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As 10 melhores vencedoras do Óscar para Melhor Atriz

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De Vivien Leigh a Olivia Colman, desde 1927 até 2020, vem descobrir quais são as melhores vencedoras do Óscar para Melhor Atriz num Papel Principal.

Depois de termos listado as piores vencedoras do Óscar para Melhor Atriz, chegou a altura de fazermos o oposto. Ou seja, ao invés de criticarmos as mais medíocres campeãs deste troféu, vamos festejar as melhores Melhores Atrizes. Ao todo, já 95 desempenhos ganharam o prémio, sendo que, em 1968, houve um empate e que, em 1928, Janet Gaynor ganhou por três performances distintas em três filmes que estrearam durante o período de elegibilidade.

Como sempre, os critérios de escolha focam-se na qualidade dos desempenhos e na justiça da decisão da Academia. Uma atriz pode dar uma grande performance e, mesmo assim, não ser a melhor escolha de entre o seu quinteto de nomeadas. Meryl Streep em “A Escolha de Sofia”, por exemplo, é uma performance magistral, mas o galardão desse ano pertence à genialidade de Jessica Lange em “Frances”. São critérios subjetivos e admitimos, pois claro, que possam discordar com esta abordagem.

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Outra decisão meio polémica é a de limitar o número de aparições múltiplas. Por outras palavras, cada atriz só pode aparecer uma vez nesta lista. Isso acabou por ser um parâmetro importante, pois quatro destas vitoriosas divas são campeãs de mais do que um Óscar. Com tudo isso dito, vamos lá desvendar este muito antecipado top 10.

Começamos, pois claro, com a atriz que ficou em décimo lugar e terminamos com a melhor vencedora de sempre. As nossas galardoadas são…

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10. Olivia Colman em A FAVORITA

EFA
© Big Picture Films
  • Ano da cerimónia: 2019
  • Papel: Rainha Anne, monarca britânica do início do século XVIII.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Yalitza Aparicio em “Roma”, Glenn Close em “A Mulher”, Lady Gaga em “Assim Nasce Uma Estrela” e Mellisa McCarthy em “Memórias de uma Falsificadora Literária”.

De todas as atrizes mencionadas nesta lista, esta é aquela cuja vitória foi mais surpreendente. De facto, ninguém estava à espera que Olivia Colman fosse a escolhida da Academia, nem mesmo ela própria como se viu durante a cerimónia dos Óscares. Tanto foi o choque que a atriz britânica chegou mesmo a pedir desculpa a Glenn Close que era a suposta favorita para ganhar Melhor Atriz, depois de já ter perdido o galardão seis vezes ao longo das décadas. Enfim, é pena que Close continue sem Óscar, mas isso não invalida a vitória de Colman.

De facto, trata-se de um feito grandioso de atuação e plasticidade tonal, dando vida ao humor negro de Yorgos Lanthimos num filme que desavergonhadamente quebra a convenção dos dramas de época em prol de conceber algo mais retorcido e perverso. O resultado dessa simbiose entre cineastas e atriz é um retrato psicológico que fere e espanta. Nalguns momentos, Colman faz-nos rir às custas de Anne e logo a seguir paralisa-nos com a angústia espelhada numa expressão silenciosa. No meio de tudo isto, ela nunca nos deixa esquecer que este não é um filme sobre intrigas bilhardeiras.

Pelo contrário, “A Favorita” trata-se de um filme sobre poder e o amor filtrado pelas mentes sociopáticas de quem procura assegurar influência política. Se alguém se tiver esquecido desse lado negro da obra, então o final mata qualquer dúvida ou falta de memória. Meio paralisada por um derrame, enfurecida e todo-poderosa, a Rainha Anne encerra o filme com um golpe de tirania sexual, revelando que este se tratou de um jogo de manipulação social onde não há vencedores.




9. Diane Keaton em ANNIE HALL

oscar melhor atriz annie hall diane keaton
© United Artists
  • Ano da cerimónia: 1978
  • Papel: Annie Hall, uma aspirante a cantora que se envolve romanticamente com um humorista nova-iorquino.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Anne Bancroft em “A Grande Decisão”, Jane Fonda em “Julia”, Marsha Mason em “Não Há Dois, Sem Três…” e Shirley MacLaine em “A Grande Decisão.

