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IndieLisboa ’20 | White Riot, em análise

A 17ª edição do IndieLisboa tem vindo a explorar temas da luta contra o racismo. Até na secção IndieMusic isso se verifica com obras como o documentário “White Riot” sobre os fãs do rock britânico que se mobilizaram contra o racismo na sua nação.

É triste pensar nisto, mas um documentário sobre a comunidade branca a tomar responsabilidade e ação contra a crescente ameaça de nazis é incrivelmente relevante para a época que vivemos. Na Europa atual vemos países virar-se para nacionalismos doidos e para a supremacia branca, expressando racismo enraizado contra refugiados e outros imigrantes. O conservadorismo sobe e a cultura torna-se num campo de batalha ideológico.

Por outras palavras, “White Riot” pode ser um documentário sobre os anos 70 na Grã-Bretanha, mas suas teses representam ideias necessárias e urgentes para a conjetura presente. Mais especificamente, trata-se de um retrato do movimento “Rock Against Racism” que se organizou para lutar a ascensão da Frente Nacional há mais de quatro décadas. Segundo Kate Webb, membro antigo do movimento, eles tinham o objetivo de descascar a bandeira britânica para expor a suástica que se escondia por baixo.

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O documentário da cineasta estreante Rubika Shah detalha como o “Rock Against Racism” se formou com base na indignação partilhada por uma série de indivíduos que olhavam horrorizados para a radicalização racista dos seus compatriotas. Pior ainda, a cultura musical que lhes acalentava a alma tinha sido sequestrada pelo conservadorismo odioso, falando de rebeldia e niilismo ao mesmo tempo que apelavam a uma agressividade contra o progresso.

Até a moda associada ao rock e ao punk padecia dessa doença do racismo, sendo que a Frente Nacional depressa se apoderou da iconografia. Alguns artistas não contrariavam nada essa tendência, dando glamour aos símbolos do nazismo na sua busca pelo chocante. Tanto eles queriam chocar que não se preocupavam com quem a sua provocação denegria. Contra tudo isto se revoltaram os membros do “Rock Against Racism” e tudo isso Shah delineia com uso generoso de imagens de arquivo e anotações gráficas no grande ecrã.

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A estética dessas intervenções escritas vai buscar inspiração à estética com que a “Rock Against Racism” desenhou a sua fanzine “Temporary Hoarding”. Esse simples mecanismo dá ao filme a aparência de ser uma extensão dessa publicação antiga. De novo vemos como as preocupações de ontem continuam a ser os dilemas de hoje. Tal realização é horrenda, mas a luta continua e “White Riot” representa um enfurecido grito de batalha.

Filmes deste tipo costumam ora cair na falésia da tragédia miserabilista ou no poço da inspiração babada. “White Riot” estabelece um equilíbrio incerto, mas eficaz, entre a partilha de informação doentia, a educação e a mobilização ativista. A nostalgia que aqui existe não é um fenómeno passivo e sem garra, mas um ingrediente que pretende motivar a audiência a fazerem, eles mesmos, parte da luta necessária contra o racismo, tanto a nível institucional como individual.

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De facto, “White Riot” acaba por circum-navegar os problemas típicos deste género documental. Não é só uma questão, mas também um assunto de representação. Muitos filmes sobre relações raciais privilegiam a perspetiva branca sem dar a voz àqueles mais afetados pelo racismo, mas a cineasta Shah faz questão de virar a câmara para etnias não-caucasianas também. Temos o testemunho dos membros do “Rock Against Racism”, mas também ouvimos de músicos pretos, famílias asiáticas que sentem na pele os preconceitos da sociedade britânica, ativistas antifascistas e muito mais. O filme tem um estilo ligeiramente televisual, mas sua construção brilha pela inteligência e pelo equilíbrio, pela estrutura clara e argumentos galvanizantes.

White Riot, em análise
white riot critica indielisboa

Movie title: White Riot

Date published: 29 de August de 2020

Director(s): Rubika Shah

Genre: Documentário, Música, 2019, 80 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Um grito de revolta, uma chamada para as armas, “White Riot” é um belíssimo exemplo de cinema documental contra o racismo. Simples e potente, o filme é tristemente relevante para o ano de 2020.

O MELHOR: A banda-sonora, como seria de esperar, é incrível para quem goste de rock e punk dos anos 70.

O PIOR: Com somente 80 minutos e uma linguagem visual muito à base de gráficos simples e entrevistas em plano médio, “White Riot” parece mais calibrado para o pequeno ecrã que para a tela de cinema.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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