via 79º Festival de Veneza/'Argentina, 1985'.

Argentina, 1985, em análise

‘Argentina, 1985’, de Santiago Mitre foi vencedor do Prémio da Crítica (Fipresci) no último Festival de Veneza e do Prémio do Público no Festival de San Sebastián e vai certamente ser um dos filmes do ano de 2022 no que diz respeito aos Óscares de Filme Internacional. Está disponível na Amazon Prime Video, mas é mais um daqueles filmes que é pena que não chegue às salas. 

’Argentina, 1985’, do realizador argentino Santiago Mitre (‘O Estudante’), um filme sobre o processo contra a Junta Militar argentina de Videla, já a meio da competição de Veneza 79, pôs a crítica a rejubilar e a dá-lo como favorito ao Leão de Ouro. Infelizmente ganhou apenas o Prémio da Crítica, mas isso não lhe tira o mérito de ser um dos melhores e mais apreciados filmes da temporada de outono de 2022. A projeção oficial no Teatro Victoria Eugenia, por exemplo, em pleno Festival de San Sebastián  — onde o filme esteve fora do concurso — foi apoteótica e não podia ter sido mais emocionante com a sala cheia, muitos aplausos e a ouvir-se o grito de ‘¡Nunca más!’, à ditadura. Já em ‘O Estudante’ (2011), o realizador argentino tinha observado pormenorizadamente a evolução da democracia no seu país, falando das crises de poder, do hábito das negociações por baixo da mesa e da ascensão e percurso, nem sempre muito ético e dos golpes sujos dos políticos, aliás um retrato bem presente, na generalidade dos países da América Latina. ‘Argentina, 1985’, trata-se de mais um filme político onde aspectos públicos e o privados dos seus personagens alternam-se e complementam-se numa abordagem bastante ampla de dois grandes temas de uma enorme actualidade: os direitos humanos e a justiça. Contudo, neste novo drama político Mitre, procura contar com exactidão a história verídica dos procuradores que investigaram e construíram a acusação contra os responsáveis dos anos de chumbo e a resposta da justiça à vergonhosa história de um país que esteve subjugado por uma sangrenta ditadura militar entre 1976 e 1983.

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VÊ TRAILER DE ‘ARGENTINA,1985’

‘Argentina, 1985’, é na verdade também um filme de tribunal, onde é contado todo o processo liderado pelo veterano e polémico procurador Julio Strassera (Ricardo Darín) e pelo jovem Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani), que ousaram investigar a Junta Militar, para obter justiça e ver reconhecido o sofrimento das muitas vítimas daqueles anos de autêntico terrorismo de Estado, repressão e tortura. Foram quase quatro meses de julgamento ou melhor uma verdadeira corrida contra o tempo, para construir a acusação, com cerca 833 testemunhas e sobreviventes, que estiveram na rede de centros clandestinos de detenção e tortura, além de tentar descobrir o destino dos mais de 30.000 desaparecidos. O filme de Mitre mostra de uma forma extraordinária e ao ritmo intenso de um filme de Hollywood, esse vertiginoso trabalho jurídico, marcado por ameaças de morte e atentados à bomba, e de uma batalha entre David e Golias, reconstruída na realidade com minúcia e paixão, por um grupo de jovens juristas — e também por uns jovens e brilhantes intérpretes — capitaneados pelo procurador Julio ‘Loco’ Strassera, interpretado pelo sempre extraordinário Ricardo Darín.

79º Festival de Veneza
via 79º Festival de Veneza/’Argentina,1985′.

O longo e complexo processo, feito sob pressão de tempo e sob constantes ameaças, que jovem equipa de juristas enfrentou e ousou empreender é retratada e habilmente condensada num filme de 2h20 que passam a correr, para que este se torne popular, acessível convincente e emocionante; sobretudo até quando introduz certas doses de humor que surpreendem e relaxam uma narrativa vibrante e cheia de ingredientes históricos, domésticos e também idealistas, todos de grande interesse histórico e humano. Mitre teve sobretudo a coragem de filmar algo que até agora nunca ninguém se tinha atrevido a fazê-lo e mais fê-lo nos locais onde efectivamente aconteceram os factos, ouvindo muitos testemunhos reais e reconstruindo-os na perfeição. Razão pela qual a Amazon Studios apostou que este filme fosse o seu primeiro projecto original ‘made in Argentina’, dada também a universalidade do tema. Porém é pena que não tivesse também chegado às salas de cinema, pois nem toda a gente é subscritora da plataforma.

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Argentina, 1985
via 79º Festival de Veneza/’Argentina, 1985′

Mesmo assim, não deixa de ser uma confirmação e um importante reconhecimento para o argumentista e realizador de 42 anos natural de Buenos Aires, sem dúvida um dos mais interessantes cineastas argentinos do momento. Em ‘Argentina, 1985’ Santiago Mitre procura mostrar às novas gerações de todo o mundo, que ‘ditaduras nunca mais’ e que é preciso ‘voltar a acreditar’ na democracia, aliás indiscutivelmente as frases e as mensagens-chave deste filme extraordinário, que decerto vai dar que falar na corrida aos Óscares da temporada.

JVM

Argentina, 1885, em análise

Movie title: Argentina, 1985

Movie description: ‘Argentina, 1985’, de Santiago Mitre é um filme está inspirado na história real de Julio Strassera, Luis Moreno Ocampo e a sua jovem equipa jurídica que se atreveram a acusar, contra todos os ventos e marés, a contra-relógio e debaixo de constantes ameaças, a sangrenta ditadura militar argentina, entre entre 1976 e 1983.

Date published: 7 de November de 2022

Country: Argentina, 2022

Duration: 140 minutos

Director(s): Santiago Mitre

Actor(s): Ricardo Darín, Peter Lanzani

Genre: Drama

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  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO

‘Argentina, 1985’ de Santiago Mitre conta-nos o processo e o julgamento  contra a Junta Milita da Ditadura Argentina do General Videla, que teve com o herói (quase) forçado o procurador Julio Strassera, interpretado com brilhantismo por um enorme Ricardo Darín. É um processo que marcou o passo oficial da Argentina rumo à democracia. O filme é construído como um thriller político e judicial com uma efectiva realização que tem o aroma de alguns dos melhores filmes do género do mainstream do cinema de Hollywood, mas desta vez completamente e corajosamente ‘made in Argentina’. Apesar de tudo é um filme com vocação universal que completa o seu oportuno apelo à memória, revelando-se tão épico, sincero e imortal quanto actual.

Pros

A equipa de jovens actores, mas como quase sempre apoiados pelo brilhantismo do grande Ricardo Darín, dão uma enorme credibilidade ao filme feito ao ritmo de Hollywood.

Cons

Nada contra as plataformas, mas o facto de não estrear nas salas e estar disponível só para subscritores, torna difícil atestar o eco que o filme poderia causar em quem o veja em qualquer lugar do mundo.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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