"The Crown" - T5 | © Netflix

The Crown | O elenco reflete sobre a nova temporada

Para marcar a estreia da quinta temporada, o elenco principal de “The Crown” deu uma conferência de imprensa em que a Magazine.HD teve o privilégio de participar. Imelda Staunton, Jonathan Pryce, Elizabeth Debicki, Dominic West, Lesley Manville e Jonny Lee Miller foram os atores presentes.

Quando se reuniram na manhã do dia 8 de novembro, véspera da grande estreia, o elenco de “The Crown” ainda não havia visto o fruto do seu trabalho. Desde Jonathan Pryce a Lesley Manville, os vários atores confessaram não ter oportunidade de ver a quinta temporada do programa, apesar de já terem completado filmagens há um ano e já se encontrarem em rodagens da sexta e última série. No caso de Elizabeth Debicki, que dá vida à Princesa Diana, um problema técnico é culpado deste azar, acesso negado na conta da Netflix. Enfim, até as estrelas se defrontam com estas questões banais da tecnologia teimosa.

Pequenas anedotas como essa fazem-nos sentir mais próximos desses astros do pequeno e grande ecrã, diminuindo a distância sentida entre a gente vulgar e aquelas visões da cultura pop. Trata-se de um gesto humanizante que, em certa medida, replica o modo como “The Crown” nos ajuda a entender figuras históricas além da sua imagem pública. Veja-se o exemplo de Jonny Lee Miller, ator responsável pelo papel de John Major, líder conservador e Primeiro-Ministro Britânico durante grande parte da década de 90. Para o ator que cresceu numa família que sempre manteve crenças esquerdistas, parte do trabalho foi descobrir as afinidades entre si e o papel.

Nas palavras de Miller, há que se respeitar a personagem, quiçá até nos apaixonarmos um pouco. Manville, a nova Princesa Margarida, concorda com essa perspetiva, referindo-se à série como todo um exercício de empatia e promoção do entendimento. Há aqui uma missão na dramaturgia, uma intenção clara de contar a história pessoal ao invés da História com “H” grande. Focando-se na interioridade secreta das personagens, os atores redescobrem o passado em perspetiva alterada. No caso de Margarida, ela evidencia-se enquanto uma assombração de romantismos perdidos, tipificados pelo episódio onde reencontra uma paixão de outrora.

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Segundo o seu testemunho, foi um prazer para Manville trabalhar com Timothy Dalton, especialmente no que se referiu à cena de dança que tanto marca o seu episódio juntos. A coreografia, aprendida em lições de corpo, serve de veículo pelo qual a série se propõe a explorar a personagem num momento de transição e introspeção. No movimento dos dois ex-amantes, sentimos toda uma sinfonia de vidas entrelaçadas, um canto silencioso que nos fala do que ela teve, o que não teve, o que nunca terá – tudo ecoa pela dança. Escusado será dizer que esse capítulo tão centrado na Princesa e seus amores perdidos é um dos episódios mais comoventes da série.

Mas nem tudo são interlúdios nostálgicos, passeios pelos jardins da memória amorosa e felicidades passadas. No caso da Princesa Diana, a quinta temporada é o prelúdio do fim, a história da separação e do divórcio que antecedeu a tragédia em 1997, essa conclusão do conto-de-fadas que foi tudo menos mágico. Não há quem fique indiferente a Diana, dentro e fora de cena, e até hoje o seu legado perdura na consciência coletiva. Por isso mesmo, Debicki confessa que estava muito nervosa perante a responsabilidade do papel. Se Manville e Dalton dançaram um com o outro, a atriz australiana fez um tango periclitante com as expetativas da audiência.

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A pressão tornou difícil deixar a personagem no plateau, esse eterno cliché dos atores consumidos pelo papel. É claro que, como sempre acontece com clichés, lá porque são muito repetidos não quer dizer que sejam mentira. Algo que facilita o envolvimento na figura histórica é, sem dúvida, toda a equipa de pesquisa que a série tem a serviço dos atores. No caso de Debicki, estudar Diana foi especialmente importante no que se refere aos momentos mais casuais, essas imagens silenciosas demasiado banais para os tabloides. Algo tão corriqueiro como o modo da Princesa abrir e fechar a porta do carro provou ser fulcral para aceder à personagem.

Os figurinos, a caracterização e o treino de voz ajudaram muito também – e todo o elenco presente concorda – assim como os restantes atores com que Debicki partilhou a maioria das cenas. A atriz teve especiais palavras de apreço para com os miúdos que deram vida a Harry e William, dando graças aos diretores de casting pelo seu fenomenal trabalho. Um desses atores juvenis foi Senan West, encarnando o presente Príncipe de Gales e futuro rei sucessor a Carlos III. Se repararam no apelido partilhado com outro membro do elenco, não estão equivocados, pois Senan é filho de Dominic West na vida real.

