The Moment, a Crítica
“The Moment por Charli XCX”, uma produção A24 que chegou dia 5 de março às salas de cinema nacionais, apresenta Charli XCX a dar vida a uma versão ficcionada de si própria. Em vez de criar um filme-concerto ou um documentário com acesso aos bastidores da sua digressão “Brat”, a cantora britânica decidiu inovar e, entre imagens reais e outras totalmente fabricadas, criou uma paródia da indústria musical que, apesar do humor, reflete algumas preocupações bem reais em relação ao meio no qual se move.
Aidan Zamiri, responsável por videoclipes prévios da artista, ficou encarregue da realização de “The Moment”, um “mocumentário” ou falso documentário. O título do filme faz alusão a um momento muito particular e verdadeiro na carreira de Charli XCX, o momento em que passou de uma estrela pop de nicho para uma das artistas mais badaladas do mainstream.
Charli XCX e a celebração do Brat Summer
O filme inicia-se com uma montagem de inúmeros clips que aludem à insanidade e ao momento cultural imenso que foi o lançamento do álbum “Brat” em 2024, seguindo-se-lhe o “Brat Summer”, como intitulado pelos media. Um verão onde a cultura pop respirava “Brat”, com Charli XCX a galgar os tops à escala mundial e a lançar singles tão polémicos quando virais, com colaborações icónicas à mistura – de “Girl, so Confusing” com Lorde, a “Guess” com Billie Eilish, passando pela sensação de “Apple” e da sua dança, ou ainda “Sympathy is a Knife”, o seu infame tema alegadamente sobre Taylor Swift.
Tudo em “Brat” respirava energia vibrante, refrões memoráveis e sentimentos puros e expressos com sinceridade e frontalidade. E, como “The Moment” deixa desde logo bem claro, a trajetória de Charli XCX foi tudo menos um sucesso imediato. A artista lançou o seu primeiro álbum, ” True Romance”, no ano de 2013, quando tinha apenas 20 anos de idade. E é agora, já na casa dos 30, que se tornou num verdadeiro fenómeno. Tal é raro na indústria musical.
Claro, existiram certos momentos ao sol no passado. “Boom Clap”, tema composto em 2014 para o filme “The Fault in Our Stars”, ajudou a lançá-la, e quem não se lembra “I Love it” (2012), a sua colaboração com as Icona Pop? Mas não obstante, Charli era mais a artista que abre o espectáculo do que aquela que lidera a digressão mundial. Isto até “Brat”, claro está, álbum que lhe valeu uma tour planetária e ainda um segundo “Brat Summer” em 2025, com o circuito de festivais, tendo inclusive passado pelo nosso Primavera Sound do Porto.
As armadilhas da fama neste mocumentário
Com esta nova fama e popularidade vem uma responsabilidade acrescida. Charli XCX, uma artista particularmente sincera e competente na criação de relações parassociais, já falou muito publicamente sobre o fim da era “Brat” e do seu receio de não conseguir replicar este sucesso em álbuns posteriores. Em “The Moment”, de uma forma bastante invulgar, arranja maneira de endereçar e desabafar essas suas preocupações.
Neste falso documentário, acompanhamos uma versão alternativa de Charli XCX, pós sucesso do álbum “Brat”, à medida que a artista se prepara para a sua primeira digressão mundial de arenas. Tudo no filme recorda-nos o ritmo e o tom típicos de um mocumentário (pensemos em “The Office” ou no filme “What We Do In The Shadows”, entre tantos outros), inclusive o estilo de filmagem. Humorístico em natureza, “The Moment” caracteriza-se por uma certa crueza e pelo intercalar do riso com momentos mais dramáticos.

Tudo o que aqui vemos é de facto falso, mas o desenrolar do filme é inteligente o suficiente para nos fazer duvidar. Será que algumas destas efabulações se baseiam em sentimentos reais sentidos a certa altura pela cantora britânica? Será que executivos de editoras já a fizeram duvidar da sua capacidade de liderança e de decisão?
“The Moment” funciona como um gesto de denúncia. Apesar de ser definitivamente uma comédia, há uma certa revolta inerente ao seu argumento, co-escrito pela própria Charli. A artista recusou fazer um típico behind the scenes por considerar que estes são formulaicos e “gastos”.
No filme, a cantora prepara-se para gravar um filme-concerto para a Amazon, e a equipa de realização escolhida pela editora acaba por destruir totalmente a sua visão criativa, tornando o espectáculo visualmente oco, repleto de purpurina e extensões capilares coloridas, com um movimento anti-Charli. No filme, a artista é esmagada pela máquina.
O elenco versátil de The Moment
Nitidamente, sabemos que esta não é a experiência de Charli XCX, uma cantora com muita agência e transparência. Não obstante, o seu falso documentário é mordaz na crítica à tendência que os gigantes de indústria têm para anular os artistas. E na pele do avassalador e tenebroso realizador do filme-concerto fictício temos Alexander Skarsgård, num papel hilariante.
Alexander Skarsgård, que esta semana chega às salas de cinema portuguesas em dose dupla (também como co-protagonista de “Pillion”), tem vindo a demonstrar que é muito mais do que um Tarzan ou vampiro sexy, e para além dos papéis sérios que já demonstrou ser capaz de suportar, o sueco filho de Stellan Skarsgård (“Valor Sentimental”), cada vez é mais livre e variado na sua escolha de personagens e este seu Johannes é um exemplo claro da amplitude das suas competências.
Além de um elenco eficaz, o filme é também povoado por cameos inteligentes. Destaque para conversas passivo-agressivas encenadas entre Charli XCX e a sua amiga Rachel Sennott (“I Love LA”) ou ainda Kylie Jenner. Ademais, a própria Charli, que começa a dar cada vez mais passos no cinema, entrega também uma prestação rica e com uma grande amplitude de emoções.
Apesar da farsa, muitas das emoções de “The Moment” fazem-se sentir verdadeiras. As vulnerabilidades e inseguranças desta estrela pop parecem fervilhar para lá da superfície. A sua vontade de se manter relevante, de não envergar por caminhos óbvios, o seu desejo de não ser um cliché como aqueles que denuncia com esta obra.
O que veio depois deste momento
E por todo o medo de deixar o “Brat Summer” acabar, a verdade é que este “The Moment” revitaliza uma vez mais um disco excelente, com excertos aqui e ali que nos dão vontade de correr para a plataforma de streaming musical mais próxima.
Não podemos também deixar de celebrar que este “momento” não é único na carreira da artista. Sim, não chega aos calcanhares da popularidade de “Brat”, mas desde que este filme foi gravado, Charli XCX lançou “Wuthering Heights”, álbum companheiro do filme de Emerald Fennell. E do single inicial “Chains of Love” a “Dying for You”, o que não falta são temas apaixonantes neste disco de originais.
“Wuthering Heights” é um álbum deveras notável, em tudo musicalmente distinto de “Brat”, e que prova que Charli XCX está longe de esgotar o seu potencial musical e comercial. Já “The Moment” prova a sua criatividade e efetiva vontade de quebrar o molde. Achamos que o conseguiu.
The Moment, a Crítica
Conclusão
- “The Moment” é um mocumentário cómico que explora as falhas da indústria musical, com Charli XCX a representar uma outra versão de si própria. O filme inova no que diz respeito à exploração do ciclo de um álbum de sucesso e prova que a cantora britânica tem o seu próprio conjunto de regras para lá das convenções do “negócio” em que se move.

