"Vitalina Varela" | © Midas Filmes

Vitalina Varela, em análise

Vitalina Varela”, de Pedro Costa, ganhou dois prémios no prestigiado Festival de Locarno, para Melhor Filme e Melhor Atriz.

Dos grandes realizadores do cinema português contemporâneo, Pedro Costa é quiçá aquele com o estilo mais reconhecível. É impossível ver uma das suas obras e confundi-la com o produto de outro qualquer cineasta. É evidente que podemos dizer o mesmo de Miguel Gomes, Rita Azevedo Gomes e outros que tais, mas, no caso de Costa, as especificidades são tão descomunais que nos arriscaríamos a categorizá-lo como um dos autores mais consistentes e consumados do cinema mundial. Como outros antes dele, Costa tem vindo a dedicar a carreira a um só registo e paisagem temática, indo gradualmente apurando suas técnicas e soluções, sua estética e seu e engenho.

De um ponto de vista pouco generoso, poderíamos acusá-lo de se repetir ciclicamente sem acrescentar nada de novo. Há um gradual movimento, do facto ao sonho, do documentário à teatralidade descarada, mas isso estranhamente não parece alterar muito. Afinal, haverá assim tanta novidade entre o seu “Cavalo Dinheiro” e o novo “Vitalina Varela”? Independentemente de tais considerações, uma coisa é certa, mesmo que se repita, como Costa é o único cineasta a produzir obras deste conspícuo tipo, a sua repetição é mais do que justificável. Afinal, Yasujiro Ozu passou a vida a literalmente contar o mesmo punhado de histórias em coleções de remakes infindáveis e não é por isso que o deixamos de definir como um dos grandes mestres da sétima arte. É isso mesmo que Pedro Costa é – um mestre da sétima arte.

vitalina varela critica
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Para se comprovar tal conclusão, basta ver como o seu novo filme começa. Até para quem já por outras vezes se emaranhou nos universos cinematográficos de Costa, a abertura de “Vitalina Varela” é algo que enfeitiça e hipnotiza. Tudo parece escuro, mergulhado na noite eterna em que a maioria do cinema deste autor se desenrola. Da escuridão erguem-se paredes rachadas, manchas de cinza e luz lunar que rasgam a sombra com texturas rudes e ásperas. Alguém morreu, procissões solenes, vozes indefinidas e ruídos longínquos pintam-nos um retrato de luto cósmico, mesmo que ninguém pareça particularmente emocionado pela perda.

Estamos na Lisboa onírica de Pedro Costa, as Fontainhas antes da demolição, feitas num poço de pesadelos, de miséria e degradação, para onde a sociedade portuguesa exila seus imigrantes africanos. Um lugar onde a luz dificilmente se encontra e a esperança ainda é mais difícil de desencantar. Nesta selva urbana, tornada teatro de black box à escala urbana, vemos um avião chegar. A aeronave é como uma criatura de estranhos ângulos metálicos e sombras afiadas, um dragão dos céus, um alienígena ameaçador que mete tanto mais medo pela sua imponente imobilidade. Dele sai a nossa protagonista, a figura titular que partilha o nome com a atriz que a interpreta e que já havia marcado presença no filme anterior do cineasta.

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Depois de décadas à espera de notícias, Vitalina Varela chegou a Portugal em busca do marido que a havia deixado em Cabo Verde. Esse marido morreu e foi enterrado três dias antes da chegada da esposa. É ele o morto que ninguém chora e é dele que brota o espectro de Morte que assombra o resto do filme. Há quem diga a Vitalina que sem o marido falecido, não há nada em Portugal para ela. Vozes acautelam-na, dizem-lhe para voltar, mas a viúva convicta não vira as costas e instala-se no vazio sufocante que é a casa portuguesa do seu esposo. Nesta nação europeia sem sol e sem esperança, a esquálida natureza da habitação quase que goza com Vitalina que ainda sonha com a casa que ela e o marido haviam construído juntos em anos perdidos da sua juventude.

