Veneza 73 (Dia 5) | As Guerreiras de ‘Frantz’ e ‘Brimstone’

Uma boa surpresa é ‘Brimstone’, do holandês Martin Koolhoven, um western europeu, com duas das estrelas de ‘Guerra dos Tronos’. Renunciando à actualidade, à cor (em parte), o realizador francês François Ozon apresentou na competição ‘Frantz’, um excelente filme sobre o pós-Primeira Guerra Mundial, falado em alemão. Em comum nos filmes têm as poderosas histórias de sobrevivência das suas heroínas.

Ambientado entre uma pequena localidade alemã e Paris e logo a seguir ao Armistício da Primeira Guerra Mundial, Frantz é em primeiro lugar mais uma adaptação cinematográfica da peça de Maurice Rostand, e um remake de Broken Lulaby (1931), de Ernest Lubitch.

Frantz

No final da Primeira Guerra Mundial, Anna uma jovem alemã, vai todos os dias por flores ao túmulo de Frantz, o noivo, que morreu na frente francesa. Um dia no cemitério, encontra Adrien, um jovem francês a chorar junto da campa do alemão. Para além disso, a presença de um estrangeiro, e de um ‘inimigo’, na cidade alemã vai despertar as mais variadas reações e sentimentos extremados.

Vê Trailer de Frantz 

Em Frantz, o realizador francês François Ozon regressou às suas obsessões sobre a morte, perda e ausência, (como em Sob a Areia). No entanto, enfrentou-as desta vez de outra forma: quase todo a preto e branco, num idioma diferente, com novos atores, em lugares e tempos diferentes da França da actualidade, procurando e muito bem dar-lhes uma nova energia e nova dimensão estética. Para este remake de Lubitch (um universo onde Ozon parece ter aprendido muito), o realizador foi buscar dois jovens actores: Pierre Nimey, que interpretou a figura de Yves Saint Laurent, no biopic, realizado recentemente por Jalil Laspert (Nimey ganhou um César para Melhor Actor) e a jovem revelação alemã Paula Beer.

Frantz

Ambos fazem de facto em Frantz duas brilhantes e emocionantes interpretações. Frantz tem apenas duas cenas de batalha -— é a primeira vez que Ozon filma a guerra — pois toda a história é contada já em paz e a partir do ponto de vista alemão, do lado perdedor, através dos olhos de uma bela mulher que perdeu o seu amor e quer reconstruir a sua vida. Mas sobretudo através da visão frustrada daqueles que foram humilhados pelo Tratado de Versalhes.

Frantz

Frantz é na verdade uma forma de ilustrar como a Alemanha daquela época se tornou um terreno fértil para a ascensão do nazismo e intolerância, como em Laço Branco, de Michael Haneke. Quase como em todos os filmes de Ozon, Frantz  é um melodrama clássico, cheio de pistas falsas, com um insinuante triângulo amoroso, reforçado pelo mistério, culpa, perdão e confusão de sentimentos, entre o ódio e amor. 

Brimstone

Brimstone, do holandês Martin Koolhoven é uma produção europeia rodada nos EUA, que conseguiu juntar grandes estrelas internacionais, (e não foi ingénuo com certeza para a promoção do filme…), como Kit Harrington (John Snow) e Carice Van Houten (Melisandre) de Guerra dos Tronos, embora não nos principais papéis. Trata-se sobretudo de uma espécie de regresso a um género — não vais ser o único neste festival — e ao western-spaghetti. Se Quentin Tarantino fosse jurado em Veneza 73, certamente Brimstone estaria na sua lista de favoritos, já que é um violento épico de sobrevivência sobre Liz (Dakota Fanning), uma corajosa mulher, ambientado numa comunidade holandesa dos primeiros colonos do Oeste americano.

Brimstone

Brimstone é um poderoso conto (em quatro capítulos Apocalipse, Êxodo, Genesis, Castigo, não lineares na história, mas por esta ordem) sobre a feminilidade, vingança e resistência contra a crueldade implacável de um inferno terrestre criado por um fervoroso reverendo e pregador calvinista (Guy Pearce). A heroína é Liz/Joanna, uma jovem moldada pela beleza do deserto, com um coração enorme e uma surpreendente coragem, que é assombrada por um pregador fanático que se torna seu inimigo e persegue obsessivamente. No entanto, Liz mais do que uma vítima é uma guerreira impiedosa, uma mulher com uma força impressionante, que responde com uma incrível tenacidade, à vontade de ter uma vida melhor para si e para a sua filha, seguindo o seu destino, sem medo, esperando pelo confronto e a vingança que se aproxima.

Brimstone

Brimstone além de um excelente western, trata-se de um brilhante e oportuno ensaio sobre religião, fanatismo e violência. E depois é uma história de uma mulher determinada a sobreviver, de alguma forma semelhante à heroína de Frantz, de François Ozon.

JVM (em Veneza)

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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