Annie Hall” foi o indisputável campeão da cerimónia dos Óscares de 1978, arrecadando quatro estatuetas, entre elas os prémios para Melhor Filme e Melhor Atriz. Essa obra-prima cómica de Woody Allen é certamente um dos grandes filmes da década de 70, explorando o modelo da comédia romântica e testando os seus limites com abandono. Allen mistura humor neurótico e animação, paixão Hollywoodesca com realismo psicológico e no epicentro desta tempestade de ambição cinematográfica está Diane Keaton.

A atriz dá vida à figura titular e é ela quem controla a plasticidade tonal do filme, rasgando os preceitos do género cinematográfico com as suas idiossincrasias. Mais do que uma corriqueira história de amor, a narrativa do filme vive do nervosismo que infeta a dinâmica entre duas pessoas que tentam negociar a intimidade. Keaton faz-nos rir com sua excentricidade colorida, mas também sabe como sombrear a comédia com verdade humana, fazendo da risada algo mais estranho que o mero júbilo temporário. Essas pistas que ela vai plantando dão fruto quando o candor apaixonado da história resvala para a amargura da realidade e dos sonhos vencidos.

Esta é uma história de amor que acaba mal, mas o seu fim mais facilmente produz um sorriso fechado que choradeira. Na verdade, a dissolução do amor é quase uma vitória, especialmente se prestarmos atenção à figura de Annie Hall e o modo como ela desabrocha quando fora do alcance do protagonista masculino. De uma ideia de charme sobre a qual o amante projeta as inseguranças, ela surge-nos como um ser humano complicado e misterioso. Diane Keaton assim interpreta Annie Hall, a ideia e a mulher e assim ela ganhou o Óscar.




8. Marion Cotillard em LA VIE EN ROSE

oscar melhor atriz marion cotillard la vie en rose
© Légende Films
  • Ano da cerimónia: 2008
  • Papel: Édith Piaf, a famosa cantora francesa que morreu prematuramente depois de uma vida a lidar com alcoolismo e toxicodependência.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Cate Blanchett em “Elizabeth – A Idade do Ouro”, Julie Christie em “Longe Dela”, Laura Linney em “Os Savages” e Ellen Page em “Juno”.

A história do Óscar está repleta de filmes biográficos e performances premiadas pela mimese de celebridades do passado. Nesse sentido, a vitória de Marion Cotillard na categoria para Melhor Atriz pode parecer extremamente convencional, corriqueira até, mas a verdade é mais complicada. Para começar, Cotillard é só a segunda mulher a conquistar esse troféu por uma prestação numa língua que não a inglesa. Em segundo, o desempenho que ela oferece em “La Vie en Rose” é tudo menos convencional.

Ao invés de tentar esculpir uma idealização inspiradora de Édith Piaf, Marion Cotillard seguiu o caminho do grotesco e do realismo febril. Desde os primeiros momentos em que aparece em cena, a heroína desta cinebiografia tem pouco do glamour de Hollywood. Magra e de olhos esbugalhados, falando em gargalejos rudes e encolhendo os ombros para esconder o desconforto, a jovem Piaf é uma criatura fascinante na sua esquisitice. À medida que ela aprende a dominar a sua postura e marcar presença em palco, vemos uma transformação de gestualidade, uma teatralização do jeito mundano.

No entanto, a menina febril que cantava por esmolas nas ruas de Paris nunca desaparece por completo. Ela vive no olhar amedrontado desta Piaf, no modo como o seu corpo se vai deteriorando em compasso com uma extravagância cada vez maior do gesto. Cotillard não lima as arestas da sua personagem nem lhe adoça o sabor. Pelo contrário, ela é ácida e avinagrada, com pontas aguçadas e vontade de espicaçar as sensibilidades do espetador. Trata-se de uma performance de extrema fisicalidade, um milagre de ressurreição cinematográfica que, mais do que imitar a pose de Piaf, transfigura o grande ecrã no espelho para a sua alma maltratada.




