Stranger Things 2, em análise

Stranger Things está de regresso! Se na T1 a série ficou conhecida como a carta de amor aos anos 80, a T2 convém ser relembrada como a emancipação de Stranger Things.

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers da T2 de “Stranger Things”.

Estávamos no Verão de 2016, quando a série original da Netflix, “ Stranger Things ”, tomou os amantes de séries de assalto. Ninguém previa o sucesso e o impacto que a série teve. O que é certo é que não se falava de outra coisa. A série era a simbiose perfeita entre popularidade e qualidade.

Assim, foi bastante natural e previsível toda a antecipação que surgiu em torno da nova temporada da série. Será que iria conseguir satisfazer, e até superar, as expectativas dos fãs? Ou acabaria por ter o destino fatídico de não conseguir repetir os feitos anteriormente alcançados? Não estaríamos a ver esta situação a acontecer pela primeira vez. Afinal, não são poucas as séries que, no início, pareciam tão promissoras, e eventualmente não conseguiram lidar com o seu próprio sucesso.

Stranger Things

Felizmente, esse não foi o caso de “ Stranger Things ”. A segunda temporada estreou mundialmente na Netflix a 27 de outubro, uma prenda bastante agradável de antecipação para o Halloween. A história começa cerca de um ano depois dos eventos da primeira temporada. À primeira vista, a vida dos nossos heróis parece ter regressado ao normal.

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Mas sem ninguém saber, Mike (Finn Wolfhard) continua com dificuldade em superar o desaparecimento de Eleven (Millie Bobby Brown). A sua irmã Nancy (Natalia Dyer) ainda não está a conseguir lidar muito bem com a morte de Barb (Shannon Purser). E Will (Noah Schnapp) tem tido algumas alucinações ligadas ao Upside Down, que o fazem ver um monstro gigante. Tirando isto, a puberdade começa a dar sinais de vida em Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo), especialmente quando conhecem a rapariga nova, Madmax (Sadie Sink), que chegou a Hawkins acompanhada pelo seu irmão Billy (Dacre Montgomery), o novo rival de Steve (Joe Keery).

Stranger Things

O sentimento de nostalgia continua muito presente no novo capítulo da série, quer seja através de inúmeras referências feitas a filmes icónicos quer com a presença de atores como Sean Astin (“Os Goonies”, O Senhor dos Anéis). Mas se na primeira temporada a série ficou conhecida como a carta de amor aos anos 80 e aos clássicos desta época, esta segunda temporada convém ser relembrada como a emancipação de ” Stranger Things “.

Embora a série volte a mostrar o seu apreço por obras como “E.T. – O Extra-Terrestre” ou “Os Caça-Fantasmas”, nesta temporada, “ Stranger Things ” procura mostrar que não é uma série que se limita a enaltecer os clássicos de ficção científica dos anos 70/80. Acima de tudo, a série tenta afirmar a sua própria identidade. Ser mais “ Stranger Things ” e menos uma série sustentada por homenagens a outras obras.

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E em comparação com a temporada de estreia? “Stranger Things” melhorou ou piorou? Dizer que ficou pior seria uma grande ofensa. Mas honestamente, não podemos dizer que a série ficou melhor do que já era. O nível de qualidade manteve-se. E este aspecto é muito positivo, especialmente porque a série ainda tem algumas temporadas planeadas. Seria muito decepcionante se “Stranger Things” colocasse todas as cartas que tem na manga em cima da mesa logo na temporada 2, e depois ficasse sem grandes surpresas para os futuros capítulos, não concordam?

Stranger Things

Nestes novos episódios, os jogos de luzes deram lugar a puzzles de papel e a narrativa dividiu-se numa grande teia, separando os nossos heróis. Nos últimos episódios, cada um dos pequenos enredos une-se para o confronto final. Mas nem todas as linhas narrativas desta temporada foram interessantes. Embora todas tivessem o seu propósito a longo prazo. Como foi o caso da narrativa de Jonathan e Nancy. E nem todos os novos personagens foram bem-vindos. Afinal, qual foi a utilidade de Billy? Ser responsável por alguma evolução nos personagens de Steve e Max? Trazer para esta nova temporada a figura de um novo bad boy?

