© NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

West Side Story, em análise

Steven Spielberg embarca agora num novo género com uma nova adaptação do musical “West Side Story”, com música de Leonard Bernstein, e letras de Stephen Sondheim. Será que supera as expectativas?

PAIXÃO E MORTE ENTRE AS RUÍNAS

Permitam-me referir, com justificado entusiasmo, mais um filme que sofreu as consequências da pandemia e cuja estreia, inicialmente prevista para 2020, foi adiada praticamente um ano. Falamos da nova versão de WEST SIDE STORY, dirigida por Steven Spielberg. Na origem, um musical concebido para a Broadway e coreografado por Jerome Robbins. Decorria o ano de 1957. Depois dos palcos, foi a vez de Robert Wise, coadjuvado pelo mesmo Jerome Robbins, a dar forma a uma versão cinematográfica, que no nosso país ficou conhecida por AMOR SEM BARREIRAS, produção de 1961. Passados sessenta anos, a realização de mais uma versão para cinema foi confiada a Steven Spielberg, realizador cujo interesse pessoal pelo projecto foi confirmado após associar o seu nome ao desenvolvimento do mesmo e que a 20th Century Fox iniciara em 2014. Na verdade, a actual versão de WEST SIDE STORY pode ser considerada um dos melhores exemplos da perfeita articulação entre diversos criadores, nomeadamente o argumentista Tony Kushner, o coreógrafo Justin Peck e, naturalmente, os que deram corpo e alma ao libreto e a uma notável partitura musical, onde encontramos alguns dos gigantes da música americana como Leonard Bernstein, mas igualmente Stephen Sondheim e Arthur Laurents, sem qualquer favor, legítimos herdeiros dos grandes nomes de origem judaica responsáveis por uma boa percentagem dos maiores dramas e melodramas do repertório clássico e ligeiro dos Estados Unidos da América. De igual modo, esta nova proposta cinematográfica pode ser considerada uma das mais sedutoras incursões pela memória dos códigos inerentes a um cinema que era grande e que permanece grande, mesmo numa época em que alguns se habituaram a ver os filmes em ecrãs mais pequenos. E, muito importante, não estamos perante uma mera actualização do que outrora foi feito, mas sim de uma nova abordagem, que não inventa uma nova partitura nem uma nova estrutura ficcional, apesar de algumas diferenças na hierarquia e nas localizações de algumas sequências. Não, ninguém quis fazer moderno, ou pior, modernaço. Muito pelo contrário. Estamos de novo na Nova Iorque de meados dos anos 50, ou melhor, no Upper West Side de Manhattan e no contexto social e cultural daqueles vinte quarteirões, leia-se, bairros miseráveis que hoje já não existem, porque na época em que decorre a acção estavam a ser derrubados para dar lugar a outras formas de vida, que de certo modo riscaram do mapa da cidade as contradições mais difíceis de sustentar no plano étnico. Sobretudo no interior de comunidades contaminadas pelas estranhas formas de vida que eram as dos imigrantes de origem latina a viver, paredes meias, com os de origem anglo-saxónica ou da Europa de Leste. Rivalidades entre estes cidadãos eram muitas e persistiam muito activas, produzindo as citadas barreiras, sobretudo as erguidas por gangues rivais, como era o caso dos JETS, formado por adolescentes brancos oriundos de famílias com origens diversas e de poucos ou nenhuns recursos financeiros, por vezes dentro e outras vezes a rondar os limites da delinquência juvenil, e o gangue dos SHARKS, formado por mestiços, crioulos ou hispânicos pobres. Dois mundos, feitos de muitos submundos, agarrados a lutas constantes, por vezes, absurdas e violentas entre os que se consideravam americanos, mesmo que os seus pais mal falassem o idioma inglês, e os que nem sim nem não, oriundos de Porto Rico, para além de outros países como a República Dominicana ou Cuba, cidadãos maioritariamente de língua castelhana.

West Side Story
“West Side Story” © NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