7. Elizabeth Taylor em QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

oscar melhor atriz elizabeth taylor virginia woolf
© Warner Bros.
  • Ano da cerimónia: 1967
  • Papel: Martha, esposa amargurada e enraivecida de um professor universitário com pouca ambição.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Anouk Aimée em “Um Homem e Uma Mulher”, Ida Kaminska em “A Pequena Loja na Rua Principal”, Lynn Redgrave em “A Ingénua” e Vanessa Redgrave em “Morgan – Um Caso para Tratamento”.

Elizabeth Taylor nunca se achou merecedora do seu primeiro Óscar. Ao longo dos anos, ela veio a afirmar que tinha sido um prémio ganho pela publicidade e por pena. Afinal, Taylor havia estado entre a vida e a morte devido a problemas respiratórios e até teve de ir à faca durante o período de votações. Talvez haja verdade nessas palavras, mas uma coisa é certa – a segunda vitória de Elizabeth Taylor foi mais que merecida. Contudo, se são fãs de desempenhos subtis e cheios de nuance sussurrada, esta não será uma boa proposta de atuação.

Tal abordagem adapta-se perfeitamente ao material que exige da personagem de Martha uma emoção bombástica e a habilidade de cuspir insultos como quem dispara balas de canhão. Ninguém sai ileso quando esta dona-de-casa descontente decide revelar os ressentimentos, sendo que a sua vítima preferida é o marido. A personagem e o trabalho de Taylor são maravilhas de abrasão radical que quase desafiam a audiência com o seu ímpeto desdenhoso. Ela é feroz e é voraz, sua gritaria tão estonteante que torna o melodrama matrimonial numa espécie de inferno alucinatório, maior que a vida e mais real que a realidade.

Martha e seu marido George amam-se apesar dos campos de batalha em que as suas discussões se formam. De facto, quando comparados com o outro casal apresentado no drama, a sua relação tem fundações de aço. O génio de Taylor está no modo como ela entrecorta o veneno com a melancolia de quem vive com outra pessoa há tanto tempo que identidade dos dois se converteu em algo indissociável. Martha e George estão feitos um para o outro e a sua união não é algo a olhar com nojo, mas com admiração e talvez até alguma piedade. Nos últimos momentos de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, quando o sol nasce sobre os casais ressacados, Taylor abandona os histrionismos e canta-nos um hino de desolação com os olhos.




6. Jodie Foster em O SILÊNCIO DOS INOCENTES

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© Orion Pictures
  • Ano da cerimónia: 1992
  • Papel: Clarice Starling, cadete do FBI que se envolve numa investigação criminal que passa pela entrevista do psicopata canibal Hannibal Lecter.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Bette Midler em “Dias de Glória… Dias de Amor”, Genna Davis em “Thelma e Louise”, Laura Dern em “Rosa – Uma Mulher de Fogo” e Susan Sarandon em “Thelma e Louise”.

Tal como aconteceu com Elizabeth Taylor, o primeiro Óscar ganho por Jodie Foster pode não ser muito apreciado, mas a segunda vitória é inegável. Para começar, Clarice Starling em “O Silêncio dos Inocentes” é um papel e peras, cheio de desafios que seriam demasiado grandes para muitas outras atrizes. Parte da complicação devém da estrutura do filme, que coloca a sua protagonista em recorrentes cenas de reação silenciosa face aos homens que a rodeiam. Apesar das suas ações a demarcarem como uma heroína feminista e proactiva, as cenas mais marcantes encontram-na a processar informação e a desencobrir pistas por entre as maliciosas palavras de assassinos psicóticos.

Interpretar o ato de pensar, o lavoro do raciocínio e da reflexão, é algo dificílimo. Por vezes há quem exagere em demasia, fazendo das caras trampolins de expressão em constantes saltos. Outros fazem o erro contrário e esvaziam-se em demasia. Foster, no entanto, encontra o equilíbrio perfeito e consegue dominar longas sequências dominadas pelos monólogos retorcidos de Anthony Hopkins como Hannibal Lecter. Através dos seus olhos e micro expressões, a atriz ilustra a constante negociação entre a investigadora e o predador psicopático que a confronta.