Certamente que não somos os únicos a considerar que “Stranger Things” conseguia sobreviver bem sem este personagem. E Steve e Max teriam a sua oportunidade de progredir na história sem a sua ajuda. Este é o único aspecto negativo da segunda temporada da série. E visto que já arrumámos esta questão, vamos ao que de melhor a série nos proporcionou.

Stranger Things

No final da primeira temporada, ficámos com a suspeita de que Jim Hopper (David Harbour) estava a ajudar Eleven. Por isso não foi um grande espanto quando no episódio “Capítulo Um: MADMAX” vemos o chefe da polícia a regressar a uma casa no meio da floresta e ser recebido por Eleven. Contudo, esta relação provou ser uma caixinha de surpresas. A jornada de Eleven nesta nova temporada é bastante emotiva. E começa exatamente com Hopper. Ele perdeu a sua filha há alguns anos e Eleven nunca conheceu os seus pais biológicos.

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De certa maneira, eles são perfeitos um para o outro. Porque preenchem um vazio na vida de cada um. Hopper torna-se no pai que Eleven nunca teve. Ela torna-se numa pessoa querida e que ele quer proteger. Mas nem tudo é um mar de rosas. Os dois têm várias discussões. Quer porque Eleven não percebe o motivo de estar escondida de todos, quer pelo grande instinto de proteção de Hops. Gradualmente, eles deixam de partilhar a relação de refugiada-protetor, e evoluem para uma verdadeira e genuína relação de pai e filha.

Stranger Things

Quem também se destacou como uma das relações mais interessantes e surpreendentes desta temporada foi a dupla de Steve e Dustin. Quem diria que estes dois fariam um par tão carismático? A verdade é que esta relação foi das melhores surpresas da temporada 2 de “Stranger Things”. E deu lugar a uma grande evolução de Steve. O jovem tem oportunidade de se redimir e tornou-se muito mais maduro e sensato. Talvez por ter sido colocado numa situação em que tinha de agir como adulto, e zelar pelo bem-estar de Dustin e dos restantes miúdos.

Da mesma forma que Hopper se torna na figura paternal de Eleven, Steve pode muito bem ser visto como o irmão mais velho que Dustin nunca teve. Ele dá-lhe conselhos sobre namoros, leva-o até ao baile da escola e até lhe revela o truque ultra-secreto do seu penteado. Ao testemunharmos a dinâmica desta dupla, é praticamente impossível não considerarmos esta relação e esta linha narrativa como um dos grandes destaques desta temporada. Esperemos que os irmãos Duffer nos dêem mais momentos entre Steve e Dustin nas futuras temporadas. É tudo o que precisamos para ficarmos com um sorriso no rosto ou soltar uma boa gargalhada.

Stranger Things

E agora, falemos sobre o tão comentado sétimo episódio. Para começar, somos a favor da sua existência. É um episódio muito importante para a história de Eleven, e para o seu desenvolvimento enquanto personagem. Mas é igualmente importante por ter expandido o universo de “ Stranger Things ” para além da povoação de Hawkins. Regressando a Eleven, este capítulo é fundamental para a personagem. Nesta segunda temporada, Eleven/Jane tenta perceber quem ela é, qual é o seu lugar no mundo e qual o caminho que deve seguir. Depois de vários anos a ser controlada, Eleven consegue escapar às várias prisões a que esteve sujeita. Eventualmente, ela cruza-se com uma jovem igual a ela, Kali. Com este contacto, Eleven/Jane descobre que tipo de pessoa podia ter-se tornado, quem ela quer realmente ser e quem ela quer proteger.

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Neste sentido, o episódio 7 de “Stranger Things 2” é fulcral. Era necessário e tinha de acontecer. O problema está na altura em que decidiram introduzir esta história paralela. No início da temporada, ficou claro que iríamos conhecer a “irmã” de Eleven. Contudo, o timing foi péssimo. O segundo capítulo de ” Stranger Things ” teve um arranque um pouco lento. Quando a narrativa começou finalmente a desenvolver, surge-nos o intrometido episódio 7, que quebra o ritmo e fluidez que estava a ser construído nos episódios anteriores, afastando-nos da povoação de Hawkins, de Will, Mike, Hopper e dos restantes heróis.

