MOTELx ’16 | The Master Cleanse, em análise

Em The Master Cleanse, uma purificação física e espiritual ganha aspetos fantasiosos quando uma estranha presença emerge de um aglomerado de fluidos humanos e negativismo.

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Nos tempos que correm, parece que a comédia de terror se está a tornar num híbrido de géneros cada vez mais popular. The Master Cleanse, a primeira longa-metragem realizada e escrita por Bobby Miller, é mais uma entrada neste mini-cânone e, tal como os seus irmãos cinematográficos, esta bizarra proposta tem um desafio imenso sobre os seus metafóricos ombros. Esse desafio é comum a todas as comédias de terror e consiste na modulação dos elementos e excessos de cada género em fusão, sua relação e complementação. Graças a uma direção surpreendentemente delicada e ternurenta, Miller consegue criar um estranho equilíbrio de tonalidades e estilizações narrativas, mas, infelizmente, o seu sucesso não transcende essa faceta do filme.

Antes de nos debruçarmos sobre tais declarações de problemas e fragilidades, apresentemos então a lunática história deste filme. Johnny Galecki (conhecido pela Big Bang Theory) protagoniza The Master Cleanse, no papel de Paul, um homem que padece de um considerável desconforto e ineptidão social e que, depois de cair no desemprego e ser deixado pela sua noiva, está à procura de uma oportunidade para se erguer do manto de angústia que o encobre. Essa oportunidade vem na forma de uma organização de “limpezas” do corpo e mente, uma espécie de paródia da moda da autoajuda e das desintoxicações com sumos. Seguindo-se a um estranho processo de audições, Paul é eventualmente selecionado para o programa de purificação e é levado até um retiro espiritual no meio da natureza.

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Nesse retiro, Paul é acompanhado por mais três participantes, um casal de namorados com alguns problemas, Eric e Laurie, e a distante e atraente Maggie, que rapidamente captura a atenção do protagonista. Sob o comando de uma guru New Age excêntrica mas severa, este quarteto é colocado, durante um dia, sob um rígido regime de desintoxicação corporal e espiritual através do consumo de um misterioso sumo. Por muito empenhados que alguns dos atores possam ser, nenhuma das personagens alguma vez se eleva acima do esquiço quase arquétipo, o que poderia até ser interessante nas mãos de outro realizador, mas Miller está claramente empenhado em fazer um indie focado na psicologia das suas personagens. O tiro acaba por lhe sair pela culatra, sendo que são, na verdade, os elementos sobrenaturais e não os humanos o que mais valoriza o filme e o fazem perdurar na memória.

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Para discutir o que vem a seguir na história, temos de cair um pouco no mundo dos spoilers, pelo que ficam avisados. Os elementos sobrenaturais acima referidos são um produto direto da “limpeza”, sendo que dos vários fluidos expelidos pelas personagens nasce uma estranha criatura, tão nojenta e desconcertante como adorável. O design destes monstrinhos é um belíssimo triunfo que traz à memória as glórias de clássicos como os Gremlins, mas o seu propósito não é o de serem espíritos destrutivos de anarquia. Pelo contrário, estes bichos estranhos são o caminho para a salvação psicológica, sendo, na sua essência, uma materialização viva de todos os aspetos negativos, tanto físicos como mentais, dos participantes na “limpeza”.

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Tal como Divertida-Mente fez o ano passado, por muito tempo parece que The Master Cleanse vai utilizar uma metáfora psicológica para desenvolver uma teoria em torno da necessidade e aceitação das partes mais negativas do nosso carácter e psicologia como parte do que nos torna e permite funcionar como seres humanos com emoções. Afinal, grande parte do tempo passado com estes seres, que crescem a olhos vistos, é dedicado à criação de laços de afeto entre eles e os seus estonteados progenitores, nomeadamente Paul e Maggie. Mas, talvez por mero acidente ou perda de controlo sobre as linhas da metáfora, simbolismo e ideologia, o guião deste filme rapidamente perde o fio à meada e, quando nos aproximamos do final, apercebemo-nos de que, apesar de satirizar os extremismos e absurdos dos programas de autoajuda e purificação New Age, Miller acabou por conceber uma apologia disso mesmo e do seu otimismo perigosamente despido de nuance.

A ajudar à festa de pequenos fracassos temos toda a execução formal do filme, onde o plano médio é rei e onde imagens planas e televisuais parecem ser a única gramática visual às mãos de Bobby Miller. A montagem também merece atenção com as suas cenas de diálogo construídas do modo mais fragmentado e prosaico imaginável. Assim The Master Cleanse acaba por se tornar num jogo de contrastes entre a mestria das criaturas e a mediocridade mundo que as rodeia, sendo que apenas alguns detalhes da cenografia conseguem sugerir algo de valor. Isto é mais irritante que catastrófico e o projeto demonstra capacidades para ser algo muito melhor e mais ousado que o seu estado atual, especialmente quando consideramos o trabalho de alguns atores como Oliver Platt, que renuncia a quaisquer fórmulas gritadas sobre o comportamento de um líder New Age e, pelo contrário, constrói um retrato de um homem cansado, sensível, carinhoso e sempre marcado pelo peso de uma grande melancolia. É uma tragédia que o filme nunca consiga encapsular a qualidade desse trabalho de ator em todos os aspetos da sua final criação.

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O MELHOR: O design e concretização das criaturinhas. O uso extenso de efeitos especiais práticos é de particular espetacularidade.

O PIOR: O desperdício que este The Master Cleanse apresenta em relação a Anjelica Huston é um verdadeiro crime. Como é que Miller se atreve a colocar esta magnificência em frente à sua câmara e depois tem a ousadia de a ignorar durante a maior parte do filme?


 

Título Original: The Master Cleanse
Realizador:  Bobby Miller
Elenco: Johnny Galecki, Anna friel, Anjelica Huston, Oliver Platt
MOTELx | Terror, Comédia, Drama | 2016 | 81 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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