Melhor ainda, é o modo como Foster sugere a negrura potencial na alma da sua heroína. Há algo aterrador no modo como Clarice se perde nas palavras de Lecter, como ela se abre e se deixa vulnerável à sua influência demoníaca. Na cena mais famosa do filme, de onde devém o seu título, esta mulher relata um episódio traumático da juventude. O que vemos, enquanto audiência é o processo pelo qual Clarice se eviscera emocionalmente para espremer a verdade do canibal. É um feito de atuação notável e, sem dúvida, o melhor desempenho na carreira de Foster.




5. Marie Dressler em O SAGRADO DEVER

oscar melhor atriz marie dressler
© MGM
  • Ano da cerimónia: 1931
  • Papel: Min, a proprietário rabugenta de um hotel junto às docas que tem de fazer grandes sacrifícios em nome da felicidade da filha adotiva.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Ann Harding em “Holiday”, Irene Dunne em “Cimarron”, Marlene Dietrich em “Marrocos” e Norma Shearer em “Uma Alma Livre”.

De entre todas as estrelas da Hollywood dos anos 30, nenhuma é mais peculiar que Marie Dressler. Aliás, se pensarmos na ideia comum de uma estrela de cinema, muito provavelmente nunca pensaremos numa figura como a de Dressler. Envelhecida, gorducha e com uma cara quadrada, a atriz tinha passado a maior parte da vida em palcos de vaudeville ou a interpretar papéis secundários em cinema. A sua sorte foi o cisma criado pela introdução do som sincronizado, que fez com que muitas estrelas do mudo perdessem o emprego e com que produtores buscassem desesperadamente atores capazes de atuar em cinema sonoro.

Assim que esta comediante nata teve oportunidade de brilhar no grande ecrã, o público da América da Grande Depressão apaixonou-se logo por ela. Dressler depressa se transformou na estrela mais rentável da sua indústria e veio a provar que os seus talentos não eram limitados ao humor crasso. “O Sagrado Dever” mostra isso mesmo. Algumas sequências iniciais podem sugerir que o filme se trata de uma comédia caricaturada, mas, quando os últimos atos se aproximam, homicídio e sacrifícios maternais fazem florescer a rosa do mais choroso dos melodramas.

Alternando entre modos e registos completamente distintos, entre esgares sarcásticos e caloroso sentimento, Marie Dressler tece toda uma tapeçaria de experiência humana. A sua técnica sugere o kitsch e o exagero cómico, mas há algo de estranhamente cativante e genuíno na expressão corporal e facial da atriz, sua voz uma áspera promessa de honestidade sofrida. A sua prestação é assim um milagre de cinema de entretenimento sombreado por dor inquietamente real. Sua última cena, em particular, é um assombro capaz de fazer chorar as pedras da calçada.




4. Jane Fonda em KLUTE

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© Warner Bros.
  • Ano da cerimónia: 1972
  • Papel: Bree Daniels, uma prostitua nova-iorquina com pretensões de ser modelo que se vê emaranhada num caso de homicídios.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Glenda Jackson em “Sunday Bloody Sunday”, Janet Suzman em Nicolau e Alexandra”, Julie Christie em “A Noite Faz-se Para Amar” e Vanessa Redgrave em “Duas Rainhas”.

Na década de 70, o cinema Americano veio a transformar-se como nunca antes tinha feito. Seguindo o exemplo dos vanguardistas europeus, cineastas de Hollywood radicalizaram-se e mudaram por completo a produção, seus gostos, estilos e modos de representação. Durante uns anos, o cinema de autor fez-se mainstream e o artifício dos estúdios da Era Dourada foi atirado borda fora, enquanto que o realismo se tornou no standard da indústria. Nestas mudanças de paradigmas, muitos caíram em obsolescência, enquanto outros se ergueram e encontraram sucessos que antes lhes eram interditos.

Jane Fonda, filha de realeza da Velha Hollywood, poderia parecer um estranho exemplo para estrela deste novo mundo, mas ela estava pronta para se mostrar e não deixar qualquer um indiferente. Tanta era a sua ferocidade que, em 1971, ela apareceu num filme cujo retrato psicológico de uma prostituta viria a assinalar-se como uma masterclass de atuação da Nova Hollywood – “Klute“. Abandonando pretensões de mecanismos artificiais, ela atirou-se de cabeça ao desafio, entrevistou reais mulheres da noite e exigiu mudanças ao argumento. Os seus esforços compensaram e assim nasceu Bree Daniels, diva do grande ecrã e uma das melhores performances de sempre.

