Novos Melhores Álbuns de 2017

Na linha das melhores tradições da MHD, damos aqui a conhecer a nossa seleção dos melhores álbuns de 2107, conforme vão sendo editados ao longo do ano.

Uma visão pessoal, de espectro largo e nem sempre consensual, mas sempre orientada para o que consideramos de mais representativo entre a melhor música popular enquanto arte. Nem sempre a mais comercial, mas a que mais nos mobiliza e acreditamos que a muitos dos nossos leitores.

“A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas” Bono

Anterior1 de 18

 Julie Byrne, Not Even Happiness (Ba Da Bing, 13 Janeiro 2017)

“Follow my voice”, diz Julie Byrne no começo de um dos melhores álbuns de 2017, para nos guiar até ao coração deste artefacto delicado. É fácil abstrair-se dos versos, deixando-se hipnotizar pelo fluir dos dedilhados folk, cheios de reverberação, num fundo atmosférico onde se ouvem, subtil e ocasionalmente, uma flauta, um piano, sintetizadores, violinos, amostras sonoras de ondas na praia. Mas esta música nunca se torna etérea, porque as notas da guitarra, muitas vezes eléctrica, destacam-se claras e decididas. Antes evoca, com o seu uso do eco e a voz calorosa de contralto de Byrne, a imensidão aberta das paisagens americanas percorridas em palavra.

Melhores Álbuns 2017

Julie Byrne, Not Even Happiness

 

Tudo na música de Byrne emerge da sua vida pessoal. O pai cantava em casamentos e, quando deixou de conseguir tocar guitarra por causa de uma esclerose múltipla, a filha aprendeu a tocar o instrumento como “uma oferta a ele”, disse à Pitchfork. Abandonando a faculdade, onde ingressara para estudar Engenharia Ambiental, vagueou por toda a América, até desembocar em Nova Iorque, onde trabalhou como guarda-florestal em Central Park. Conseguindo descrever com minúcia biológica os organismos do Museu de História Natural, Byrne cita de cor, ao mesmo tempo, trechos da poesia de Frank O’Hara, Adrienne Rich ou Leonard Cohen. Uma devoção ao silêncio e à solidão acompanhada da natureza exprime-se poeticamente em detalhes dispersos por meditações introspectivas sobre o sentido do eu: “I have dragged my life across the country / and wondered if travel led me anywhere / There’s a passion in me, it just does not long for those things”.

Em luta com esta itinerância está a possibilidade de encontrar a permanência sob o olhar da pessoa amada. O amor traz ao de cima a dificuldade de “speak out from your depth”, o desejo de que “might our fire burn long, might I love you more”, a necessidade de pedir perdão “when I was nowhere close to forgiving myself”. E, mesmo se este amor jaz no passado, as últimas palavras do disco comportam uma interrogação eterna: “Shall I be ever near the edge of your mystery”.

JULIE BYRNE, NOT EVEN HAPPINESS | AUDIO OFICIAL

Maria Pacheco de Amorim

Anterior1 de 18



Sobre Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam “Justin Bieber” escrito num texto meu (ok, para além deste).