John Barnes começou a desmontar a defesa pelo lado esquerdo e Lineker quase empatou.

No Festival de Cannes 2026, o documentário “The Match” (“El Partido”) de Juan Cabral e Santiago Franco transforma o Argentina-Inglaterra de 1986 num filme sobre futebol, guerra, memória, batota, génio e aquela velha suspeita de que a vida, como os árbitros, raramente vê tudo.

Há jogos que não acabam quando o árbitro apita, que continuam durante décadas, repetidos em televisões, conversas de café, documentários, livros, ressentimentos familiares, debates sobre moralidade e discussões intermináveis entre quem acha que Maradona foi um génio e quem prefere lembrar que também foi, naquele instante, um aldrabão com uma excelente impulsão. “The Match” (“El Partido”) , de Juan Cabral e Santiago Franco, não olha para o Argentina-Inglaterra do México 86 como quem visita um museu do futebol, com relíquias atrás de vidro e comentadores ajoelhados perante o mito. Olha para aquele jogo como quem abre uma ferida antiga para perceber porque é que ainda dói.

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A bola como máquina do tempo

Estreado na Cannes Première, em ano de Campeonato do Mundo, o documentário chega na altura certa: quando todos voltamos a fingir que o futebol é apenas um passatempo, embora saibamos perfeitamente que basta uma bola bater no poste para um país inteiro entrar em colapso emocional. Portugal conhece bem esse teatro. Em 1986, enquanto a Argentina caminhava para o título mundial no México, a nossa Selecção fazia uma participação penosa, eliminada logo na fase de grupos, com o Caso Saltillo a pairar como exemplo supremo de como também sabemos transformar sonhos internacionais em embrulhadas administrativas, greves, prémios, ressentimentos e um talento muito nacional para chegar ao Mundial e tropeçar na própria bagagem.

O jogo que vinha de muito longe

O filme parte de um jogo, mas não fica lá. E ainda bem. Porque aquele Argentina-Inglaterra não era apenas Maradona contra Shilton ou Lineker contra Ruggeri ou Bilardo contra Bobby Robson. Era uma tarde mexicana com dois séculos de história às costas. A Argentina e a Inglaterra estavam ligadas por comércio, caminhos-de-ferro, clubes, imigração, rivalidades imperiais, bola trazida por britânicos e ressentimentos que não cabem numa ficha técnica. Como em todas as relações históricas complicadas, odiavam-se e imitavam-se, enfrentavam-se e reconheciam-se, fingiam distância e encontravam-se sempre no mesmo relvado.

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The Match
Um documentário sobre o jogo de futebol do século. ©The Match

Depois havia a ferida recente das Malvinas, ou Falklands, consoante a pátria que se leva no bolso. Quatro anos antes, jovens argentinos tinham sido enviados para uma guerra absurda por generais que, como quase sempre acontece, preferiram mandar morrer outros. “The Match”  não comete a indecência de dizer que um golo vingou uma guerra. Seria demasiado fácil, demasiado vulgar, demasiado televisivo. Um drible não ressuscita ninguém. Uma vitória não cura uma ditadura. Mas o filme percebe que a bola, nesse dia, transportava uma carga simbólica que nenhum jogador podia controlar completamente. Eles queriam ganhar um jogo. Os países queriam ganhar outra coisa qualquer.

Dois golos, duas morais

E então aparece Diego. Não apenas Maradona, jogador. Diego, personagem literária, problema teológico, miúdo de bairro, estrela mundial, anjo com cadastro. Primeiro sobe com Peter Shilton e marca com a mão. O gesto é ilegal, claro. Não há grande filosofia que o limpe. Foi batota. Mas foi uma batota que encontrou, no contexto certo, a forma perfeita de se tornar lenda. A “Mão de Deus” é isso: uma infracção transformada em mito porque aconteceu ao homem certo, contra o adversário certo, no país certo, depois da guerra certa e antes de o mundo ter câmaras suficientes para estragar as grandes mentiras. Poucos minutos depois, Maradona marca o outro golo. O tal. O que dispensa advogados. Arranca, dribla, passa por ingleses como quem atravessa móveis numa casa escura, contorna Shilton e coloca a bola na baliza, 2-0. Se o primeiro golo precisa de contexto, desculpa, ironia e teologia popular, o segundo não precisa de nada. É futebol em estado de possessão. É o momento em que até o adversário percebe que está a perder para algo maior do que uma jogada. Gary Lineker, em “The Match”, dá ao filme esse equilíbrio raro: não esquece a frustração inglesa, mas reconhece a beleza. E reconhecer beleza na própria derrota é um sinal de civilização que, convenhamos, nem sempre abunda no futebol.

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The Match
©The Match

Peter Shilton, pelo contrário, continua preso ao primeiro golo. E compreende-se. Há injustiças que se digerem mal, sobretudo quando passam a ser celebradas pelo mundo inteiro. Para os argentinos, a mão foi astúcia, vingança simbólica, esperteza de rua. Para muitos ingleses, foi fraude. Para o cinema, foi ouro puro. Para Deus, se estava mesmo envolvido, foi provavelmente a acusação mais complicada da sua carreira.