Testemunhar como Fonda representa Bree é como ver um mestre pintor descascar as camadas de tinta de óleo de um mural épico. Ela espanta-nos com a complexidade da caracterização, mas está sempre pronta a se auto dissecar em prolongadas cenas de psicoterapia. Num instante, vemo-la a viver o ofício com o olhar de uma zombie e na cena seguinte ouvimos a mulher descrever o que lhe ia na cabeça nesse momento. Tudo isto poderia parecer demasiado esquemático, mas a atriz jamais deixa que tais impressões se manifestem na mente do espetador, convencendo-o os que, durante a duração do filme, Bree é tão real como a audiência que a contempla.




3. Julie Andrews em MARY POPPINS

oscar melhor atriz julie andrews
© Disney
  • Ano da cerimónia: 1965
  • Papel: Mary Poppins, ama-seca mágica que é praticamente perfeita.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Anne Bancroft em “Discussão no Quarto”, Debbie Reynolds em “Os Milhões de Molly Brown”, Kim Stanley em “Seance on a Wet Afternoon” e Sophia Loren em “Matrimónio à Italiana”.

O caminho que levou Julie Andrews até ao palco dos Óscares foi uma odisseia atribulada. Estrela consagrada do teatro musical, Andrews havia conquistado o favor das audiências com papéis como Cinderela e Guinevere, originando algumas das mais famosas heroínas da Broadway. No entanto, quando chegou a altura de adaptar o seu mais celebrado papel para o cinema, os produtores acharam que ela não era famosa o suficiente para atrair espetadores. Assim Andrews perdeu a oportunidade de protagonizar “My Fair Lady” no grande ecrã. O papel foi para Audrey Hepburn, que nem conseguia cantar os seus números e teve de ser dobrada para grande escândalo do público americano dos anos 60.

Essa controvérsia podia não ter saído dos circuitos dos amantes de teatro musical, não fosse o filme que Andrews protagonizou ao invés de “My Fair Lady”. Referimo-nos a “Mary Poppins”, onde a atriz inglesa interpreta o papel titular e oferece uma prestação perfeita até ao mais ínfimo dos detalhes. Mais do que dar vida a Mary como se ela fosse uma mulher de carne e osso, Andrews configura-se à imagem de um ícone que tão humana quanto feitiço. Veja-se, por exemplo, como ela fala com as crianças, como condescende e mostra arrogância, mas faz tudo isso com um afeto amoroso, o brilho no olho e um sorriso matreiro. Até há melancolia no seu repertório emocional, mas só aparece quando a canção assim o pede ou a conclusão do conto se averigua.

Mary Poppins é convencida e irritadiça, mas também é infinitamente paciente e bem-humorada. Ela é constante contradição e não faria sentido no nosso mundo de realidade rude. Contudo, no universo que vive dentro do ecrã de cinema, esse cosmos de ruas bem iluminadas e céus rosados, ela é a mais natural das presenças. Tão atípico é este papel que é fácil subestimar o seu desafio. No entanto, basta olharmos para a prestação de Emily Blunt na sequela para entendermos a magia miraculosa de Julie Andrews. Por muito que Blunt tente e suceda, falta-lhe algo. Falta-lhe o génio que conquistou à sua predecessora um merecidíssimo Óscar.




2. Liza Minnelli em CABARET

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© Allied Artists Pictures
  • Ano da cerimónia: 1973
  • Papel: Sally Bowles, uma cantora de segunda categoria que tenta ganhar a vida trabalhando num cabaret berlinense em plena República de Weimar.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Diana Ross em “Destino de Mulher”, Maggie Smith em “Viagens com a Minha Tia”, Cicely Tyson em “Esperança” e Liv Ullmann em “Os Emigrantes”.

