LEFFEST ’18 | Transit, em análise

Transit” conta a história de um refugiado alemão que, em 1942, tenta fugir de uma França que se parece estranhamente com a realidade dos nossos dias. Este exercício em deslocação histórica de Christian Petzold é um dos onze filmes a competir no Lisbon & Sintra Film Festival.

Utilizar um contexto histórico para aludir à sociedade contemporânea é uma técnica usada por inúmeros artistas que tentam criticar os tempos que vivem de um modo indireto e oblíquo. Por vezes, como aconteceu com os grandes realizadores japoneses do pós-guerra, tal uso do passado como filtro para o seu comentário e crítica sociopolítica era uma forma de circum-navegar os traiçoeiros mares da censura.

Noutros casos, é mais fácil evidenciar dinâmicas atuais usando como ponto de referência uma realidade histórica. Assim se vulnerabiliza uma audiência potencialmente relutante e se a leva a aceitar um discurso mais direto e político sobre o mundo em que vive. Além de tudo o mais, estas dinâmicas entre a arte e o passado ajudam a evitar que a História caia na abstração ou no distanciamento alienante, chegando mesmo a reforçar a sua natureza cíclica.

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Um fantasma vivo.

Nos tempos que correm, alegorias históricas passadas na primeira metade do século XX têm inegável relevância enquanto comentário sobre a ascensão de ideologias fascistas por todo o mundo, assim como as atuais crises de migração. Contudo, nem todos os realizadores estão dispostos a seguir as fórmulas usuais do filme histórico sobre problemas atuais, por vezes sublinhando a especificidade do passado ou, como no caso de Christian Petzold, deturpando a gramática audiovisual com que nos habituámos a encarar tais narrativas.

Mais concretamente, em “Transit”, o cineasta alemão propõe-se a adaptar um romance de Anna Seghers passado na ocupação nazi de França usando cenários e figurinos atuais. Não se trata de uma estilização formal ou adaptação do texto a um contexto moderno, mas sim de uma seca recusa em levantar artifícios dramáticos em nome da evocação do passado. O diálogo mantém-se fiel ao livro, a constante narração em voz-off é ainda mais fidedigna e nada no comportamento das personagens em cena trai o contexto histórico do livro.

Só que, ao invés dos anos 40, o filme desenrola-se no limbo da Marselha dos nossos dias, apinhada de refugiados. Todos estes refugiados são, contudo, nascidos na Europa e um deles é Georg, o nosso protagonista germânico e um homem que já escapou a dois campos de concentração. Quando ainda estava em Paris, o homem sem destino, sem rumo e sem identidade, apodera-se dos vistos e outros documentos de um famoso escritor que se suicidou. Na sua viagem até aos portos de Marselha, um amigo com quem ele planeava fugir da Europa morre e, chegado à cidade litoral, Georg confronta-se com a viúva do companheiro e seu filho obcecado com futebol.

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Georg é como um espírito sem corpo que se move pelo purgatório espiritual de uma França apocalíptica em 1942. Primeiro, ele cria laços afetivos com o menino sem pai, como que ocupando o vácuo afetivo a que não tem nenhum legítimo direito. Pela sua parte, o ator Franz Rogowski dá estonteante vida e materialidade a este homem misterioso, sem natureza própria, que vive nos vazios deixados pelos mortos. Tal como o filme que ele habita, o ator parece existir numa indefinição humana, ele não é o amigo, não é o escritor, mas também não é Georg e não está em 1942, mas também não está em 2018.

Ele é uma figura perdida no tempo e no espaço, perdido entre as linhas do próprio texto que lhe deu existência. Talvez por isso, Georg seja atraída por outras figuras deslocadas de tudo o que as rodeia. Assim é com Marie, a jovem mulher do escritor suicida que anda desesperadamente em busca do esposo que em tempos abandonou e, sem saber, persegue somente o homem que se faz passar por ele. Ela é um fantasma em busca de outro fantasma e, como seria de esperar nesta Marselha feita cemitério assombrado por almas perdidas, os dois espectros encontram-se, apaixonam-se ou pelo menos vêem um no outro a chave para a fuga e quem sabe, para a absolvição do que lhes pesa na alma.

Se Rogowski é exímio na criação de um homem esvaziado, Paula Beer é um milagre como a atormentada Marie. Qual femme fatalle que perdeu a vontade de viver, tudo na sua postura transpira a resignação de quem sabe estar à procura de algo que nunca vai encontrar. Mesmo assim seus olhos mantêm-se abertos e a cabeça altiva, como uma pessoa que não dorme há dias a tentar convencer-se a si mesma que está desperta. Os lábios rubros e a blusa da mesma cor são quase uma piada à custa do seu sofrimento, pois nada em si tem a mesma vivacidade desses artifícios da cosmética e da moda.

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Marselha é purgatório e é prisão para estas almas errantes.

No final, o amor dos dois é como que um vício tóxico, uma esperança efémera e falível a que ambos têm de se agarrar para continuar vivos. O desespero vibra do ecrã e o efeito geral do filme é um de sufocante horror, medo e a certeza de que o mundo é doente e não há nada a fazer. Já no passado assim era e ainda é e continuará a ser. Desse ponto de vista, os jogos de representação histórica de Petzold acabam por sugerir tanto a especificidade das crises passadas e presentes através da sua parcial ausência, como também constituem um prognóstico maligno da Europa sempre afetada por podridões que transcendem a história.

Uma proposta como “Transit”, definida por ausências deliberadas, por vácuos e negações necessita de uma espetacular precisão para não implodir e se obliterar a si mesma numa contínua reticência. Infelizmente, Petzold não é capaz de levar os seus fascinantes conceitos até à sua máxima expressão, deixando que o filme vá perdendo energia à medida que avança. Parte do problema devém do amor que o realizador claramente tem pelo livro original, precipitando-se em cenas integralmente narradas onde a imagem é uma redundância ilustrativa.

Se as figuras de “Transit” estão presas no limbo de Marselha, também o filme está preso num limbo de mediocridade. Por um lado, pode cair na desgraça de uma adaptação híper-fiel sem ideias cinematográficas, por outro pode tentar chegar à apoteose das suas propostas estilísticas e concetuais. No seu estado atual, o filme está imobilizado, não é uma coisa nem outra, somente a sugestão ou o espectro de uma obra que poderia ter sido, mas que nunca será.

Transit, em análise
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Movie title: Transit

Date published: 2018-11-23

Director(s): Christian Petzold

Actor(s): Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Lilien Batman, Maryam Zaree, Barbara Auer, Matthias Brandt, Sebastian Hülk, Alex Brendemühl, Trystan Pütter, ,

Genre: Drama, 2018, 101 min

  • Cláudio Alves - 68
  • José Vieira Mendes - 60
64

CONCLUSÃO

“Transit” é uma obstinada proposta de deslocação e descontextualização histórica que pretende olhar para um clássico literário alemão com outros olhos. Infelizmente, as reticências do seu realizador e um afeto demasiado grande ao livro, acabam por condenar o filme ao purgatório que as suas próprias personagens assombram.

O MELHOR: As prestações fantasmagóricas de Rogowski e Beer.

O PIOR: A constante narração.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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