"Jackie Brown" | © Miramax

TOP Quentin Tarantino | 6. Jackie Brown

Jackie Brown” foi o terceiro filme realizado por Quentin Tarantino, tendo sido também o que se seguiu imediatamente ao sucesso de “Pulp Fiction”. A comparação com esse célebre triunfo não tem ajudado muito o legado deste que é um dos filmes menos vistos do cineasta.

 

                   

 

Desde que ganhou fama, Quentin Tarantino é tão ou mais admirado enquanto argumentista do que enquanto realizador. Talvez por isso, “Jackie Brown” tenda a ser tão esquecido. Afinal, trata-se do único projeto em que o cineasta adaptou um livro, “Rum Punch” de Elmore Leonard, ao invés de formular uma história original. Com o ritmo perfeito da montagem de Sally Menke e personagens coloridas com falas memoráveis, o filme é inequivocamente um trabalho de Tarantino, mas há algo que o separa dos outros títulos na filmografia do cineasta.

Esse algo é uma herança da sua origem literária, mas é também uma clara decisão formal pela parte de Tarantino. Especificamente, “Jackie Brown”, mais do que qualquer outro filme do cineasta, é um drama apoiado numa noção de realismo, tanto a nível humano como estético.

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O cinema deste autor tende a ser sempre divorciado da realidade. “Cães Danados” e “Pulp Fiction” deixam-se levar por estilizações hiperviolentas enquanto “Kill Bill” é praticamente um cartoon. “Sacanas Sem Lei” e “Era Uma Vez… em Hollywood” olham para a realidade histórica e cospem-lhe na cara. No que se refere aos restantes filmes, eles passam-se em universos claramente concebidos à imagem de géneros cinematográficos codificados. Só “Jackie Brown” foge à regra.

O filme conta a história da figura titular, uma hospedeira de uma companhia aérea mexicana que suplementa o seu salário com atividade criminal, transportando grandes quantias de dinheiro entre o México e os EUA a mando de um traficante de armas. Quando ela é apanhada, a sua vida é virada de pernas para o ar e a paranoia dos criminosos para quem ela trabalhava acabam por fazer explodir a situação num jogo de enganos e manipulações perigosas.

quentin tarantino jackie brown
© Miramax

Tarantino mostra-nos tudo isto com estudada casualidade, muitas vezes apresentando elementos da narrativa que a princípio parecem desconexos e que só no fim se encaixam. Temos a impressão que estamos a ver vidas a se desenrolarem em paralelo, naturalmente, e não as engrenagens de um enredo. Nem a fotografia de Guillermo Navarro trai esta natureza quotidiana do filme, concebendo ecos de composições e pequenos leitmotivs visuais sem nunca chamar atenção ao seu trabalho. É algo pouco vistoso e, por isso, facilmente menosprezado.

Quando tudo converge, é estrondoso, mas não é o espetáculo do clímax que nos fica da cabeça quando acabamos de ver o filme. O que perdura são as personagens, especialmente a própria Jackie Brown e o homem que se apaixona por ela. Nos seus papéis, Pam Grier, antiga estrela do blaxploitation, e Robert Forster oferecem duas das prestações mais naturalistas na filmografia de Tarantino e dão-nos também uma visão diferente do realizador. “Jackie Brown” mostra que Quentin Tarantino pode ser mais que o rei do pastiche, ele pode ser um mestre de cinema humanista também.

 

                   

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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