“Vitalina Varela”, o filme, e Vitalina Varela, a personagem, são retratos curiosos da experiência da imigrante. Vazios e almas incompletas povoam o filme, cuja protagonista parece sempre no limiar de se tornar numa zombie. Ela é teimosa na sua peregrinação portuguesa, recusa voltar, mas é claro que a sua alma ainda está no continente africano mesmo que o corpo se encontre em terras lusitanas. A obstinação com que ela encara a vida rasura qualquer leitura martirizada das suas ações, complicando a nossa perceção do seu caráter e convertendo-a num enigma que o espectador observa. Ela é um puzzle e não há soluções oferecidas para a sua resolução. Só mais peças, algumas das quais parecem teimar em encaixar, mas, ao mesmo tempo, fazem perfeito sentido.

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À sepulcral narrativa junta-se ainda o ator fetiche de Costa, o célebre Ventura. Aqui, ele não é o protagonista, mas, vestido de padre e em diálogos com Vitalina, os dois dão origem às cenas mais potentes do filme. Fala-se de espiritualidade e da experiência do imigrante, fala-se de Portugal e de Cabo Verde, da esperança e da falta dela. Fala-se de uma alma presa num lugar a que não pertence, nem quer pertencer, mas ao qual ela continua presa e encurralada. Como um estudo de personagem, “Vitalina Varela” pode ser ambíguo e obscuro. No entanto, há uma enorme carga emocional patente ao seu retrato desta mulher e da sua psique. Costa circum-navega as psicologias freudianas do costume e conjura algo mais próximo de um cinema da alma ao invés de uma história contada em sofá de terapeuta. Tudo isto contribui para a experiência invulgar de “Vitalina Varela”, mas mais importante que tudo é a construção formalista do projeto.

Já muito se referiu sombras, mas é impossível falar em demasia da escuridão no trabalho de Pedro Costa. O seu domínio da câmara digital é incomparável no panorama atual, conseguindo usá-la para pintar verdadeiras obras-primas de tenebroso barroquismo. O filme é simultaneamente inefável e fortemente material, cheio de sugestões táteis perdidas num espaço desfragmentado. O ritmo também é difícil e deliberado, movendo-se com a vagareza de um glacial. Audiências que não saibam para que tipo de filme vão poderão ficar aborrecidas por toda esta letargia. Contudo, tais escolhas rítmicas são necessárias para nos imergir no feitiço de Pedro Costa. Quando ele nos apresenta variações, já perto do fim, o choque é imenso e justifica toda a repetição que o antecedeu. Quando se veem as flores de um cemitério e o sol de uma memória é como se fôssemos a própria Vitalina a ver um raio de vida no meio da escuridão da Morte e do desespero que tudo consome.

Vitalina Varela, em análise
Vitalina Varela

Movie title: Vitalina Varela

Date published: 2019-11-10

Director(s): Pedro Costa

Actor(s): Vitalina Varela, Ventura, Manuel Tavares Almeida, Francisco Brito, Marina Alves Domingues, Imídio Monteiro

Genre: Drama, 2019, 124 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 90
88

CONCLUSÃO:

“Vitalina Varela”, a sétima longa-metragem de Pedro Costa, é mais um elemento na consagração do cineasta português que, com este filme, conquistou o Leopardo de Ouro em Locarno. Com prestações algures entre o teatro estilizado e o naturalismo documental e um mundo mergulhado nas trevas, a produção representa uma experiência que confunde e frustra, que maravilha e enfeitiça.

O MELHOR: Conversas numa igreja abandonada, raios de luz pintados na escuridão das paredes e cadeiras vazias a marcar uma missa de fantasmas.

O PIOR: A letargia do ritmo é difícil de engolir para quem não seja já fã de Pedro Costa e sua peculiar oeuvre de cinema do imigrante, da miséria e das Fontainhas transfiguradas num quadro barroco.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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