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Uma Bela Manhã, em análise

Léa Seydoux lidera o elenco de “Uma Bela Manhã”, a mais recente obra de Mia Hansen-Løve a integrar o programa da Festa do Cinema Francês.

CRÓNICA DO TEMPO QUE PASSA E DAS EMOÇÕES QUE RESTAM…!

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Na mais recente longa-metragem de Mia Hansen-Løve, UN BEAU MATIN (UMA BELA MANHÃ), 2022, Sandra Kienzler (Léa Seydoux), mãe solteira, vive a rotina dos seus dias com a jovem mas muito expressiva e ajuizada filha (Camille Leban Martins). Nada de especial, dirão os mais distraídos. Mas rapidamente iremos perceber que, por detrás daquilo que parece ser a mais redutora normalidade dos dias que passam, existem numerosas contradições existenciais e, sobretudo neste caso, o peso e a perturbação de uma doença neuro-degenerativa, distúrbios que afectam o sistema nervoso do seu pai, Georg Kienzler (Pascal Greggory), antigo professor de Filosofia que, pouco a pouco, se afasta do mundo racional e luminoso que era o seu para mergulhar num mundo de contornos obscuros onde ele se insere com dificuldade e que já não controla de forma cabal. Pelo meio, Sandra aproxima-se de um amigo, Clément (Melvil Poupaud), um cientista com quem irá gradualmente jogar o jogo da sedução e de uma relação mais ou menos proibida, se considerarmos os valores da moral conservadora, que felizmente nenhum dos amantes defende. E a partir de certa altura essa relação, cada vez mais consistente, irá mesmo ser assumida por ambos sem quaisquer ambiguidades do ponto de vista da intimidade sexual, apesar de não ser uma relação completamente livre do ponto de vista da realidade conjugal, ou seja, Clément está casado com outra mulher.

Uma Bela Manhã Festa do Cinema Francês
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Permitam-me neste ponto iniciar a abordagem crítica de UMA BELA MANHÃ reproduzindo e sublinhando as palavras da realizadora e argumentista que, no seu discurso directo, resume clara e sucintamente como nasceu o projecto fílmico e quais as motivações que a levaram a debruçar-se sobre a “extraordinária” vida normal da protagonista e das figuras que a rodeiam ao longo dos 112 minutos deste belíssimo UN BEAU MATIN: “Depois de A ILHA DE BERGMAN (filme de 2021), senti que se impunha fazer este filme. Escrevi o argumento no Inverno de 2019-2020, em parte inspirado pela doença do meu pai, que então ainda estava vivo. Procurei dar um sentido ao que passei na altura. E queria explorar a forma como podemos conceber o diálogo entre dois sentimentos contraditórios, um de luto e outro de renascimento, e o facto de os podermos sentir de forma simultânea. Mesmo sendo atormentada, a relação entre Sandra e Clément apresenta-se sobretudo no domínio do grande prazer. Com o pai, Sandra só experimenta o sofrimento. São duas narrativas que coabitam. Interessava-me encontrar uma forma cinematográfica de demonstrar essa coexistência.” Desenvolvendo um pouco mais, acrescentou: “Georg e Sandra partilham a mesma necessidade de amor. Mesmo quando vai perdendo o ânimo, Georg permanece até ao fim ciente de que ama uma pessoa, a sua parceira Leila (Fejria Deliba). (…) Também o amor é vital para Sandra, o amor pela filha, o amor pelo pai, e depois por Clément, que passará a ser central. (…) De uma maneira ou de outra, o amor liga as personagens do filme.” Das restantes personagens devemos destacar a mãe de Sandra, ex-mulher de Georg, Françoise (Nicole Garcia). Sobre ela diz Mia Hansen-Løve: “Ela parece mais distante, mas apoia muito a filha e Georg, embora estejam separados há 25 anos. O que constitui uma outra grande prova de amor”.

