"Fantasmas do Império" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Fantasmas do Império, em análise

A cineasta Ariel de Bigault explora o legado colonialista na História do Cinema Português no seu mais recente filme, “Fantasmas do Império”. O filme está integrado na secção Director’s Cut do 17º IndieLisboa.

Ao longo da sua carreira, a realizadora Ariel de Bigault tem vindo a pesquisar temas do colonialismo lusófono, procurando entender o legado que ainda vive desse fenómeno com séculos de existência. No seu mais recente projeto, “Fantasmas do Império”, ela virou a sua câmara para a questão do cinema e sua representação do imperialismo português. É um filme sobre filmes, um documentário que se dobra sobre si mesmo na tentativa de dissecar como a História vive na cultura popular.

Apesar de padecer de alguns problemas estruturais, o documentário tenta formar-se através de uma cronologia histórica vista pelo prisma do cinema. Por consequente, “Fantasmas do Império” começa por examinar essa tão complicada época em que Portugal se expandiu além das fronteiras. Há quem lhes chame Descobrimentos, há quem designe isso como Expansão Marítima. Poucos capítulos da História Portuguesa têm vindo a dar tantas dores de cabeça e isso mostra-se no documentário.

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Entre propaganda nacionalista dos tempos do fascismo e representações modernas prontas a questionar a narrativa racista, o século XVI tem vindo a vestir muitas caras diferentes em celulóide. Guiados pelo ator são-tomense Ângelo Torres, os espectadores são levados a questionar aquilo que lhes tem sido ensinado. Para sublinhar seu ponto de vista crítico, de Bigault até reforça o discurso com imagens da capital lusitana, onde monumentos celebram essa era quando os portugueses se fizeram ao mar para “descobrir” novas terras.

É claro que não houve descoberta nenhuma. Não se pode descobrir um sítio onde já vivem pessoas, onde já existem idiomas e culturas complexas, onde um povo se estabeleceu muito antes de europeus arrogantes lá porem os pés. Em diálogos com realizadores e historiadores do cinema, Torres vai-nos ajudando a ver como esse primeiro ímpeto da globalização foi manchado pela ganância. Nem se tratou de descoberta nem de algo benigno. Foi conquista e foi exploração de recursos, foi extermínio cultural, foi roubo e foi escravização.

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Em filmes dos anos do Estado Novo, os relatos da História Portuguesa são especialmente asquerosos. Muito se fala da civilização que os portugueses levaram ao continente africano. Contudo, essa transformação civilizacional, essa atitude evangelizadora, foi um presente envenenado se é que se pode chamar de presente. A arrogância do colonizador vive muito além da agressão aos povos que conquista. Vive em mentiras desbocadas como o título de uma curta chamada “Gente Que Nós Civilizámos”.

Apesar de tudo isso, de Bigault, Torres e os cineastas que entrevistam expõem interessantes argumentos sobre esses filmes do Estado Novo. Nomeadamente, falam de como a filmagem da comunidade local está envernizada com exotismo, mas existe também uma tensão. Por muito que os cineastas da época e seus mandatares olhassem seus sujeitos africanos como um “outro”, a observação da câmara acaba sempre por celebrar, por imortalizar. Por entre o racismo, encontramos documentação preciosa de culturas que os portugueses muito lutaram para apagar.

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Os relatos vão-se tornando cada vez mais pessoais à medida que o filme avança. É na exploração da Guerra do Ultramar que “Fantasmas do Império” mais levanta os ânimos, dissecando com ultraje a propaganda de um regime que tentava justificar sua violência. Contam-se histórias de censura e cineastas desgraçados pela opressão fascista. Também se debate quem tem legitimidade para contar certas histórias e certas vidas. Gostaríamos que Ariel de Bigault tivesse questionado mais agressivamente seus entrevistados, mas a conversa é rica mesmo assim.

“Fantasmas do Império” não seria prejudicado por uma estrutura argumentativa mais exata. Não parece haver ordem certa ao seu encadeamento de ideias e há um grande desequilíbrio entre o modo como fala do colonialismo português em África e dos seus comentários passageiros sobre a expansão lusitana na Ásia. Apreciamos a crítica histórica e as belíssimas imagens de arquivo. Talvez este documentário funcionasse melhor como uma minissérie, algo com mais tempo para desenvolver e segmentar suas ideias. Enfim, podia ser melhor, mas não deixa, por isso, de ser um documento essencial para quem quer que se interesse por Cinema Português.

Fantasmas do Império, em análise
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Movie title: Fantasmas do Império

Date published: 2020-08-29

Director(s): Ariel de Bigault

Genre: Documentário, 2020, 112 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

No cinema português, os indivíduos não caucasianos são muito vistos como parte do Império lusitano, mas o seu papel foi o de figurante, o de adereço e nunca de ser humano com autonomia própria. Desde a revolução de Abril isso tem-se vindo a alterar, mas ainda há muito que melhorar. “Fantasmas do Império” não é perfeito, mas representa uma fascinante exploração da História do Cinema Português e sua relação com as colónias.

O MELHOR: As belas e maravilhosas imagens de arquivo, algumas das quais aparecem em sublime restauro. Desde curtas mudas a filmes do século XXI, “Fantasmas do Império” mostra de tudo.

O PIOR: Há uma certa inconsistência na estrutura do filme. Isso é particularmente visível no modo como os narradores e entrevistadores vão mudando. Teria sido recomendável manter a presença de Ângelo Torres como um guia constante para o espetador.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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