren, Jonny Lee Miller, Olivia Williams, Salim Daw, Khalid Abdalla

Genre: Drama, História, Biografia, 2022

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Uma série que sempre se primou pelo equilíbrio entre a História e o melodrama tem dificuldade em trazer a sua narrativa até aos tumultuosos anos 90 da família Windsor. Marginalizando questões políticas e dando muito valor ao furor do tabloide, a série perde-se em ambivalências precárias e estranhas escolhas estruturais. Mesmo assim, há muito que amar nestas dez horas de entretenimento, desde os interiores divinais até à cornucópia de atores brilhantes dando sua interpretação pessoal de papéis icónicos. Staunton e Debicki merecem especial aplauso.

O MELHOR: Os episódios sete, oito e nove, sobre a entrevista de Diana com a BBC e o divórcio final dos Príncipes de Gales são as horas mais estrondosas desta quinta temporada. Muito ajuda que são os capítulos mais centrados na paranoia precipitante de Debicki como Diana.

O PIOR: Um ponto final que termina esta sequência de dez episódios num suspiro contido, um murmuro ao invés de um “bang” sonoro. Também questionamos a estrutura cronológica e temática da série enquanto arco narrativo, especialmente no que se refere a um episódio com ares russos que muito abusa dos flashbacks. O episódio sobre a infame chamada gravada entre Carlos e Camila também nos desapontou, mesmo que dê grande destaque à prestação de Dominic West.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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