Stranger Things

Na nova temporada de “ Stranger Things ” vemos novamente um excelente trabalho da parte dos atores. O grupo dos adultos permanece irrepreensível. Desde Winona Ryder, que dá novamente vida a Joyce, uma mãe sempre preocupada com o seu filho Will, dedicada e pronta a fazer o que for preciso para o salvar, até David Harbour ou Sean Astin.

Mas tal como aconteceu na primeira temporada, o destaque a nível de representação vai para os atores mais novos. Wolfhard, Matarazzo e McLaughlin surpreenderam o público com as suas performances nos papéis de Mike, Dustin e Lucas, respectivamente. Especialmente porque foi a grande estreia dos jovens no mundo da representação como protagonistas. Na temporada 2, os jovens voltam a demonstrar o seu talento e provam que ainda vão dar que falar no futuro. Contudo, quem ficou com grande parte dos créditos na temporada passada foi a jovem Millie Bobbie Brown no papel de Eleven.

Stranger Things

Agora, na segunda temporada, quem deve receber todos os louvores é o jovem Noah Schnapp. Infelizmente, por via das circunstâncias, o jovem ator não pôde mostrar grande coisa na temporada 1. Embora o seu personagem fosse o catalisador da narrativa, ele teve apenas breves aparições nos episódios. Talvez seja por isso que neste segundo capítulo o jovem ator se empenhe tanto e tente compensar, de certa forma, a sua ausência na primeira temporada. Will é novamente o elemento que empurra a narrativa para a frente, mas desta vez ele está muito mais presente. Desta forma, Schnapp encontrou aqui a sua oportunidade para mostrar o seu talento, que por sinal não é pouco.

Stranger Things

Schnapp esmerou-se com o seu Will nesta temporada. O jovem ficou responsável por um grande desafio, ao ter que apresentar Will na sua faceta mais vulnerável até ao momento. Depois da experiência traumática que viveu no ano passado, quando ficou preso no Upside Down, agora Will é assombrado por um monstro demoníaco, que o consegue possuir e usá-lo como espião. Schnapp consegue representar perfeitamente o medo e o terror que Will sente. Mas também é capaz de nos mostrar um lado mais apático e distante, quando o jovem está a ser controlado pelo monstro. Will pode ter sido um personagem relativamente fácil de esquecer na primeira temporada, mas garantimos-te que isso vai ser impossível de acontecer nesta continuação.

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Se ficaste fã de “ Stranger Things ” na primeira temporada, este segundo capítulo só te vai fazer apreciar ainda mais a série. Os heróis da história estão a crescer e a série está a acompanhá-los. Tornou-se mais madura, mais sombria e mais séria. Embora ainda tenha espaço para o seu lado mais cómico. Continua repleta de referências aos clássicos dos anos 80, quer no âmbito cinematográfico como musical. Há muitas questões sobre este mundo que continuam sem resposta. Mas iremos certamente encontrá-las nas próximas temporadas. Até lá, a nossa única solução será aguardar e ver o que o futuro tem reservado para os nossos heróis. Porque ainda não foi desta que eles se livraram do Upside Down

8/10

Stranger Things 2, em análise

Name: Stranger Things 2

Description: Um ano após o regresso de Will, tudo parece ter voltado à normalidade… Mas a escuridão espreita sob a superfície, ameaçando a cidade de Hawkins (Sinopse oficial da Netflix)

  • Filipa Machado - 80
  • João Fernandes - 85
  • Miguel Pontares - 82
82

CONCLUSÃO

O MELHOR: A performance de Noah Schnapp como Will; a relação de pai e filha entre Hopper e Eleven; a dupla dinâmica e divertida de Steve e Dustin.

O PIOR: O personagem de Billy não teve qualquer utilidade para a história. O episódio 7, "The Lost Sister" é importante mas a altura em que foi introduzido na temporada foi terrível.

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Sobre Filipa Machado

Licenciada em Estudos Artísticos e uma grande apaixonada (e viciada) por Literatura, Televisão, Cinema e, em especial, por Animação Japonesa.