Rodrigo Santoro

Westworld estará assim tão longe? | Entrevista a Rodrigo Santoro

Rodrigo Santoro, o popular ator e produtor brasileiro, mais conhecido recentemente pelo seu papel na fantástica série Westworld da HBO, falou da sua vida pessoal, bem como da vida em Westworld.

Numa mesa redonda para a qual a MHD foi convidada, aquando do lançamento do HBO PortugalRodrigo Santoro, o popular ator e produtor brasileiro, respondeu a várias perguntas sobre o seu papel na série Westworld, sempre duma forma divertida e apaixonada pela sua arte.

Vamos ter o Rodrigo na terceira temporada?

Eles não me deixam dizer nada. Eles ainda não anunciaram oficialmente mas há grandes chances. Estamos a conversar mas eles não me deixam dizer nada. (…) As filmagens começam no próximo mês [março], não sei se no fim…

As filmagens costumam demorar quanto tempo?

A primeira temporada demorou um ano porque filmámos dois episódios e depois parou por dois meses e meio. Normalmente seis meses para fazer 10 episódios. […] É um trabalho longo de desenvolvimento também com uma jornada, a personagem passa por muitas coisas, é muito bom. Estou a gostar muito.

Bem diferente das novelas

Bem diferente. […] Primeiro por que são cento e pouco episódios e aqui são dez, são dez filmes. Tudo se sente como um filme, o tratamento… “Westworld” é a única série que é feita em filme, em película, porque a maioria hoje é digital. Por causa do criador, o Jonathan Nolan, ele tem esse pormenor. Foi uma das coisas que eu achei genial e as pessoas perguntam-me que “filtro é esse”, película! É uma produção muito grande, é incrível.

Quase não há diferença de filmar para cinema 

É uma sucessão de filmes, cada episódio é um filme, acho que de 50 minutos.

O que lhe pareceu mais tecnológico nas gravações, houve alguma coisa que o surpreendeu, que teve de adaptar à forma de atuar?

Sim, eu imaginei que houvesse mais tecnologia porque a série é de ficção-científica, mas é outra característica do Nolan, não tem efeitos especiais. Claro, tem pós-produção, seguras um iPad e depois ele trabalha lá mas tudo é set, tudo é montado, tudo é filmado. Usam aquela abertura que tem aquele boneco branco de braços abertos, aquilo é de verdade, não tem nada de efeitos especiais. Tudo construído, a grande maioria, vamos dizer 80%, está tudo ali e é filmado. E depois tem um trabalho de pós-produção muito grande e para trabalhar é uma forma totalmente diferente porque eu não conhecia a personagem, não tinha um backstory, eu tive uma sinopse, uma ideia do que eu ia fazer mas quanto mais eu perguntava menos eu sabia, então parei de perguntar. Estamos a fazer a série, quem são os rostos, basicamente qual era a diferença dos humanos e dos hosts. Eu sabia que eu estava a fazer um host e só na segunda temporada é que sabemos mais ou menos o que são, aliás no meu caso. É isso que eu acho interessante, tens de ir descobrindo coisas muito subtis, trabalhar com nuances, muito delicadas, como é que colocas isso sem fazer um estereótipo e especialmente por estar a fazer o host. Nós não somos robots então não temos de fazer um robot, somos uma inteligência artificial portanto foram várias subtilezas que também fomos entendendo conforme as estávamos a fazer. Não saímos com um conceito, ou seja, como vamos fazer. Não, tínhamos de encontrar uma linha para todos os hosts mas ao mesmo tempo sabemos que não íamos atuar como robots e encontrar um caminho subtil porque eles também têm sensações apesar de não terem consciência, eles sangram, eles emocionam-se.

A segunda temporada, especialmente para mim, foi muito interessante. Muito rica em detalhes e a personagem deu-me uma jornada de descobrimento, de questionamento, quase que uma inteligência artificial com uma crise existencial. Está a tentar conhecer-se. E eu gosto do assunto, então estudei muito também. Filosoficamente falando, para mim foi muito interessante.

Nesses estudos viu alguma coisa interessante do ponto de vista de como a inteligência artificial pode ter direitos.

Essa é uma grande questão. Eu acho que o ponto mais interessante para mim é onde está a linha que divide o que nós criamos, a máquina, e o humano. Até que ponto os algoritmos estão a dar as cartas, quem está a contar a história e a partir disso até que ponto ele tem direitos e isso é o que a série questiona. Quão perto estão do humano e até que ponto eles devem ter esses direitos e são questões muito contemporâneas. Costumamos dizer “ah, é uma série baseada um pouco no futuro próximo”. Para mim é o presente, não é o futuro próximo. Isso já está a acontecer, estamos a viver isso diariamente com as extensões das nossas mãos que são estes aparelhos [os dispositivos móveis]. Eu vejo cenas hoje em dia, eu fico mais sensível para esse tipo de coisas. Vejo quantas pessoas estão dependentes. Eu vi uma cena recente, filha de um amigo. Nós fomos pescar lá na Califórnia e a menina tinha uns 13 ou 14 anos. O pai disse para ela pôr o telemóvel no bolso porque agora iam pescar e ela lá colocou mas estava morta para poder ver as mensagens. Algum tempo depois ela tirou e disse que era só para ver a hora. O telemóvel caiu da mão dela e partiu a tela. Quando ela viu que tinha caído parecia que tinha sido a mãe dela. Era o desespero, saiu a correr.