Liza Minnelli nasceu para interpretar Liza Minnelli. Filha de Judy Garland e Vincente Minnelli, dois dos maiores titãs na História do cinema musical, ela basicamente treinou desde o berço a cantar diante de câmaras. Na adolescência, ela seguiu os passos da mãe e tornou-se sua habitual parceira de cena nos palcos de clubes noturnos. Mais tarde, durante os anos 60, Liza Minnelli foi à conquista da Broadway e até ganhou um Tony. Quando chegou a altura de fazer o salto para o grande ecrã, ela estava mais que pronta e depressa se mostrou habilidosa no realismo psicológico que começava a ganhar tração na Nova Hollywood.

Cabaret”, um filme de transição que assinalou o cinema musical a transmutar-se numa nova criatura, provocadora e modernista, não podia ter melhor atriz principal que Liza. O seu ser é um resumo da História do musical, sua carne um monumento a uma Hollywood que abandona os sonhos da juventude pela realidade da velhice iluminada. Não que o sucesso da performance seja uma mera questão de casting. Sally Bowles é um papel desafiador e Liza estava pronta a enfrentar cada uma das provações do guião com imparável fulgor.

Rendendo corpo e alma ao manifesto, a atriz faz de Sally Bowle um espectro refletivo da Berlim dos anos 30, quando o apocalipse estava perto, mas os condenados se embriagavam com ignorância e o doce néctar da decadência. Ela é o mundo de “Cabaret”, a joie de vivre no precipício da aniquilação, fatalismo pintado com maquilhagem gordurosa e purpurinas baratas. Quando ela canta, de braços esticados e músculos tensos, olhos esbugalhados e sorriso maníaco, não se trata de um mero número musical. Trata-se de um desesperado ato de auto deceção, uma alma perdida a tentar convencer-se que tudo está bem quando a Morte já a mira de perto.




1. Vivian Leigh em E TUDO O VENTO LEVOU

e tudo o vento levou oscar melhor atriz
© Selznick International Pictures
  • Ano da cerimónia: 1940
  • Papel: Scarlett O’Hara, uma beleza sulista, ambiciosa e implacável que confronta os cismas históricos dos EUA em tempo da Guerra da Secessão.
  • Outras nomeadas para o Óscar: Bette Davis em “Vitória Negra”, Irene Dunne em “Ele e Ela”, Greta Garbo em “Ninotchka” e Greer Garson em “Adeus, Mr. Chips”.

Durante os anos que precederam a sua estreia, “E Tudo o Vento Levou” foi o filme mais falado em Hollywood. Todas as atrizes que se prezassem tentaram assegurar o papel e centenas de audições tiveram lugar. Todas queriam ser Scarlett O’Hara, a anti heroína do romance em que o filme se baseia e provavelmente um dos melhores papéis que o cinema já viu. É claro que, para ser tão apetecido, o papel tinha de ser difícil e os cineastas responsáveis pelo filme não se contentaram com nada menos que a absoluta perfeição. Foi assim que, já depois das filmagens principais terem sido iniciadas, a britânica Vivien Leigh foi escolhida para o papel.

Estrela dos palcos londrinos, mas desconhecida em Hollywood, Leigh pode ter parecido uma escolha um tanto ou quanto bizarra. Publicações da altura tentaram denegrir o seu casting, mas assim que alguém viu a sua interpretação só houve palavras de elogio para Leigh. Como Scarlett O’Hara ela é um assombro de amoralidade em forma feminina, um animal faminto decidido a não passar fome. Ela é uma sobrevivente nata e uma mulher obcecada pela paixão juvenil, uma lutadora que atravessa o inferno da guerra e se ergue das cinzas com a cabeça erguida.

Não se trata de uma personagem que nos apaixone ou seduza, mas uma figura que serve de espelho aos nossos piores impulsos. É claro que também não a odiamos, nem mesmo quando ela causa desgraça aos que a rodeiam. A Scarlett O’Hara de Vivien Leigh é uma força da natureza, tão constante como a mais imponente das montanhas e tão avassaladora como o oceano. Nunca estamos contra ela e quase nos sentimos horrorizados por torcer pelo seu sucesso. O carisma de Leigh é tal que não há outra hipótese senão sucumbir e ser submisso perante a sua majestade. Aqui se vê um ícone vivo do grande ecrã, um milagre da sétima arte que até hoje ninguém superou. Viva Vivian Leigh, a melhor vencedora do Óscar de Melhor Atriz!

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