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Mas não só de sentimentos e emoções se estrutura uma obra de ficção, mesmo que baseada em experiências pessoais de grande intensidade. Na verdade, nesta abordagem naturalista da vida de dois amantes que assumem as consequências da sua paixão e da conjugação dessa paixão com a realidade particular e muito diversa das suas próprias famílias, Mia Hansen-Løve integrou a acção num campo favorável ao exacerbar dos desejos, para que o seu contrário fizesse parte da matéria que contradiz e reprime o destino de cada personagem, num contexto em que a felicidade verdadeira compensasse, por contraste, a pressão a que os protagonistas estão sujeitos no quotidiano, numa atmosfera que mistura momentos felizes com infelicidade. Contradições materializadas numa espécie de impotência gerada pelas circunstâncias e por certos obstáculos erguidos no caminho como, por exemplo, os que se apresentam de forma, nua e crua, a Sandra e aos membros da sua família, quando vislumbram a necessidade de levar Georg de hospital em hospital, de casa de repouso em casa de repouso, até encontrarem um lar onde a dignidade de quem viveu uma vida plena fosse garantida no interior dos parâmetros sociais e económicos a que ele pertencia, essa plataforma difusa que se pode chamar a margem de manobra da classe média francesa que os familiares procuram, por diversos meios, não pôr em causa de forma gritante. Há muitos e bons motivos para julgar este filme como um retrato desencantado de uma França e de uma cidade como Paris, não pela perspectiva romântica da cidade luz, mas por aquilo que ela é para milhares, mesmo milhões de cidadãos submetidos a situações muito similares, os dias sombrios da realidade que não deixa lugar para grandes fantasias. De facto, uma realidade universal que atinge as classes sociais outrora privilegiadas, mas que as sucessivas crises atiraram para um quase beco sem saída, e amiúde para a alternativa zero. Perante esta questão primária que afecta o destino da actual sociedade de consumo, pouco ou nada solidária com os outros (por isso o comportamento de Sandra, sobretudo a abnegação com que encara o apoio ao pai, parece algo anacrónico e até estranho, apesar da sua adequada vertente humanista), a cineasta concebeu, para criar o ritmo justo e uma visão se possível ainda mais justa, um conjunto de sequências onde concentrou o essencial do que queria dizer. Deste modo, ao introduzir novas matérias vai até ao ponto em que a resolução ou a síntese final surge como perfeitamente natural e não como fruto puro e simples de manipulação das referidas emoções, dos sentimentos, das paixões. Enfim, o oposto do melodrama que podia ser a via mais fácil para fazer verter uma lágrima, para desencadear um suspiro, para encher a alma e o coração dos espectadores. Facto que para alguns produtores significaria dinheiro em caixa, a partir do resultado das bilheteiras. Não, em UMA BELA MANHÃ estamos na antítese da novela das oito, na antítese da fancaria melodramática, na antítese da manipulação rafeira dos conflitos narrativos. Sim, estamos perante personagens imateriais de ficção, mas a que se podem sem grande esforço colar outras de carne e osso, algumas até as conhecemos da nossa vida. E, juntos, iremos partilhar o TEMPO que passa e as EMOÇÕES que restam. E mais não se deve pedir a quem mais não quis dar. E já foi muito…!

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Por último, queria destacar a notável composição da actriz Léa Seydoux. Para os devidos efeitos, devolvo novamente a palavra a Mia Hansen-Løve: “Escrevi o papel a pensar nela. (…) Nos últimos anos ela vem sendo amplamente representada como objecto de desejo. Encarna, de forma muito poderosa, um certo sex-appeal, um certo glamour não convencional. Nos filmes, costuma aparecer muito bem vestida, muito estilosa, dir-se-ia quase que disfarçada. Aqui, ela é muito mais simples, quer na aparência quer na sua forma de ser. Quis despojá-la dos seus atributos de sedução. Nesse sentido, filmei-a de cabelo curto, com a cabeça descoberta. Filmei-a como mãe, no seu quotidiano e no exercício da sua profissão. Ela não é apenas vista como uma mulher desejável. Ela olha igualmente para os outros. Vemo-la olhar e ouvir. Vi ali uma inversão que nos permitiu aproximarmo-nos mais da sua interioridade, do seu mistério.” E conclui o depoimento sublinhando que a actriz possui dentro de si, como personagem, uma melancolia que a perturbou. Desgosto, prostração, adversidade que perturba, seguramente no bom sentido da palavra, quem for ver este filme num grande ecrã perto de si.

Uma Bela Manhã, em análise
Uma Bela Manhã

Movie title: Un beau matin

Director(s): Mia Hansen-Løve

Actor(s): Léa Seydoux, Pascal Greggory, Melvil Poupaud, Nicole Garcia, Camille Leban Martins

Genre: Drama , 2022, 112min

  • João Garção Borges - 75
  • Cláudio Alves - 87
81

Conclusão:

PRÓS: Para além do argumento muito bem adaptado para a linguagem cinematográfica, o principal destaque vai para Léa Seidoux no papel de uma jovem mãe, com uma filha para criar, um pai para cuidar e um amigo de longa data para amar.

Excelente a Direcção de Fotografia de Denis Lenoir, em negativo 35mm, cor. E o velho mas sempre actual processo químico não foi neste filme uma mera opção chic, de estética pueril. Bem pelo contrário, a definição da película deu a esta obra uma camada suplementar de verdade, eliminando o “verniz” muitas vezes artificial da imagética electrónica.

No ano de produção, UMA BELA MANHÃ foi exibido na prestigiada secção da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Estreia agora nos ecrãs nacionais pela mão da ALAMBIQUE FILMES.

CONTRA: Nada. Aliás, qualquer dia elimino este campo e só o introduzo quando der 40 na escala MHD (o equivalente a duas estrelas numa escala de cinco) ou próximo de 40 a um filme.

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