Cloud Nothings, Last Building Burning | em análise

Célere e confiante, Last Building Burning é a feroz afirmação da vida e uma promessa para o futuro. Em tempos de extinção, os Cloud Nothings são, mais do que nunca, uma banda.

Metamorfose à velocidade da luz podia definir não só a sonoridade de Last Building Burning mas também a carreira de Dylan Baldi e dos seus Cloud Nothings. Tendo começado em 2009 como um projecto twee pop de Dylan Baldi, com gravações lo-fi feitas na cave de casa dos pais, em Cleveland, Ohio, no tempo tornou-se uma banda de pleno direito com uma viragem drástica para as paisagens mais agrestes do pós-hardcore e noise-rock em Attack On Memory (2012) e Here and Nowhere Else (2014). Mesmo se permanece o principal compositor, com a voz e uma das guitarras a seu cargo, Dylan Baldi é hoje uma só coisa com o baterista Jayson Gerycz, o baixista TJ Duke e o segundo guitarrista Chris Brow, o último a integrar o ensemble. Na memória ficam já estes dois álbuns incontornáveis, o primeiro produzido por Steve Albini e exibindo formas de canção mais livres e divagantes, o segundo produzido por John Congleton e a apresentar uma versão punk, mais enérgica, directa e melódica, da sonoridade criada no álbum anterior. Um e outro distanciavam-se abruptamente do passado, dando lugar à alienação e movendo-se numa órbita sonora nervosa e sombria, onde a fúria do hardcore e do noise-rock se mesclava com guitarras pós-punk angulares, melodias vocais por vezes irresistivelmente cantáveis, a esporádica tristeza do slowcore dos Codeine ou um baixo proeminente a lembrar os Slint. “No Future/No Past” não destoaria, de facto, em Frigid Stars ou Spiderland.

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Life Without Sound (2017) encontra o líder da banda num momento mais meditativo, viajando de regresso às suas origens melódicas e em demanda, pela primeira vez, de palavras que cristalizem o íntimo da experiência. Abandonada a terra natal de Cleveland, antes por Paris e depois pela Massachusetts da namorada, abandonado aí por ela, sem nada nem ninguém, durante temporadas a fio, o desalento trouxe ao de cima os recônditos da alma, a abertura a “something bigger […] an eternal seeing clearer” (“Realize My Fate”) e o horror à espécie indesejável de solidão: “I just stayed home a lot, played guitar. And slowly lost my mind” (Baldi). O disco assistiu eventualmente ao regresso de Dylan Baldi à cidade de origem e à mudança para casa de Jayson Gercyz, onde vive também Chris Brown e perto da qual habita TJ Duke. A mesma casa transformou-se num espaço de ensaio incansável: “I just didn’t realize how important it was to have people to play music with”. A prática constante oleou até à perfeição a dinâmica instrumental intricada, sincronizada ao segundo, que Last Building Burning nos revela. Dele transpira, e esta é talvez a sua maior virtude, que os Cloud Nothings são, mais do que nunca, uma banda.

LAST BUILDING BURNING | “LEAVE HIM NOW”

Last Building Burning assinala o retorno de Dylan Baldi e dos Cloud Nothings à energia frenética e implacável de Here and Nowhere Else, depois do tom mais sedado e das complacentes melodias pop não só de Life Without Sound, mas também da colaboração com os Wavves em No Life For Me (2015). É verdade que um travo melódico perpassou sempre as composições de Dylan Baldi. O twee pode ter ficado para trás, mas o pop faz parte do código genético dos Cloud Nothings, transportado nas guitarras e na voz, mesmo quando vociferante. Ora brilhando em lampejos, como momentos de alívio cómico na tensão da tragédia, ora dando à canção a sua identidade inconfundível, a sensibilidade melódica de Dylan Baldi convive sem atrito com a sua energia feroz de homem urbano, fascinado pela imponência terrífica do ruído. Ainda assim, importa reconhecer que havia um hipertrofiado lado de power-pop em Life Without Sound previamente desconhecido. A julgar pelo comunicado de imprensa que acompanhou o anúncio de Last Building Burning, foi depressa abandonado: “A lot of popular bands with guitars are light. They sound good, but it’s missing the heaviness I like”. É possível que Dylan Baldi tivesse em mente os próprios Cloud Nothings.