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O Príncipe Carlos do pequeno ecrã ficou muito feliz por ver o seu menino em cena, cheio de orgulho paternal e admiração profissional. Dito isso, a narrativa da personagem não lhe deu muita oportunidade para projetar essa felicidade para a câmara. Apesar de ver o propósito da temporada como uma oportunidade de dar voz às duas fações de um dos divórcios mais mediáticos de sempre, o ator fala em como muita da caracterização se baseia em tudo conter, não se abrir para o mundo e esperar que as pessoas se aproximem dele ao invés de tentar conectar-se com seus colegas no plateau, com a própria câmara.

Esse foi um dos grandes desafios para Imelda Staunton que, na figura da Rainha Isabel II, se depara com uma personagem definida pela passividade e a ideia de que fazer nada é parte essencial da monarquia. Pelo menos, assim diz “The Crown.” Em resposta à Magazine.HD, a atriz descreve esse processo de contenção como um excelente exercício de ator. Há que trazer a audiência para dentro da interioridade da rainha, fazer entender o que ela sente, sem mostrar grande coisa. Enquanto família real, as personagens estão assim confinadas pelo dever, mas assim os atores dependem do trabalho de Peter Morgan para explorar o âmago secreto da história.

Uma grande ajuda para Staunton foi o facto de já ter trabalhado outrora com muitos dos seus colegas no elenco. Também houve aí um elemento de experiência partilhada, sendo que a mudança de atores de temporada para temporada faz de todos eles novatos. Assim são em contraste com a restante produção que permanece igual ao longo dos anos, artistas que já conhecem a série de dentro para fora e de trás para a frente. É estranho pensarmos em grandes intérpretes do teatro e cinema britânico desse jeito, mas Staunton insiste que se sentiu como uma novata nos primeiros dias de filmagens. Também Jonathan Pryce partilha a perspetiva da atriz que faz de sua esposa na série.

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O ator que representa o Príncipe Filipe nesta quinta temporada foi o membro do elenco que mais refletiu sobre a política atual e o magnetismo, quiçá a mística, da monarquia britânica. Pryce comparou os Windsor com as restantes famílias reais da Europa, muitas das quais têm membros que vivem vidas separadas do papel simbólico da Coroa. Há falta de mistério na sua apresentação perante os súbditos, falta a alienação que faz da Família Real britânica algo distante e acima do vulgar. Em concordância, Dominic West descreveu o funeral da rainha como uma espécie de encenação de massas, um teatro autêntico, um rito tornado espetáculo.

A respeito do luto generalizado por Isabel II, Pryce considera que a morte da Rainha vai afetar o modo como as pessoas abordam a série. Contudo, também acha que isto pode atrair mais audiências e quiçá trazer algum conforto ao espetador. Afinal, há algo de reconfortante na figura da rainha, especialmente numa conjetura atual onde políticos como Liz Truss padecem de falta de confiança e acabam por perder seus cargos num abrir e fechar de olhos. Em seguimento dessa lógica, Staunton atreve-se a dizer que as pessoas não amavam a Rainha propriamente. Pelo contrário, admiravam-na pela fidelidade ao cargo que herdou.

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Discutindo essas qualidades de Isabel II, os atores em geral comparam a rainha a um cavalo com palas nos olhos. Não se trata de um insulto, mas um reflexo da sua consistência enquanto líder, sempre olhando para a frente e movendo-se em gesto seguro e perpétuo. Na verdade, muito se falou de gestos e movimentos, desde aquele abrir e fechar de portas que Debicki estudou em Diana até aos apertos de mão do Príncipe Filipe. Pryce menciona como há formas generosas de cumprimentar o outrem, linguagens corporais que contrastam com aqueles que forçosamente puxam a pessoa para dentro do seu espaço. Em estilo meio trocista, o ator refere-se a Trump e seus maus modos.

Para Lesley Manville, a parte física mais importante foi o modo de segurar na cigarrilha, tudo com muito drama e glamour. No caso de Miller, ele leu na autobiografia de Major sobre um acidente automobilístico na África. Esse detalhe ajudou o ator a encontrar a forma como o homem caminhava. Estes pequenos pormenores auxiliam à criação das figuras históricas, trabalhos de acumulação de detalhe e idiossincrasia. Muito se fala de figurinos e cenários, com Staunton a afirmar que nunca trabalhou numa produção com tamanho ênfase nesses detalhes. Pryce até acha que o Palácio de Windsor da série é melhor que o edifício real.

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Como nota final, fica um comentário precioso da nova Rainha Isabel II do pequeno ecrã. Na opinião da atriz nomeada para um Óscar, é mais fácil e dá mais satisfação interpretar as personagens num momento de crise. Por isso mesmo a série se foca no melodrama da família e sua dor, seus lados negros e fracassos. Não é dramático quando as coisas são fáceis e boas e “The Crown” privilegia o drama humano acima de tudo o resto.

A quinta temporada de “The Crown” já está disponível na Netflix. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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