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Bilardo, as camisolas e a arte do caos organizado

Um dos grandes prazeres de “The Match” está nos bastidores. A história das camisolas azuis parece inventada por um argumentista italiano cheio de conversa fiada. A Argentina não queria usar as camisolas alternativas oficiais porque eram pesadas para o calor mexicano. Carlos Bilardo, esse treinador meio cientista, meio feiticeiro, meio doutor da táctica, mandou procurar outras. Compraram-se camisolas simples nas ‘tiendas mexicanas’, adaptaram-se emblemas, aplicaram-se números brilhantes e, de repente, um equipamento de emergência tornou-se peça de museu. É uma daquelas histórias que provam que o futebol vive tanto do génio como da costureira que resolve o problema na véspera.

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Bilardo surge em “The Match” como figura quase cómica e monumental. Obcecado, supersticioso, táctico, eléctrico, capaz de acreditar na ciência e nas manias com a mesma devoção. Do outro lado, Bobby Robson parece representar uma Inglaterra mais clássica, mais correcta, mais composta. O filme não caricatura nenhum dos dois, mas percebe o contraste: Robson queria ganhar um jogo; Bilardo parecia preparar uma operação militar, uma cerimónia religiosa e uma tese universitária ao mesmo tempo. Tudo para que Maradona tivesse liberdade. Os outros trabalhavam, corriam, cobriam, fechavam espaços. Diego recebia a bola e inventava o impossível.

The Match
O futebol nunca resolveu o mundo. Nem a guerra. ©The Match

Há também a “Nuca de Deus”, esse gesto menos famoso de Julio Olarticoechea que  nunca teve o destaque merecido, mas que salvou a Argentina perto do fim, quando John Barnes começou a desmontar a defesa pelo lado esquerdo e Lineker quase empatou, porque já havia feito antes o 2-1. A História gosta de mãos e pés, mas às vezes depende de uma nuca. Dois centímetros para o lado e talvez o mito fosse outro. Talvez houvesse prolongamento. Talvez a Inglaterra sobrevivesse. Talvez Maradona tivesse de inventar mais qualquer coisa. O futebol é esta indecência maravilhosa: passa anos a preparar epopeias para depois as pendurar numa parte do corpo que nem costuma ter direito a publicidade.

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Valdano, Borges e a memória

O documentário ganha espessura porque não vive apenas da iconografia. Vive das vozes. Jorge Valdano é essencial, não só porque esteve em campo, mas porque pertence a essa espécie rara de futebolistas que sabem transformar uma recordação numa ideia. No “Golo do Século”, corre ao lado de Maradona e torna-se uma espécie de testemunha dentro do milagre. Está disponível para receber a bola, mas percebe que o melhor contributo é não interromper a eternidade. Há jogadores que entram na História por marcar. Valdano entra também por saber olhar.

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Jorge Valdano
Jorge Valdano entra também por saber olhar. ©The Match

No final “The Match” quando lê Jorge Luis Borges, o filme encontra uma nota inesperadamente comovente. Borges não era propriamente um adepto de cachecol ao pescoço, mas talvez por isso funcione tão bem. A literatura entra onde o futebol já não chega. Depois da guerra, da mão, do golo, da camisola improvisada, da nuca salvadora, da indignação de Shilton e da lucidez de Lineker, fica a sensação de que aquele jogo terminou em 1986, mas nunca mais acabou. Continua a ser disputado em cada repetição, em cada memória, em cada discussão sobre justiça, génio e batota.

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Cannes também sabe gritar “golo”

Na sessão de imprensa no Teatro Debussy em Cannes, o filme recebeu cerca de dez minutos de aplausos e muitos “bravo”. Não convém exagerar: Cannes aplaude muita coisa, incluindo penteados, vedetas, vaidades e filmes que no dia seguinte já ninguém consegue defender sem ajuda diplomática. Mas aqui sentia-se uma emoção verdadeira. “The Match” não pede ao espectador que seja especialista em futebol. Pede-lhe apenas que perceba como uma tarde, uma bola e um homem podem condensar política, infância, guerra, orgulho, ferida e beleza, em 90 minutos.

“The Match” é um documentário vibrante, popular no melhor sentido, inteligente sem ser pedante, emotivo sem chantagem, histórico sem parecer aula de substituição. E é, sobretudo, um filme sobre a forma como a memória escolhe os seus heróis e os seus crimes. Maradona roubou um golo com a mão e devolveu outro com o pé esquerdo, nesta meia-final em que a Argentina foi Campeã na final com a Alemanha. Talvez por isso continue a ser impossível julgá-lo apenas com o regulamento na mão.

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The Match
Um documentário sempre à sombra de Mardona. ©The Match

O futebol nunca resolveu o mundo. Nem a guerra. Nem a injustiça. Mas às vezes dá-nos uma imagem tão forte que passamos décadas a tentar compreendê-la. “The Match”  existe precisamente aí: nesse intervalo entre a batota e o génio, entre a ferida e o aplauso, entre a História e o relvado. E lembra-nos que a vida, como aquele jogo, raramente é justa. Mas, quando acerta no ângulo, até a injustiça pode ter a forma perigosa da beleza.

JVM

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