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O Rodrigo tem algum tipo de dependência da tecnologia?

Eu acho que a minha relação está num lugar saudável. Tenho momentos em que se estou a comer ou se estou com amigos especialmente, apesar de alguns amigos estarem a falar contigo e a mexer no telemóvel, procurar encontrar espaços e dilatar ao máximo esses espaços para ter contacto com o mundo real que é o que me interessa até como artista. É muito importante observar, mas claro que isto é uma ferramenta. Não estou a negar, simplesmente trabalho a minha relação com o mundo de possibilidades que vive aqui. Porque esse é o grande negócio. Antigamente íamos cortar o cabelo e enquanto esperávamos pegávamos numa revista, hoje as pessoas nem se olham porquê? Não tenho nada para fazer, tenho dois minutos, deixa ver aqui uma coisa. Quando percebes, estás mergulhado. Então a própria série fez-me questionar e estar sempre a colocar-me em check. Tem agora até um negócio que diz o tempo em tela que tem, eu estou bem, não me considero doente.

Quantas horas de média por dia?

Ai não sei mas não é muito. Varia. Há dias em que preciso de pesquisar e uso muito para pesquisa. Para ler alguma coisa, se quero uma informação, sempre direcionado à pesquisa. Por exemplo, quando estava a fazer a série em Los Angeles, é mais ou menos 1 hora da minha casa até à locação [local externo de filmagens], muito trânsito em Los Angeles

A locação é sempre a mesma?

Sim e não, nós temos uma base onde temos a cidade cenográfica e os estúdios mas temos muitas locações que estão na mesma zona. Quando abrimos a câmara e vemos uma cena de paisagem, uma cena que é mais uma caverna, estamos sempre fora, mas é mais ou menos na mesma zona. Então quando eu ia pensei “Não vou ficar no trânsito, a pensar ou a reclamar, não, vamos usar de uma forma produtiva”, então comecei a ouvir os Ted Talks e os podcasts, descobri o podcast, então estudava e ia ouvindo. Na verdade comecei a gostar, falava “que bom que vou ter uma horinha de trânsito” porque comecei a estudar sobre várias coisas, ou seja, acho que é como tu usas, porque é uma ferramenta incrível.

Já que estamos na apresentação de um serviço de streaming, qual é os seu consumo de streaming versus tv linear?

Mais streaming, não vos vou mentir. Hoje em dia vejo, quando paro para ver, é muito mais streaming. Até porque não sobra muito tempo normalmente mas se não estou a trabalhar e vou ver uma série ou um filme, ainda vejo documentários, adoro documentários, filmes, eu não deixei de ver filmes e só vejo séries acho que isso também é uma tendência. Continuo a ver e vou ao cinema, vou muito ao cinema. É super importante, é outra experiência e eu gosto de ir e ficar quieto, tranquilo, e o conforto de poder escolher a hora a que vai ver, o que vai ver. Experiência de ir ao cinema, para mim, ainda é superior.

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Como conjuga a sua vida no Brasil com os Estados Unidos, os projetos que faz num país e noutro.

Um dia de cada vez. Tudo sem a sua importância, por exemplo, o ano passado ou mais tarde, fiz uma participação numa novela no Brasil de quinze episódios, só os quinze primeiros episódios porque não dá para fazer tudo com a dinâmica da minha vida hoje mas fiz e a razão é estar com muita saudade de recolectar e escolher e fazer uma novela e não uma série, eu quero trabalhar num produto mais popular e recolectar com as pessoas porque se as pessoas também tinha essa vontade: “Volta a fazer uma novela”. E eu falei, “tá bom”. E esperei aparecer uma oportunidade que me estimulasse, interessante, com parceiros que eu admiro e respeito, e ela apareceu exatamente na hora que o Westworld tinha dado um hiatus, parou e isso apareceu, as estrelas se alinharam e eu falei, “é isso”. Mas normalmente é o que me chega. As minhas decisões estão muito baseadas no material, na personagem com que vou trabalhar, é um pouco disso tudo. Eu não planejo, ah agora fiz uma série, agora vou fazer um filme. eu trabalho sempre na direção contrária, à extrema racionalização, tento me ouvir e perceber o que estou a sentir e acho isso muito importante, uma mistura de instinto com o racional senão você se coloca muito racional e começa a planear e acho que as coisas não são tão matemáticas. A própria vida mostra-te diariamente que não há controlo e de que não adianta ficar construindo castelinhos.

MHD: O casting é fabuloso, todos sabemos, e as tuas histórias com a Thandie Newton devem ser imensas, podes partilhar alguma connosco, com mais piada?