Logo de início, Steven Spielberg quis deixar bem claro neste seu WEST SIDE STORY que, naquela zona da cidade, o que restava do sonho americano, as ilusões que não foram contaminadas pelo pesadelo das diferenças económicas e sociais comuns aos dois gangues, estava a ser destruído para dar lugar a outra realidade, ou seja, aquela que hoje podemos usufruir ali bem perto do Central Park, por exemplo, naquilo que alguns julgam ser o passeio das elites, as que frequentam o Lincoln Center e os seus arredores, homens e mulheres para quem o “American Dream” está plasmado na maior ou menor dimensão da sua conta bancária e que se julgam bafejados pelos ventos dos dólares e dos negócios que sopram desde o sul da ilha, a partir de Wall Street. Este início dá-nos assim de forma inequívoca o retrato de uma cidade e de uma comunidade em mudança. Retrato produzido pela combinação da fotografia do veterano Janusz Kaminsky e dos fabulosos efeitos visuais que em sucessivas gruas e movimentos de câmara aérea nos faz atravessar vielas e gradeamentos, as ruínas de velhos edifícios. Ou seja, o que ainda resta do WEST SIDE. Faz lembrar um pouco o início de CITIZEN KANE (O MUNDO A SEUS PÉS), o filme de Orson Welles, de Herman Mankiewicz e do grande Director de Fotografia Greg Tolland. Só que desta vez não vemos o palácio das mil e uma noites, o Shangri-La do milionário Charles Foster Kane, mas sim o que resta das modestas casas em ruínas dos deserdados e esquecidos. Os que se chamam Tony, Maria, Anita, ou são conhecidos por alcunhas como Mouthpiece, Snowboy, Balkan. Em suma, os plebeus ou marginais voluntários ou involuntários, que a partir dos primeiros minutos serão apresentados como os protagonistas de uma história de ódio atravessada posteriormente por uma paixão proibida e maldita, a da porto-riquenha Maria pelo “polaco” Anton, que mais adiante será pretexto para um encontro de vida e de morte entre dois mundos e dois grupos de rapazes e raparigas que, na prática, são acossados pelos mesmíssimos e pouco recomendáveis polícias que os vigiam sem grande eficácia. Mundos que, não obstante viverem próximos, não podiam ser mais distantes.

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No argumento que, desde a primeira versão para palco, foi buscar o principal conflito dramático ao corpo narrativo de ROMEU E JULIETA, de William Shakespeare, encontramos uma história articulada na exploração das rivalidades, não de duas famílias renascentistas, mas agora de duas castas de deserdados do capitalismo, no que podemos designar, ontem como hoje, como os que já nasceram vencidos pelas adversidades e não conseguem sair de um patamar existencial e infernal, determinado pelos mais redutores limites bairristas, assumidos como se fossem autênticos e modernos feudos de sangue. Na realidade, o único poder que acabam por experimentar, aquele a que se agarram com unhas e dentes, aquele pelo qual dão a vida, na maior parte dos casos por coisa nenhuma que faça a diferença. No entanto, um poder que os faz mover, apesar da sua natureza mais do que ilusória.

West Side Story
© NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

Para dar consistência humana aos contrastes desta ficção, fundamental será salientar a prestação dos numerosos actores, entre os quais se destacam os intérpretes das personagens do gangue porto-riquenho, os SHARKS, nomeadamente o papel de Bernardo, desempenhado por David Alvarez, assim como o da sua namorada Anita, a actriz Ariana DeBose. Naturalmente, sem esquecer a personagem da jovem Maria, defendida por uma igualmente jovem Rachel Zegler. Do outro lado, nos JETS e no meio deles, está Tony, papel em que Ansel Ergot demonstra capacidade para ir mais longe do que fora no filme que, de algum modo, o lançou a muitas rotações por minuto, o simpático BABY DRIVER (ALTA VELOCIDADE), 2017, de Edgar Wright. Destaque ainda para Rita Moreno que, em boa hora, foi repescada do filme de Robert Wise, onde desempenhou o papel de Anita. No de Steven Spielberg surge como Valentina, a dona de um drugstore que resiste por entre os pedaços de um bairro praticamente demolido. Personagem de origem latina, viúva de um “gringo”, que protege Tony e a quem os JETS demonstram respeito, nem sempre de muito boa vontade. Ela surge igualmente no genérico como produtora executiva, facto a que provavelmente não será indiferente a sua origem. Nasceu em Porto Rico. De facto, no filme, a falsa e forçada unidade dos que finalmente sobrevivem ao destino dramático dos membros mais salientes de ambos os gangues, adicionado ao drama pessoal e colectivo que vivem face a uma repetição sistemática dos estigmas que sempre lhes bloquearam uma outra saída rumo a um futuro diferente, faz-nos pensar e acreditar que o ponto de vista mais forte da obra fílmica cai mais para o lado dos latinos, os que procuram um emprego e um desejo de redenção, que não se vislumbra  nos membros dos JETS. Para além do mais, a jovem e quase imaculada Maria possui a dose necessária de luz no rosto que faz dela a figura redentora, pelo menos a que melhor pode estabelecer o ponto de equilíbrio entre as manifestações do amor e do ódio. Sim, não restam dúvidas de que a comunidade que se exprime nas duas línguas, inglês e castelhano, constitui o elo mais forte de uma cadeia relativamente frágil do lado B da grande cidade e do grande país. Mais que não seja, pela exuberância das cores da sua cultura, do seu vestuário, da sua linguagem com raça, que usam para melhor esconderem dos anglófonos o que lhes vai na alma. E ainda os pontos altos da banda sonora, os ritmos frenéticos das suas músicas, um estilo existencial que supera muitas e muitas vezes a fria e dura luminosidade vinda do lado mais branco do WEST SIDE, aquela luz que provoca uma sombra no lado B da STORY americana, o da pura, dura e crua realidade nova-iorquina.

