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Triângulo da Tristeza, em análise

“Triângulo da Tristeza” é uma das mais recentes novidades cinematográficas de Ruben Östlund, contando com um elenco com Harris Dickinson, Charlbi Dean e Woody Harrelson!

OS REIS DO ESTERCO… E O PODER DA SENHORA DAS RETRETES…!

De acordo com a opinião de muito boa gente, há neste mundo pessoas que na sua insignificância existencial não andam por cá a fazer mais do que produzir excrementos. Na verdade, essas criaturas habitam as mais diferentes classes sociais, geralmente ignoram alegremente, ou fazem por ignorar, os verdadeiros problemas que os impelem a comportar-se de uma ou outra maneira, os factores internos e externos que os condicionam nas suas acções, os movimentos da sociedade que os empurram nesta ou naquela direcção: numa palavra, vivem para comer, dormir e despejar com sistemática frequência os dejectos materiais e espirituais da sua paupérrima inserção na realidade quotidiana.

Triângulo da Tristeza
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Pois bem, o realizador sueco Ruben Ostlund, que já conhecemos da sua anterior Palma de Ouro, uma sátira contundente aos meandros da arte contemporânea intitulada THE SQUARE (O QUADRADO), 2017, e ainda da comédia polvilhada por uma “avalanche” de humor negro, FORCE MAJEURE (FORÇA MAIOR), 2014, decidiu investir agora em TRIANGLE OF SADNESS (TRIÂNGULO DA TRISTEZA), 2022, numa provocação deliciosamente demagógica sobre o percurso conturbado de várias personagens que, de uma maneira ou de outra, se enquadram na definição geral descrita ao início. Mas vamos por partes. Primeiro, o ponto de vista incide sobre dois jovens influencers, Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean). Trabalham ambos como modelos e logo a abrir damos de caras com o rapaz numa sessão de casting onde a realização aproveita para despejar veneno sobre os bastidores do processo de recrutamento daqueles que desejam seguir os caminhos da moda, por mais artificiais que eles sejam. Diga-se que a expressão “Triângulo da Tristeza” refere-se a um ponto do rosto entre as sobrancelhas dos potenciais modelos que, segundo os sussurros dos promotores dos badalados desfiles, pode e deve ser corrigido com a aplicação de botox. De grande eficácia e impacto se apresenta a crítica cáustica subjacente na encenação de uma sessão de sucessivas expressões que pretendem materializar no rosto e na atitude corporal dos jovens, meio vestidos meio despidos, noções como as de pronto-a-vestir versus alta moda, e os produtores não se ensaiam nada em referir marcas bem conhecidas para melhor atingirem os seus fins, amplamente corrosivos. Mais para a frente, a narrativa atira-nos para o meio de um conflito económico-hormonal entre o casal Carl e Yaya, uma discussão estúpida sobre quem devia pagar a refeição num restaurante de luxo. Ficamos a saber que ela e a maioria das outras mulheres modelos, como curiosamente sucede na indústria da pornografia, ganha mais do que o namorado, e de briga em briga, de argumento parvo em argumento nulo, lá vão os dois até ao quarto onde acabam por resolver a coisa da forma mais antiga que a Humanidade conhece, e que segundo o Antigo Testamento expulsou Adão e Eva do Paraíso. Porém, neste caso, foi ao contrário. Por corte seco de montagem, o casalinho aparece reconciliado num cruzeiro para super-ricos, esquecendo o inferno das relações pessoais para abraçar um ocioso e paradisíaco dolce far niente, onde subjectivamente a segunda parte do filme começa. E a partir daqui, ao longo da viagem, Carl e Yaya vão sentar-se na mesa de personagens bem bizarros e algo odiosos, como Dimitry (Zlatko Burić), um oligarca russo adepto, por assim dizer, do mais fedorento capitalismo, já que assume com um sorriso de orelha a orelha ser um autêntico “Rei da Merda”, porque a sua fortuna se baseia no lucrativo negócio dos adubos e fertilizantes de origem animal. Irão igualmente encontrar Winston (Oliver Ford Davies) e a sua mulher Clementine (Amanda Walker), um par de velhos jarretas britânicos que podemos apelidar como os “Reis da Granada de Mão”, artefacto bélico que os levou ao cume da glória financeira no controverso mercado das armas de guerra, apesar de lamentarem os prejuízos causados pelas restrições ao uso de minas antipessoal, produtos inerentes a uma outra face do seu negócio. Encontram ainda um casal de criadores de software (interpretado por Henrik Dorsin e Mia Benson) que numa atitude de imbecis insistem que as velas do navio deviam ser limpas, mesmo que o navio não seja um veleiro e por isso não haja velas nem sujidade nas ditas para limpar.

