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69ª Berlinale: Os Portugueses

O cinema português não está na competição principal mas está muito bem representado nesta Berlinale 2019 com uma curta-metragem na competição Berlinale Shorts e com mais quatro obras nas secções Forum e Forum Expanded, uma série nos Drama Series Days, e um projeto e três profissionais no Berlinale Talents.

‘Past Parfect’, de Jorge Jácome (‘Flores’, 2017), está selecionado para a Berlinale Shorts, secção competitiva dedicada às curtas-metragens (a secção que premiou João Salaviza, Diogo Costa Amarante e Leonor Teles), um filme que é uma ‘espécie de arqueologia apocalíptica’ para entender a origem da melancolia, como afirmou há dias à Lusa o realizador português, que se estreia nesta importante montra internacional. O filme tem como base a peça de teatro ‘Antes’, do encenador Pedro Penim, na qual Jorge Jácome trabalhou a componente visual. O realizador re-escreveu o texto original para teatro, adaptando-o aos seus questionamentos pessoais e a um contexto cinematográfico: O texto original é uma conversa entre um dinossauro e um psicanalista. Neste filme removi isso, para ficar uma coisa mais dúbia, de onde é que vem esta conversa. O texto vai recuando na história, para tentar perceber o mal-estar do presente. Para saber de onde vem a origem da melancolia. ‘Past Perfect’ funciona ainda como um balanço e um ponto de situação sobre o que o ainda jovem realizador fez até agora e o que quer fazer no futuro no cinema, tendo como base essa perceção da origem da melancolia: A melancolia, para mim, é uma coisa muito mais individual e pessoal, por isso é tão difícil de explicar. E este ‘Past Perpect’ está constantemente a dizer que é difícil de explicar, de traduzir, de passar para imagens e para texto o que é este sentimento, conclui o realizador. Jorge Jácome apresentará o seu filme ‘Past Perfect’ no próximo dia 12.

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‘A Portuguesa’, de Rita Azevedo Gomes.

Na secção não-competitiva Forum vão estar presentes as obras ‘A Portuguesa’, de Rita Azevedo Gomes, praticamente na abertura desta secção e ‘Serpentário’, de Carlos Conceição amanhã dia 8. ‘A Portuguesa’, o novo filme Rita Azevedo Gomes (‘Vingança de Uma Mulher’), parte de uma novela de Robert Musil, com adaptação cinematográfica da escritora Agustina Bessa-Luís e conta novamente, uma história enigmática sobre uma misteriosa mulher. No norte de Itália, século XVI, quase no momento da assinatura de paz do Concílio de Trento, o é consumada uma estranha união entre uma enigmática Portuguesa e o seu marido, von Ketten, um nobre de ascendência germânica.

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‘Serpentário’, de Carlos Conceição.

‘Serpentário’ é a primeira longa-metragem de Carlos Conceição (‘Coelho Mau’), que segue um rapaz (novamente João Arrais) que vagueia por uma paisagem africana pós-apocalíptica em busca do fantasma da sua mãe, contando ainda com a participação da bela voz da actriz Isabel Abreu. É um filme emocional e muito pessoal sobre as memórias, uma jornada sensorial de re-descoberta do passado que se vai transmutando entre a incursão autobiográfica do realizador em África — onde nasceu e viveu até aos seus 21 anos — e episódios da própria história de África. A propósito do filme, Carlos Conceição revelou nas notas fornecidas à imprensa: Quando voltei para filmar o ‘Serpentário’, as memórias tinham se tornado filmes na minha cabeça. A guerra tinha sido um rito de passagem entre a ligação perdida com a História e a reinvenção das suas texturas e cores. O passado tornou-se uma aventura, um western, um filme- catástrofe, conforme observava o meu eu mais jovem a acertar contas com uma terra que o traiu de volta.”

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‘Past Perfect’, de Jorge Jácome.

Ainda na secção Forum Expanded vão ser exibidos ‘Fordlandia Malaise’, de Susana de Sousa Dias (’48’), e ‘A Story From Africa’, de Billy Woodberry. Pela primeira vez, o audiovisual português vai estar igualmente presente na secção da Berlinale dedicada às séries de televisão, com a participação de ‘Sul’, série policial de Ivo M. Ferreira, nos Market Secreenings, da secção Drama Series Days. O projeto ‘Aurora’, de João Vieira Torres, vai ser exibido no DOC Station da secção Berlinale Talents, na qual participam também a distribuidora e programadora Susana Santos Rodrigues, o ator Mauro Soares e o realizador Gonçalo Almeida, convidados a integrar a comitiva de talentos deste Festival de Berlim 2019.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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