Unknown Mortal Orchestra - Aula Magna - Victor Barros - Everything is New

Unknown Mortal Orchestra enclausuram Aula Magna num turbilhão de emoções

A Aula Magna foi palco de uma abordagem introvertida à experimentação com diferentes géneros musicais que define a sonoridade dos Unknown Mortal Orchestra.

Noite gelada de Outubro. A chuva vai marcando compasso, ora caindo torrencialmente, ora demonstrando compaixão pelas tribos que se juntam na entrada da Reitoria da Universidade de Lisboa. Sento-me no anfiteatro e enterro as mãos nos bolsos do impermeável. Olho à minha volta. O espaço encontra-se praticamente vazio, salvo por um ou outro ponto disperso. Ainda falta cerca de uma hora para o início do acto de abertura.

Aos poucos, a sala começa a ganhar vida. Conversas soltas preenchem o ambiente. Algumas sobre a banda. A maioria não. Fiel ao seu estilo, a capital aparenta não conseguir abandonar, por breves momentos sequer, as frenéticas rotinas que caracterizam a indústria citadina. Os níveis de cortisol mantêm-se elevados nas diferentes faixas etárias que marcam presença no recinto – tanto a juventude endiabrada e dona de coração ardente, como a velha guarda seduzida pelo panorama actual da música.

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A escolha da Aula Magna para receber a banda neozelandesa gera alguma desconfiança entre porta-vozes da Geração Z. Perfeitamente compreensível, penso para mim mesmo – em 2016 (24ª edição do festival Vodafone Paredes de Coura), fui um de muitos a contribuir para o caótico ambiente que se vivia na frontline do palco principal, onde massas colidiam e se atropelavam diante deste mesmo grupo. Sei bem do que o público é capaz, quando provocado por tão eficiente estímulo sonoro.

Finalmente, a clássica iluminação da Aula Magna apaga-se, sendo substituída por um espectáculo de luzes reminiscente de um filme de terror B. No meio de pujantes e epilépticos tons de roxo e azul, avistamos a silhueta de Iguana Garcia, que se apressa a estabelecer uma postura humilde: “Sei que estão aqui para ver Unknown Mortal Orchestra”. Não perde tempo durante os trinta minutos seguintes. Experimentando com sintetizadores, loops de guitarra e percussão ambiente, o réptil sonoro vai proferindo letras sobre a mais genuína das felicidades, aquela que advém de percursos existenciais sui generis e da intrepidez requerida para segui-los (“Eu já pensei em deixar de ser feliz para ser normal…”). O sangue fervente que lhe corre nas veias é identificável nos súbitos rasgos de psicadélica que irrompem do seu electro-pop de cabaret. Enamora os olhares atentos e arrebatados da audiência, direccionando-a para um circuito de néon que alterna entre o dark wave dos Clan of Xymox e o synth-pop dos Soft Cell. Como se já previsse uma inevitável reacção de desorientação associada à turbulência do meio envolvente, o artista toma a decisão de abrir a porta para a sua mente – estrutura firme, habituada a encontrar comodidade no caos – e, por breves momentos, dividimos o mesmo abrigo anárquico. O culminar de uma experiência electrizante, terminada sem aviso prévio.

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Iguana Garcia abandona o palco da Aula Magna de forma tão subtil quanto entrou. Com o acender das luzes, os aplausos direccionados ao músico lisboeta rapidamente se voltam a perder entre discussões supérfluas, desta feita ao som da “Windowlicker” de Aphex Twin e do testar dos instrumentos por parte da equipa técnica. O público denota impaciência e um certo desassossego. A fasquia está agora muito mais alta, depois do arrojado e intrigante aperitivo de boas-vindas que encontrámos no acto de abertura.

Meia-hora passada desde a despedida de Iguana Garcia, somos saudados por um rosto familiar, que se precipita no centro de tantos olhares. O boémio elevar de um copo à laia de brinde. Ruban Nielson reencontra velhos amigos e algumas caras novas neste expectante anfiteatro. Prontamente convida o resto da banda – Jake Portrait no baixo, o irmão Kody Nielson na bateria e o pai Chris Nielson no teclado e instrumentos de sopro (trompete e saxofone) – para se juntarem a si numa jam session de contornos experimentais que acabaria por definir todo o conceito do evento. Os primeiros acordes de “From The Sun” rompem do solo, sendo reconhecidos de imediato pela audiência. A vizinha do lado não se contém e salta do assento, contorcendo-se em danças bizarras. A sua desinibida presença é, na verdade, excepção à regra. Depositando optimismo nesta reservada solicitação espacial, a maior parte do público aceita entregar-se de corpo e alma (mais alma do que corpo) a uma temerária abordagem de isolamento, confinando-se ao seu íntimo cubículo de respostas emotivas. É-nos proposto que tentemos vivenciar Unknown Mortal Orchestra não como uma audiência colectiva, mas antes como unidade. Até agora, parece resultar.