Triângulo da Tristeza
Triângulo da Tristeza | Fredrik Wenzel © Plattform Produktion
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Sem esquecer muitas outras personagens, de maior ou menor importância, seremos ainda brindados com a presença de uma passageira confinada a uma cadeira de rodas e que na sua aparente letargia intelectual não pára de chamar o marido pelo nome e dizer repetidamente a frase “in den wolken”, ou seja, “nas nuvens”. Resta dizer que Carl e Yaya só vão naquela viagem porque se prestam a relatar para as redes sociais as suas experiências a bordo como “bons influencers” que são, na prática a arte de fazer fretes e de bem viver com o dinheiro dos outros. De facto, minuto a minuto, Ruben Ostlund vai fazendo cair no desenrolar da acção pingos de um ácido ficcional que penetra lenta mas inexoravelmente na visão cada vez mais severa deste microcosmos do mundo actual. No convés pavoneiam-se os ricos e poderosos, brancos, arrogantes e extravagantes nas suas manifestações exteriores de riqueza. Nos andares inferiores, na cozinha e nos serviços de manutenção, o staff, maioritariamente oriundo de países asiáticos. Não passam de escravos modernos, os assalariados que a qualquer momento podem ser despedidos como sucede a um grego que ousou ir para o convés sem farda, ali de peito feito ao sol. E quem o denuncia, provocando o seu afastamento? Nada mais do que o ciumento Carl, o mesmo que discutira com a namorada por causa da conta do restaurante e que está ali no navio apenas ao serviço da FIFO, que se não existe podia bem existir, a Frente Internacional da Futilidade Organizada. Mas, num determinado momento, o realizador e argumentistas decidem aumentar a parada: depois de finalmente conhecermos o comandante do navio (magnífica interpretação de Woody Harrelson), um alcoólico profissional que se fechara na cabine durante dias, e no jantar que ele decide oferecer na pior altura do campeonato, ou seja, quando as previsões atmosféricas indicavam há muito uma borrasca das antigas, iremos assistir ao que pode ser designado como um subgénero, o filme catástrofe gastronómico, com os convidados a vomitar as entranhas pelos quatro cantos do navio numa orgia de porcaria e fedor que contrasta com a pose circunspecta dos que até ali fingiram ser muito civilizados. Naturalmente, quem acaba a limpar o esterco são as empregadas e, se não fosse um ataque ao navio que o faz ir pelos ares, uma destas senhoras da limpeza, Abigail (Dolly De Leon), nunca poderia saborear o poder que vai experimentar quando os sobreviventes desembocam numa ilha onde os valores e o posicionamento de classe serão postos em causa, no seu máximo e mais exuberante esplendor. Incluindo o sexual. E aqui começa a parte final deste TRIÂNGULO DA TRISTEZA que passa a ser agora um novo “Triângulo de Poder”, porque a senhora das retretes, a que limpava a merda dos ricos, passa a ser a única capaz de sobreviver, porque simplesmente sabe como pescar e fazer uma fogueira, e a sua sobrevivência vem acompanhada da chave capaz de salvar e manipular os restantes náufragos, entre eles os inefáveis Carl e Yaya, o oligarca do esterco, a senhora do “in den wolken” e um membro do staff que, por ser negro, logo será abusivamente identificado como um dos criminosos que atacou o navio. Mais não digo, porque não desejo revelar mais do que o necessário. Direi apenas que o filme termina com uma surpreendente e, até certo ponto, previsível surpresa, onde o peso do poder nas mãos de uma proletária asiática se identifica com o poder de uma pedra. Instrumento de força que só os espectadores poderão decidir se vai ser utilizado ou não para manter o status quo de uma nova realidade adquirida. Na verdade, o final fica em aberto. Não obstante, não podia ser mais clara a mensagem, quando vemos Carl a correr pela selva. O que essa imagem nos revela passa pela constatação da patética impossibilidade material de alguém, alienado do mundo que o rodeia, controlar um jogo social e económico que obviamente lhe escapou, a ele e a quem nunca quis compreender a verdadeira natureza da condição humana.

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Triângulo da Tristeza, em análise
Triângulo da Tristeza

Movie title: Triangle of Sadness

Director(s): Ruben Östlund

Actor(s): Harris Dickinson, Charlbi Dean, Woody Harrelson, Vicki Berlin, Henrik Dorsin, Zlatko Burić, Jean-Christophe Folly, Iris Berben, Dolly De Leon, Sunnyi Melles, Amanda Walker, Oliver Ford Davies, Arvin Kananian, Carolina Gynning e Ralph Schicha

Genre: Comédia, 2022, 150min

  • João Garção Borges - 80
  • Maggie Silva - 83
82

Conclusão:

PRÓS: Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2022, segunda do realizador sueco no espaço de cinco anos. Excelente argumento que não faz concessões ao politicamente correcto, antes pelo contrário, atira-se como gato a bofe no plano da crítica das classes ociosas cuja fortuna se amplia nos domínios mais do que questionáveis das mais sujas negociatas.

Muito boa prestação dos actores, protagonistas e secundários.

Direcção de Fotografia compatível com o projecto e a estrutura de montagem que mantém a narrativa num eficaz nível de interacção entre as diversas componentes narrativas e as diferentes sequências que lhe dão corpo.

CONTRA: Podia ser mais moderado o festival de vómitos, que faz do velho THE EXORCIST (O EXORCISTA), 1973, um exercício infantil, assim como podia ser menos gráfica a inundação escatológica dos quartos e corredores do navio. Mas, no fundo, aquele universo malcheiroso já o era antes do jantar de luxo que descambou num jantar de lixo.

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