X-Men: Apocalipse, em análise

X-Men: Apocalipse é um fecho de trilogia pouco inspirado e imaginativo que quase extingue dos audaciosos mutantes a unicidade que sempre os distinguiu dos demais super-heróis cinematográficos.

A certa altura de X-Men: Apocalipse, numa tirada parte-meta parte-profética, um grupo de jovens mutantes abandona uma sala de cinema depois de assistir uma exibição de Star Wars: O Regresso de Jedi. Entre uma animada discussão sobre qual o mais valoroso episódio da saga, acaba por ser Jean Grey a rematar: “todos podemos concordar que o terceiro filme é sempre o pior”.

Infelizmente, e talvez em virtude do seu crescente poderio no âmbito da telepatia e telecinesia, Grey bem podia estar a falar do seu próprio e que vem complementarmente comprovar que a “maldição do terceiro episódio” pode ser muito bem uma maleita privada dos audazes X-Men.

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De facto, depois de um infame O Confronto Final (2006) que deixou na saga cicatrizes que só Dias de um Futuro Esquecido (2014) conseguiu sarar por meio de inebriantes saltos no tempo, e depois de dois produtos de forte engenho para imprimir um refrescado reboot à saga, Apocalipse é um fecho de trilogia desinspirado, cansado e que quase extingue dos X-Men a unicidade que sempre os distinguiu dos demais super-heróis.

No enredo, somos rapidamente transportados para o antigo Egipto. Desde o início da civilização, ele era adorado como um deus: Apocalipse, o primeiro e mais poderoso mutante do universo X-Men da Marvel, acumulou os poderes de muitos outros mutantes, tornando-se imortal e invencível. Ao acordar depois de milhares de anos, fica desiludido com o mundo em que se encontra e recruta um grupo de mutantes poderosos, incluindo um Magneto desanimado, para purificar a humanidade e criar uma nova ordem mundial, sobre a qual reinará. Com o destino da Terra em causa, Raven com a ajuda do Professor X irá liderar uma equipa de jovens X-Men para combater o seu maior inimigo e salvar a humanidade da destruição total.

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Depois de ter lançado ao mundo o grupo de mutantes no clássico de 2000 que abriu portas à proliferação dos subsequentes 16 anos de super-heróis como se fossem cogumelos, e depois de um muito robusto e dinâmico Dias de um Futuro Esquecido, Bryan Singer fecha o seu ciclo de forma pouco gloriosa com Apocalipse.

Mais do que qualquer um dos X-Men anteriores, Apocalipse constrói-se em torno de um desejo de extravagância poderosa, mais perto de um Avengers empaturrado de heróis e pancadaria do que dos antecessores mais sóbrios e movidos por ideias. Curiosamente, e ainda que proporcione inspirados momentos de ação (particularmente no último ato) sempre bem apimentados com sequências de humor iluminado, esta concessão ao espetáculo parece uma regressão – e para um franchise tão intimamente ligado ao conceito de evolução, há aqui muito pouca.

Marginalizando algumas relações em detrimento de outras e subaproveitando o colorido período histórico em que se concentra, apresenta-se no entanto, como uma aventura suficientemente divertida e eficaz, sobretudo ao estabelecer a próxima turma base do Professor X.

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Oscar Isaac parece genuinamente dedicado à árduia tarefa de tornar Apocalipse ameaçador, mas enterrado debaixo de uma montanha de próteses e maquilhagem não tem o trabalho facilitado. O argumento volta a não ajudar – a narrativa faz pouco para o diferenciar da miríade de vilões de BD que já conhecemos e a sua motivação simplista parece mais delirante do que propriamente mobilizadora.

O restante elenco (incluindo os sempre competentes James McAvoy e Michael Fassbender e o sangue novo e promissor de Sophie Turner e Tye Sheridan) perpetua a tendência de X-Men de estar bem acima dos seus pares em termos de performances, e os nossos mutantes fazem muito mais do que o que podem ou devem com as limitações de caracterização e dinâmica que os seus personagens encerram neste terceiro capítulo – particularmente Quicksilver, esse banho de água fresca que é a criação de Evan Peters e que novamente aqui é um portento de diversão e vivacidade, proporcionando alguns dos melhores momentos da película.

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Ainda que seja uma entrada largamente desapontante no franchise, Apocalipse não consegue, no entanto, obscurecer completamente o brio de uma trilogia que se sentiu sempre orgânica nas suas intenções, complexa no tratamento das suas ideias morais, sociais, políticas, e questionando sempre os seus protagonistas sobre o que deverão fazer com os dons que lhes foram dados.

Ao longo do caminho que começou com o brilhante X-Men: O Início, no entanto, as ideias acabaram por se tornar mais profundas do que as personagens que as carregam, ficando em aberto ainda a possibilidade da criação de um novo recomeço para o Cinema de super-heróis. Como está, Apocalipse deixa a sensação de grandeza perdida, de que há ali algo que funciona parcialmente e que entretém, mas não da forma enfática e irrepreensível dos seus antecessores que sempre souberam combinar eximiamente o espetáculo com o investimento intelectual e emocional, o que vem provar que maior e mais barulhento nem sempre é melhor. Afinal, mais… é menos.

O MELHOR – A contínua complexidade das ideias apresentadas na saga e o elenco.

O PIOR – O fraco desenvolvimento do personagem Apocalipse e o enorme retrocesso que se sente neste último episódio, em relação aos anteriores.

 


Título Original: X-Men: Apocalypse
Realizador:  Bryan Singer
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Sophie Turner, Oscar Isaac, Jennifer Lawrence
Big Pictures | Ação, Aventura, Fantasia | 2016 | 144 min

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Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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