Finalmente, não podemos deixar de assinalar a portentosa partitura do compositor Leonard Bernstein, que do princípio ao fim deste filme serve de motor propulsor da acção, cantada, bailada ou simplesmente representada, como se WEST SIDE STORY fosse uma imensa paleta musical e visual onde sobressaem os cambiantes de uma era, os anos 50. Nos seus esplendores e nas suas misérias, nos seus amores e nas suas paixões interditas, impedidas por destinos cruzados que supostamente não se podiam ou deviam cruzar. Numa sociedade em mudança, num mundo em que imperava o espectro da guerra atómica e o manto pesado da guerra fria. Num país que aparentemente mudou, mas não muito. Basta recordar os ódios que recentemente foram despertados naqueles que, por entre as ruínas de uma presidência sem valores, avançaram contra a democracia e os direitos cívicos que pensávamos adquiridos para sempre. Na verdade, ao longo dos 156 minutos de WEST SIDE STORY, de Steven Spielberg, que passam num instante, não podemos deixar de pensar nos conflitos que persistem no seio do povo americano. Nem sequer podemos ignorar a actual situação geopolítica de Porto Rico, uma das mais controversas no Hemisfério Ocidental que de certa forma ainda está sob a influência dos Estados Unidos. Nas letras das canções, tanto nos anos 60 do século XX como nos anos 20 do Século XXI, ressoam as palavras de gente simples que construiu aquele país, muitas vezes sem nada pedir a não ser que os reconheçam como cidadãos livres, e já agora americanos, como se diz num dos mais simbólicos e bem estruturados momentos musicais desta nova versão, coreografada como se fosse aquilo que na realidade acaba por ser, uma fabulosa viagem pelas ruas de Nova Iorque, na companhia das girls, ou antes, das niñas latinas que cantam assim: “I like to be in America, O. K. by me in America, Everything free in America”. E diz Bernardo, mais consciente e directo: “For a small fee in America”. E a letra segue assim, com muitos subentendidos, como o exemplo dado em que a ambivalência da palavra free, livre ou grátis, encontra a voz da razão que desfaz a ilusão, sublinhando que até pode haver almoços livres mas não há almoços grátis nos EUA. De facto, mais adiante Anita continua a cantar e lança para o ar: “Buying on credit is so nice”. E mais uma vez o experiente Bernardo recorda-lhe: “One look at us and they charge twice”. Um sublime e sarcástico momento musical que podemos colocar ao lado de um outro, igualmente fulgurante, o baile no ginásio do liceu, marcado pelos sons do Mambo, lugar de inúmeras provocações entre JETS e SHARKS e ponto de partida para a sucessão de acontecimentos que, pouco a pouco, irão alimentando e ampliando a fúria dos rebeldes sem causa.

Ariana DeBose
Ariana DeBose como Anita e David Alvarez como Bernardo em “West Side Story” © NOS Audiovisuais / 20th Century Studios

Numa palavra, numa altura em que se multiplicam os filmes popcórnicos, que alguns consideram produtos para vender e deitar fora, prestar atenção a um filme como WEST SIDE STORY não é apenas um sinal de inteligência mas igualmente de bom gosto, a melhor prenda de Natal que podemos dar a nós próprios e aos que connosco partilham o conceito de cinema com C maiúsculo.

West Side Story, em análise

Movie title: West Side Story

Date published: 2 de December de 2021

Director(s): Steven Spielberg

Actor(s): Rachel Zegler, Ariana DeBose, David Alvarez, Rita Moreno, Ansel Elgort,

Genre: Drama, Musical, Romance, 2021, 156 min

  • João Garção Borges - 90
  • Inês Serra - 85
  • Maggie Silva - 75
  • Virgílio Jesus - 90
  • Rui Ribeiro - 90
  • Marta Kong Nunes - 90
  • Cláudio Alves - 85
86

Conclusão:

PRÓS: Uma obra ficcionalmente bem estruturada e musicalmente perfeita, que foi escrita, dirigida, coreografada, interpretada, numa palavra, materializada para recuperar o gosto pelo grande cinema a partir da memória de um clássico do palco e do grande ecrã. E acreditem, daqui a uns anos irão revê-lo com igual entusiasmo, semelhante ao que espero possam, aqui e agora, sentir durante e após o visionamento de um dos mais recentes capítulos da já longa carreira de Steven Spielberg.

CONTRAS: Nada a assinalar nos caminhos cruzados das histórias do WEST SIDE que impeça o usufruto de uma grande STORY de cinema.

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