O tema de abertura de Last Building Burning é uma declaração de intenções que dispensa quaisquer comunicados. Dylan Baldi não precisava de ter confessado a fixação com a ideia de energia ou descrito o álbum como “seven short, and one long, bursts of intense, controlled chaos”. Como ele desejava, a obsessão é eficazmente experimentada desde que, sustentados por uma bateria potente, os dois grandes arpeggios de “On an Edge”, um qual serra eléctrica, o outro alucinada sirene futurista, competem furiosamente pela nossa atenção, alternando entre si o papel de assalto sonoro aos ouvidos. Imediatamente perceptível é também a confiança e precisão com que a canção se metamorfoseia continua e flexivelmente, exemplificando a mais evidente e fascinante qualidade de Last Building Burning. Nesta versão dos Cloud Nothings, em cada breve canção (mas também na longa) sucedem-se inúmeras melodias, que se vão acrescentando e substituindo umas às outras. O que ao início parecia uma pura massa de ruído entorpecedor revela-se, no tempo, após repetida audição, uma composição intricada de alterações de dinâmica, feitas à velocidade da luz. A textura ora se adensa ensurdecedora ora se rarefaz melódica e expectante, o andamento ora se acelera feroz ora tenso se abranda, as melodias cantáveis crescem até se reconfigurarem, sem que nos demos conta, nos gritos agressivos de Dylan Baldi.

LAST BUILDING BURNING | “THE ECHO OF THE WORLD”

A energia e violência que em Here and Nowhere Else tinham sido conseguidas às custas de muita distorção, particularmente do baixo, e até ruído branco são agora obtidas por meio de um tecido espesso e subtilmente tecido de melodias, muitas delas nítidas e reverberantes, seguido e levado por uma voz que oscila, com natural à vontade, entre uma versão personalizada do canto punk e hardcore dos Ramones e Hüsker Dü, mas também de bandas new wave como os Talking Heads, e o grito gutural dos Minor Threat, permeado de ásperas fibras de desespero, que desarmam e comovem. Impossível não o levar a sério em “Leave Him Now” quando pede à amiga que deixe uma relação que lhe faz mal. O power-pop de Life Without Sound foi digerido e absorvido até ressurgir transmutado em algo mais próprio e difícil de detectar, nas malhas de “Leave Him Now” e “Another Way of Life” ou em certos fragmentos melódicos dispersos pelo álbum. Não faltam estruturas de canção mais experimentais como em “The Echo of the World” ou, acima de tudo, em “Dissolution”. Uma melodia vai-se lentamente espraiando e evoluindo, pontuada por notas soltas no interior de uma onda de contínuo feedback, ao som de discretos e hipnóticos pratos de choque, crescendo em tensão até regressar no fim à explosão com que arrancara. Uma desolada mas envolvente paisagem para o grito “I’m alone/ I need another voice to be at home”.

LAST BUILDING BURNING | “SO RIGHT SO CLEAN”

Dylan Baldi revelou à Uproxx que está sempre a tentar refinar a energia da música dos Cloud Nothings e a procurar criar, em cada álbum, um fluxo sonoro contínuo que, à maneira da música ambiente, se metamorfoseie e evolua até transportar o ouvinte a um ponto de chegada diverso do inicial. Last Building Burning é uma viagem assim. Apanhados no furacão e atirados para as entranhas da experiência de Dylan Baldi, com ele sentimos a repugnância por um mundo cheio de falsidade, onde abundam corruptos cujo nome ninguém recordará e a venda, por todo o lado, de uma oca perfeição: “So right so clean/ but does it mean anything?” A sua resposta irónica podia ser a nossa: “I wish I could believe in your dream”. Mas também a solidão e o sentimento de insegurança generalizada que corroem todas as tentativas de construção: “I feel the last old building burning/ I’ve got nowhere left to put my feet.” A travessia pela desolação urbana e doméstica, por entre a vida “in alleys and corners” e a morte “on a crowded street”, leva-nos contudo a um ponto de chegada que não é senão o começo de uma viagem maior: “I’m moving, I’m moving in another way of life.” Para onde, o futuro o dirá.

Cloud Nothings, Last Building Burning | em análise
Cloud Nothings - Last Building Burning

Name: Last Building Burning

Author: Cloud Nothings

Genre: Punk-rock, Pós-hardcore, Noise-rock

Date published: 2018-10-19

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  • Maria Pacheco de Amorim - 82
82

Um resumo

Em Last Building Burning, os Cloud Nothings revelam-se em perfeita sintonia, gerando uma torrente sonora avassaladora, que só abranda para crescer em tensão e de novo explodir. Longe de ser uma massa indistinta de ruído, esta é feita de um denso e intricado tecido de filamentos melódicos, que se vai metamorfoseando a cada incauto piscar de olhos, até nos deixar exaustos mas sedentos de mais. Com uma sonoridade cada vez mais afinada ao milímetro e uma personalidade sempre mais original, os Cloud Nothings são um daqueles raros pontos onde brilha a promessa de que o futuro da música pop não será feito apenas de cantautores, produtores, rappers e sintetizadores.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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