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Unknown Mortal Orchestra (©Victor Barros)

Ruban Nielson desce do palco, decidido a quebrar esta barreira por instantes. Invade os corredores da Aula Magna numa corrida frenética, distribuindo cumprimentos pela plateia e alguns solos de guitarra improvisados. Antes de retornar à posição inicial, ainda encontra tempo para brindar com um fã – gesto muito apreciado por todos os presentes. Concluído o acto de convívio, ouve-se de imediato a já velhinha e acolhedora “Ffunny Friends”, sucedida pela indubitável disputa de notas e acordes que assinala “Sleep (And Swim) Like A Shark”. O primeiro ingresso da noite no psicadélico universo poliamoroso concebido por Ruban Nielson em Multi-Love ocorre através de “Necessary Evil”. As transições musicais vão alternando entre violentos apagões cinematográficos e pontes sonoras de extrema subtileza, garantindo constante dinamismo ao espectáculo. Os Unknown Mortal Orchestra demonstram saber como e quando jogar as suas cartas.

“This song is called Ministry Of Alienation”. Com o auxílio de exóticos visuais projectados no topo da Aula Magna, a sonoridade labiríntica de Unknown Mortal Orchestra eleva-nos perante um vertiginoso remoinho vertical, apenas para deixar cair, de forma repentina, frente a um dos melhores momentos do concerto – a performance de “So Good At Being In Trouble”. A meio da execução deste clássico de II, Ruban Nielson decide agachar-se no centro do palco, como que recuperando o fôlego. Jake Portrait e Kody Nielson passam, igualmente, para segundo plano. Todos os olhares da plateia apontam agora para o pai do frontman – Chris Nielson – que se perde num vistoso solo de saxofone. Imediatamente, inúmeras expressões de deslumbramento rodeiam a minha pessoa. Aplausos ecoam no ar. Entretanto, o baixo e a bateria surgem em crescendo, rivalizando com a momentânea imponência do instrumento de sopro. O clímax da música ocorre com Kody Nielson a descarregar a fúria de Modi no seu kit, sem nunca perder o essencial sentido rítmico de um bom baterista. Finalmente, cessamento instrumental. Pelo menos por breves segundos.

O acentuado investimento na divulgação do novo álbum, Sex & Food – disco caracterizado por uma interpolação de saturadas camadas de psicadélico dos anos 60, R&B, batidas funk e bedroom pop – sucede na forma de “Major League Chemicals”, “American Guilt” e “Not In Love We’re Just High”. Durante esta última, o anfiteatro abriga nova tentativa de Ruban Nielson de fundir-se com o público. Pulando de cadeira em cadeira, o artista acaba por se sentar no meio de alguns fãs acanhados, que não evitam lançar um rápido olhar na direcção do mesmo. Termina a performance com uma ágil espargata em pleno palco, transbordando o entusiasmo de um infante. O simbolismo depositado nesta mais recente composição teatral é evidente e assimilado por todos – a banda agradece ao público o zelo demonstrado, desde o início da sessão, na crença e desfrute de um método alternativo e mais pessoal de escutar a sua música, autorizando agora uma bem merecida, mas moderada comemoração em comunidade. A tão acarinhada “Multi-Love” dá início e a audiência já sabe como se comportar. Danças tímidas, cantorias estranhamente afinadas e palmas sincronizadas contaminam numerosas zonas do anfiteatro. Um tresloucado indivíduo – situado algumas filas à minha frente – agita os braços no ar, pedindo aos ainda sentados para que se levantem e entreguem a carne à festa. Brota um clima de júbilo total nos corredores da Aula Magna.

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Ruban Nielson (©Victor Barros)

Os Unknown Mortal Orchestra abandonam o palco, mas o público exige mais. Afinal de contas, só agora lhes havia sido concedida permissão para desocuparem a sua densa bolha emocional, actualmente compartilhada por todos. A banda corresponde, regressando para um encore composto por duas fan-favorites – “Hunnybee” e “Can’t Keep Checking My Phone”. O espectáculo termina de forma quase imperceptível, sumindo por entre ovações, ternos vocábulos e um esplendor de luzes e cores reflectido em todas as superfícies do espaço. Tomando conhecimento do final do concerto, a audiência ainda aguarda por um segundo retorno, que nunca chega a acontecer. Evacuo então o recinto, entregando-me, novamente, à gélida noite lisboeta. As gotas de chuva que me escorrem pelo rosto já não provocam desconforto – aceito-as de bom grado como um indispensável refresco pós-turbilhão emocional. A música dos Unknown Mortal Orchestra pode e deve ser moldada a inúmeros cenários, qualquer um igualmente caloroso e impactante. Fica aqui a prova assente.

Unknown Mortal Orchestra enclausuram Aula Magna num turbilhão de emoções
  • Diogo Álvares Pereira - 80

Diogo Pereira

Ex-Farmacêutico que envergou pela rota da Sétima Arte. Cinema, Música, Literatura e Filosofia são as minhas áreas de eleição (excepto quando joga o Sporting). Devaneador por natureza, abraço a ideia de que as grandes viagens se desenrolam no cerne do ser.

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