Veneza 73 (Dia 10) | Um ‘Paradise’ Contra a Intolerância

Ambientado entre a guerra e um campo de concentração, ‘Paradise’, do russo Andrej Konchalovsky é um drama intenso que mostra como a sobrevivência, obriga a escolhas humilhantes e tremendas. Mais um filme sobre o Holocausto que pode sair de Veneza 73, como mais um forte candidato à corrida aos Óscares de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Depois de Frantz, o filme de François Ozon, com a competição quase a terminar — faltam apenas dois filmes para fechar o concurso —  eis um mais uma obra que regressa ao interminável tema da intolerância e das atrocidades da II Guerra Mundial. Paradise, de Andrej Konchalovsky conta-nos uma emocionante história cruzada de três pessoas, Olga, Jules e Helmut, passada na devastação da II Guerra Mundial e do Holocausto. Estas três personagens estão carregadas de tanta tragédia, que nos parece impossível que isto pudesse acontecer há tão pouco tempo na nossa civilização; ou mesmo acontecer actualmente, apesar das ameaças do terrorismo e xenofobia.

Paradise

Um dos momentos mais execráveis da história da Europa do século XX foi sem dúvida a ascensão do nazismo, com o extermínio de milhões de judeus e de muitas pessoas que não se encaixavam no ideal de um ‘paraíso perfeito’, à imagem da Alemanha nazi. O título ‘paraíso’ tem obviamente neste filme de Andrej Konchalovsky um significado amargamente irónico e evasivo, mas a sua mensagem renova claramente um grito de alerta, — na linha de a Lista de Schindler (1993) ou O Filho de Saul (2016) — contra a intolerância e uma rejeição contra este terror, e para que nada disto volte a acontecer no nosso mundo civilizado.

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Filmado num clássico, contrastado e austero preto e branco — às vezes até parece película de 16 mm — e Paradise vai intercalando a narrativa com os testemunhos, seguindo os destinos trágicos e cruzados dos protagonistas que caminham para o castigo ou redenção:

Paradise

Olga (Julia Vysotskaya), é uma aristocrata russa, imigrada em França e activista da Resistência Francesa, é presa pela polícia francesa colaboracionista, por esconder crianças judias. Enviada para a prisão, conhece Jules (Philippe Duquesne), um polícia colaboracionista francês, nomeado para investigar o seu caso. Jules sente-se atraído por Olga e oferece-lhe uma punição mais branda em troca de favores sexuais. Olga, disposta a fazer qualquer coisa para evitar uma perseguição brutal acaba por aceitar. No entanto, as suas esperanças de liberdade desaparecem rapidamente por causa de algo inesperado. E acaba transferida para um campo de concentração, onde Olga é forçada a uma vida penosa. Inesperadamente, o seu caminho vai-se cruzar com o de Helmut (Christian Clauss), um oficial superior das SS alemãs, que antes da guerra se tinha apaixonado loucamente por Olga. Entre Helmut e Olga parece acender-se uma velha paixão e embarcando numa estranha e destrutiva relação. Mesmo assim Helmut decide salvar Olga oferecendo-lhe uma fuga que à partida lhe parece impossível. Com o passar do tempo e com a mais que provável derrota nazi, a ideia de Olga em relação a uma fuga começa a mudar.

Paradise

As atrocidades relatadas em Paradise mostram bem até onde pode chegar a maldade humana. Embora tudo isto, tenha ocorrido num passado mais ou menos recente, estas parecem estar agora a regressar — e não apenas na Europa —, imbuídas de um radicalismo puro ódio e intolerância, que ameaças as nossas vidas e a segurança do mundo actual. Por isso mais filmes com este são precisos!

Paradise

Paradise reflete efectivamente sobre um pesadelo do século XX e sobre os fantasmas enterrados nas ruínas da memória. Mas é um filme de uma espantosa actualidade já que alerta para os perigos da retórica do ódio, mas igualmente para a necessidade dos seres humanos usarem mais o poder do amor — e neste sentido é um filme quase religioso, até porque está lá a ‘voz de Deus’ — para vencer a maldade e as forças ocultas que desejam um retrocesso civilizacional.

JVM (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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