Já viu alguma coisa da série? Primeiro, isso eu agradeço a Deus, eu sou muito sortudo nas minhas parcerias. Sempre tenho atores incríveis ao meu lado e dou-me bem. Como esse é um trabalho longo é sempre importante, um filme sempre vai lá, uma semana, um mês e meio, faz o que tem a fazer e vai embora. Isto é uma família, e a Thandie foi esse caso, uma atriz muito talentosa, muito irreverente, que quer experimentar coisas e já madura e muito interessada e agradável e foi uma amiga com quem eu continuo a trabalhar e com o quem eu me diverti e pude criar muito aberta à composição, sempre conversámos muito, ela queria ouvir o que tinha a dizer, falávamos sobre a relação porque não é uma história romântica que estamos acostumados a ver, eles estão num outra preocupação, estão numa missão e o romance permeia a história então é também um par romântico, se pudermos falar dessa forma, diferente de tudo o que eu já vivi, os dois estão ali numa missão. E na segunda temporada a coisa começa a vir para a flor da pele, especialmente para o Hector, ele começa a entender e a sentir e a ter consciência mas ela é um presente para mim, adoro trabalhar com ela.

Na televisão há produções de cada vez maior qualidade. Como vê a televisão?

É curioso falar de televisão porque estamos a fazer de streaming, já é um híbrido.

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Para um ator abrem-se mais portas, é um desafio maior ver uma aposta maior na televisão. As pessoas olham também agora de uma forma diferente para o que se faz. Para um ator como é ver isto.

Para mim o mais interessante é poder desenvolver a personagem, num filme está bastante compacto. Se faz o protagonista do filme, tem ali normalmente uma jornada de 1h50 onde coisas acontecem com essa personagem. Numa série tem 10 episódios numa primeira temporada, ou seja, talvez seja um meio termo entre um folhetim e uma novela, é bem distante de uma novela porque temos 300 capítulos, versus 10. Mas também não é um filme que são duas horas. É algo no meio com qualidade igual a de um filme mas para um ator o que me interessa é desenvolver a personagem, é poder ir navegando e explorando e descobrindo a personagem aos poucos e eu acho que temos condição de nos aprofundar mais ao longo tempo. às vezes demora uma temporada, depende da jornada da personagem mas para mim é interessantíssimo viver com essas personagens e conhecer. Na segunda temporada já conhecia bem melhor quem era o GHector quem era a personagem, na primeira não tinha ideia, eu fui no instinto mas deu me muita satisfação ver na segunda temporada o que acontece com ele e isso também me estimula, isso é muito interessante, e tem tempo para amadurecer. Um filme tem um mês para fazer uma preparação, uma pesquisa, depois de 750 Ted Talks sou outra pessoa, agora na nova temporada com algo mais existencial e  isso vai influenciar o que estou a fazer. É uma questão de tempo e isso faz me trabalhar de forma diferente.

Tem uma relação diferente com o público

As pessoas encontram-te e falam, aí assemelha-se à novela, aí as pessoas têm a sensação que te conhece mas ao mesmo tempo não tanto porque na novela estamos ali todos os dias. É um folhetim, sem crítica nenhuma, trabalhei com novela durante muito tempo e gosto, são linguagem diferentes.

Costuma ver o que se vai dizendo na internet sobre a série? Por exemplo as teorias e os vídeos.

Eu fico confuso, são muitas e uma vez, vou te contar uma história rápida, para ilustrar. No começo, sim falavam-me. Eu estava na estreia da segunda temporada de Westworld em Los Angeles e estava no tapete vermelho e vi um cara desesperado “vem aqui, vem aqui!” e eu fui falar com ele. Ele ele pegou e disse “vou te contar uma coisa que é importante que você saiba. Westworld, existe um parque na Europa que é igual ao Westworld, é real!”. E na hora eu não duvidei, eu não sabia, eu falei “tá bom”. Ele pode estar a brincar e eu falei “eu acredito”. Ele disse “há um parque no Leste Europeu que é o mesmo conceito do Westworld”. Eu passei a estreia inteira a pensar naquilo. Como deve ser, será que tem mesmo. E é uma teoria.

Foi à procura?

Não porque aquilo era secreto, como uma ceita. Eu chequei, não vou mentir, só que não se chama Westworld. É um parque no leste europeu para adultos. As coisas não têm nada a ver com o conceito da série. Mas, claro, não é o que digo é um presente. Não o parque mas o que falamos do futuro. No outro dia eu vi um robot não sei se era japonês ou coreano que você não consegue dizer que não é uma pessoa. É impressionante o detalhe.

A location já é visitável?

Não. É um secretismo. Quando recebi o primeiro episódio tinha três horas para ler e ele virava fumaça e acabou. O piloto quando eu ia fazer a série eles disseram vamos enviar três senhas para começares, mais quatro depois, e depois vais ter três horas a partir do momento que começou, depois desaparece. E eu fui entendendo porquê, ainda mais com os leaks que existem por aí e a necessidade de proteger isso mas coloca-te numa adrenalina. A informação é secreta.

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Rui Ribeiro

Engenheiro, publisher, melómano e audiófilo, daqueles que ainda vão ao cinema, compram vinil, cd's, blu-rays, a Empire e a Stereophile em papel.

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