"Wolfwalkers" | © Apple TV+

Wolfwalkers, em análise | Melhor Filme de Animação

“Wolfwalkers”, disponível exclusivamente na Apple TV+, é um dos melhores trabalhos de cinema animado dos últimos anos. A obra irlandesa com traços celtas foi nomeada para o Óscar de Melhor Filme de Animação de 2021.

Durante a última década, o estúdio de animação irlandês Cartoon Saloon tem-se vindo a firmar como uma das grandes potências no panorama do cinema animado. Ao contrário da maioria das grandes produções americanas, o estúdio continua a praticar animação bidimensional traçada à mão, empregando as potencialidades do digital como uma ferramenta auxiliante e não um substituto do desenho. Não só a metodologia remete para a perpetuação do tradicional, como as suas narrativas também refletem um gosto pela História, pelo artesanato ancestral e o conto antigo.

O Cartoon Saloon assim encontrou uma harmonia paradoxal, por onde a vanguarda emerge da convenção que teima em evoluir com os tempos. Surpreendentemente, a convicção artística destes cineastas tem trazido sucesso popular, crítico, e até aclamação vinda da própria indústria. Todas as suas longas-metragens foram nomeadas para os Óscares, inclusive o seu trabalho mais recente e ambicioso. “Wolfwalkers” representa o apogeu do estúdio, suas preocupações temáticas e narrativas, suas preferências estéticas e homenagem a expressões criativas de séculos passados.

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Em certa medida, “Wolfwalkers” representa o capítulo final numa trilogia focada em ritos celtas e a perda da cultura nativa da Irlanda. “The Secret of Kells”, a primeira longa-metragem do estúdio, tomou como ponta de partida o real livro de Kells, manuscrito medieval que funde a literatura cristã e a pintura iconográfica dos povos celtas. Nesse filme, ventos de mudança ameaçavam a longevidade de conhecimentos seculares e todo um misticismo associado às florestas parecia prestes a morrer face à investida do progresso humano, da indústria, da cidade.

Anos mais tarde, tivemos “A Canção do Mar” que, ao invés de iluminuras, se focava no mito do kelpie. Desta vez, o século XX serviu de pano de fundo, mostrando uma Irlanda onde os espíritos da natureza há muito foram esquecidos e uma cultura sobrenatural está condenada à aniquilação. Apesar de infantil, seu conto vive da perda, da melancolia e da saudade de quem testemunha o fim de algo maravilhoso. Se “The Secret of Kells” mostrou o início do fim e “A Canção do Mar” é o ponto final dessa tragédia irlandesa, “Wolfwalkers” está no meio dos dois.

A trama passa-se no século XVII, quando os puritanos de Inglaterra ameaçavam consumir toda a paisagem irlandesa e expurgar os últimos resquícios de tradição pagã com a força esmagadora do protestantismo cristão. Dois mundos vivem lado-a-lado, a floresta verdejante e selvagem, a cidade que todos os dias cresce e consome mais terra. Na urbe, um fundamentalista de traje negro, um Cromwell caricaturado, declara guerra à floresta e exige a sua destruição em nome do progresso. Cabe a um humilde caçador resolver o problema dos lobos que defendem o bosque.

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É no lar desse viúvo cabisbaixo que a história concreta tem início. Sua filha, Robyn, quer ajudar o pai, mas nem ele nem ela se entendem. O fantasma do luto por uma mãe caída pende no ar e o mais doloroso é que, apesar do claro amor familial, esta parelha é incapaz de comunicar. Não ficamos muito surpresos quando, certo dia, Robyn desobedece ao patriarca e se aventura pela floresta com uma besta na mãe e o intuito de uma caçadora. É evidente que os seus planos depressa vão por água abaixo, mas o seu fim não é um banho de sangue. De facto, o que Robyn descobre no arvoredo é amizade, amor, magia.

Depois de muito vermos o conflito do lado dos caçadores, os realizadores Tomm Moore e Ross Stewart, mergulham-nos no mundo maravilhoso da floresta e seus habitantes belicosos. Coroada com uma nuvem de rubros cabelos ruivos, Mebh é uma jovem tribal que vive nas profundezas do bosque, comungando com os lobos. De facto, através de rituais incertos, ela consegue transferir a sua consciência para dentro do animal e correr como uma loba. Tal como Robyn, a outra rapariga tem uma missão que a leva ao outro lado da dicotomia da cidade/floresta. Sua mãe foi capturada em forma lupina, e Mebh está decidida a salvá-la.

Do desentendimento das meninas nenhum ódio floresce, somente a descoberta de novos mundos e a paixão conjunta pelas maravilhas que a terra irlandesa tem para oferecer. Em gesto separatista, “Wolfwalkers” manifesta-se contra os invasores ingleses numa história que se rege pelas leis da fábula celta e sua imagética secular, seus ritos pagãos e crenças há muito perdidas nos livros de História. É emocionante e é belo, um festim para vista e para o coração que pinta um retrato complicado de conflitos culturais. O filme pode ser para miúdos, mas há uma enorme sofisticação no seu discurso, no modo como entrelaça o pessoal e o político, o gesto histórico com a aventura sobrenatural.

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Melhor que tudo isso é a animação em si, uma fusão de perspetivas distorcidas que contrastam os ângulos afiados da cidade com as formas orgânicas do mundo natural. Os fundos inebriam a vista, mas é o movimento que realmente nos enfeitiça, quer sejam os estilhaços fragmentados da violência ou a alucinação cinética das meninas tornadas em lobas. É um cocktail de técnicas variadas que, no fim, vivem em perfeita simbiose, uma harmonia tão instável como impressionante. Só por isso, o filme merece ser lembrado como uma das obras-primas do cinema animado moderno. Um Óscar não é suficiente. Este é o tipo de milagre da sétima arte que merece ser canonizado ao lado de outros clássicos históricos.

Wolfwalkers, em análise
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Movie title: Wolfwalkers

Date published: 25 de April de 2021

Director(s): Tomm Moore, Ross Stewart

Actor(s): Honor Kneafsey, Eva Whittaker, Sean Bean, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, John Morton, Nora Twomey, Paul Young

Genre: Animação, Aventura, Família, 2020, 103 min

  • Cláudio Alves - 92
  • Virgílio Jesus - 100
96

CONCLUSÃO:

“Wolfwalkers” é a joia da coroa para os estúdios irlandeses Cartoon Saloon. Com esta sublime proeza, eles finalmente arrancam o título de melhor animação ocidental à Disney e à Pixar. Seus melancólicos contos de perda cultural e tradição céltica estão aqui para ficar e serem celebrados como os triunfos que são.

O MELHOR: As projeções astrais que unem o espírito humano ao corpo lupino.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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