"Era Uma Vez... em Hollywood" | © Visiona Romantica

TOP Quentin Tarantino | 7. Era Uma Vez… em Hollywood

Se Quentin Tarantino se mantiver fiel às suas promessas, “Era Uma Vez… em Hollywood” é o seu penúltimo filme. A nona longa-metragem do realizador fez furor no Festival de Cannes deste ano, onde foi aclamado pela crítica e causou polémica. Entre a equipa MHD, o filme dividiu opiniões e acaba em sétimo lugar neste ranking.

 

                   

 

Diz-se que nenhum realizador faz os seus melhores filmes no fim da carreira. No caso de Quentin Tarantino, esse dizer sabe a falsidade. Pelo menos, há que se fazer uma pequena correção. Nenhum realizador faz os seus melhores filmes em fim de carreira, mas alguns fazem os seus mais interessantes. “Era Uma Vez… em Hollywood” é certamente um dos trabalhos mais atípicos de um realizador que jamais mostrou tamanha maturidade, nem mesmo em “Jackie Brown”.

Quando se fala em maturidade, fala-se em anos de experiência acumulada tanto quanto se fala em velhice. Este é o filme de um homem velho, um homem que sabe que tem mais anos pelas costas do que para a frente e que se encontra a olhar para o passado. Não é nostalgia que lhe tolda a vista, mas sim um pesar elegíaco por tempos e lugares perdidos.

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Tais visões rasuradas pelo tempo podem sempre encontrar nova vida no cinema, esse ressuscitador de espectros e engenho que concede eternidade aos seus sujeitos. A Los Angeles de 1969 foi onde um menino pelo nome de Quentin Tarantino, assim batizado em honra do herói de um western televisivo, outrora aprendeu a amar a magia da sétima arte. É também um mundo que ele agora reconstruiu e filmou com a atenção de um amante que avidamente quer recordar todas as texturas daquilo que o enfeitiça, suas cores, suas estrelas embriagadas de álcool e sonhos de celebridade.

Mostrando-nos dois dias em fevereiro desse ano, Tarantino deixa-se embalar pelos ritmos da cidade e sua indústria do espetáculo. Não há enredo ou o diálogo afiado que tanto lhe deu fama. O que há é um cineasta a estender a mão ao seu espectador e a convidá-lo a deixar-se embalar também. Quentin Tarantino passou a carreira a piscar o olho aos artefactos culturais que ama, mas antes, deixava-se ficar pelo pastiche, agora parece que quer partilhar essas mesmas paixões connosco.

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© Visiona Romantica

O resultado é um filme longo e lânguido, marcado, acima de tudo pela inação. Trata-se de uma abordagem arriscada que tem aborrecido muita gente e frustrado até os fãs mais ferrenhos do realizador. Só no terceiro ato, que decorre na noite do assassinato de Sharon Tate, é que o Tarantino típico mostra a cara, num gesto de revisionismo histórico hiperviolento que nos lembra como o cinema não tem de ser um espelho da realidade quando pode ser um espelho do sonho.

Esse poder do cinema, essa fuga do real trágico em prol da ficção balsâmica, está presente em toda a obra. Veja-se, por exemplo, como o hábito de Tarantino revitalizar a carreira de atores caídos em desgraça agora passou do seu plateau para a história do filme. Veja-se como a Sharon Tate fantasiada vê, no cinema, a Sharon Tate cuja promessa de estrelato foi roubada pela faca de uma supremacista branca. Veja-se como, apesar de ser um conto de fadas, “Era Uma Vez… em Hollywood” não acaba com um final risonho. Afinal, a Hollywood dos grandes estúdios já morreu e, em 1969, não havia a nada a fazer, pois não Charles Manson que matou essa Hollywood. Essa Hollywood matou-se a si própria.

 

                   

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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