‘Natural Light’, o filme de estreia de Dénes Nagy (n.1980).

71ª Berlinale (Dia 4) | Luzes Naturais

Na sua primeira longa-metragem de ficção ‘Natural Light’, apresentada na competição, o realizador húngaro Dénes Nagy, explora a condição humana em mais uma historia ambientada na II Guerra Mundial. Mas houve mais filmes na competição, sem guerra mas todos ligados por uma certa luz natural.

O poderoso ‘Natural Light’, o filme de estreia de Dénes Nagy (n.1980), não é apenas mais um filme sobre o sangrento conflito que flagelou o mundo há pouco mais de 80 anos. ‘Natural Light’, fala contudo de mais uma verdadeira descida aos infernos — recordei-me de ‘The Painted Bird’ (2019) ou ‘O Filho de Saul’ (2015). É mais uma viagem às profundezas da mente, dos homens que enfrentam constantes dilemas morais, para sobreviverem na guerra. O filme passa-se durante a II Guerra Mundial, num período do conflito, onde não se sabe muito bem, para que lado vai cair. E Nagy baseou-se um romance homónimo do escritor Pál Závada, que na verdade cobre um período 1930-1950, mas o cineasta só usou para o filme, três dias de 1943.

VÊ TRAILER DE ‘NATURAL LIGHT’

Está prestes a começar um longo inverno nos territórios da União Soviética, ocupados pelos nazis, que foram apoiados por cerca 100.000 soldados húngaros. O cabo István Semetka (Ferenc Szabó) faz parte de uma dessas unidades húngaras, encarregada de andar de aldeia em aldeia para controlar e erradicar qualquer tentativa de resistência.  Depois de ter ocupado, uma aldeia remota, a companhia é atacada pelo fogo inimigo e o seu comandante foi morto. Como, militar da mais alta patente, Semetka tem de assumir comando. Vagueando pela vasta floresta pantanosa e enlameada Semetka conduz os feridos e sobreviventes de volta a uma aldeia anteriormente ocupada. Pelo caminho, encontram o velho chefe da aldeia morto, com uma placa de ‘traidor’, pendurada ao pescoço. Quando chegam à aldeia reúnem todos os aldeões e colocam-nos num celeiro. Entretanto chegam reforços de uma companhia maior, mais bem equipada, mas definitivamente mais cruel, liderada por um major que é um velho amigo de Semetka. Protagonizado por actores não-profissionais, selecionados na Hungria rural, ‘Natural Light’, é um filme praticamente sem diálogos. É marcado por longos silêncios de medo entrecortado às vezes por gritos de violência ou metralhar das armas. Semetka representa o que há de mais humano (e nobre) num soldado na guerra: protege duas jovens da aldeia da violência dos soldados, mas nunca ao ponto de se colocar em risco a sua posição. A maior parte do tempo do filme, permanece impassível avaliando sempre as suas opções, ao contrário dos outros soldados que se comportam como arruaceiros, bêbados, violentando os aldeões na sua maioria velhos crianças e mulheres, que não param de assediar. Mas Semetka não a age dessa maneira. Durante a maior parte do tempo, mostra o seu rosto quase inexpressivo, marcado pelo tempo e pela dureza da situação, mas é sempre atencioso e tranquilo. Por isso, Semetka é quase sempre o centro da câmera do director de fotografia Tamás Dobos, que filma os seus passos e movimentos. Szabó não é um ator profissional, o que sentimos e pensamos sobre o seu personagem vem do contexto que Nagy constrói à volta dele e da sua magnifica (in)expressividade interpretativa.

natural light
‘Natural Light’ ©71ª Berlinale

‘Natural Light’ é um filme muito intenso apesar de um ritmo deliberadamente lento. Os silêncios entre as raras linhas de diálogo são preenchidos com um extraordinário trabalho de som, já que os momentos de violência são retirados, e muitas vezes acontecem longe do olhar de Semetka e dos espectadores. O título ‘Natural Light’, acerta na perfeição, num filme que está encharcado de uma luz lívida e húmida das florestas do leste europeu — embora tenha sido filmado na Letónia — e do chão enlameado, depois da queda de neve; os rostos dos personagens, parecem pintados da lama, ou das cinzas do inferno; os verdes e castanhos escuros da densa floresta, sobrepõem-se às cores dos sujos uniformes dos soldados; e na aldeia mistura-se igualmente com as ruas em terra e com as pobres casas de colmo. Essa obscuridade visual está relacionada com a triste condição humana, desses tempos desumanos, quando no meio do terrível conflito, existiam homens que tentava a todo o custo, manter ainda a sua humanidade e dignidade, mas que também têm de fazer tudo para sobreviverem. Em Natural Light’, podemos encontrar ainda um paralelismo com o mundo de hoje onde as convicções sobre o certo e o errado estão cada vez mais enfraquecidas e desvalorizadas, por outras guerras talvez não tão sangrentas, mas neste sentido eficazes.

VÊ TRAILER DE ‘BALLAD OF WHITE COW’

Em ‘Ballad of White Cow, da dupla iraniana Behtash Sanaeeha e Maryam Moghaddam, regressamos a Teerão para abordar as questões da pena de morte e do papel da mulher nessa sociedade islâmica. A vida da doce Mina (a actriz-realizadora Maryam Moghaddam), fica virada ao contrário, quando é informada pelas autoridades judiciais que seu marido Babak — e não bastou a perda — era afinal inocente num crime, pelo qual acabou por ser executado. As autoridades pedem-lhe desculpas pelo erro e oferecem-lhe a perspectiva de uma razoável indemnização. Viúva e operária numa fábrica de lacticínios e com poucos recursos, Mina inicia uma dura e silenciosa batalha contra um sistema cínico, para o seu próprio bem da sua pequena filha surda-muda, que passa primeiro pelo cunhado e família do marido e pelo próprio Estado, que demora a resolver a situação. Quando as coisas se complicam e vê-se mesmo obrigada a abandonar a casa onde vivia, um estranho chamado Reza (Alireza Sanifar) bate-lhe à sua porta, dizendo que veio para pagar uma dívida que tinha com Babak. Reza protege Mina, mas pouco a pouco vai entrando mais na sua vida, sem que esta saiba do segredo que os liga um ao outro. ‘Ballad of White Cow’, é um magistral ensaio sobre a culpa e a expiação, temas recorrentes dos filmes iranianos, que continua apesar dessa insistência, a proporcionar-nos um excelente cinema de pequenos e precisos gestos e espaços. A actriz e também realizadora Maryam Moghaddam destaca-se obviamente no papel de uma Mina presa entre a solidão e sua luta pela independência, e igualmente o seu parceiro Alireza Sanifar, que veste a pele de um personagem de alma, consumida pela culpa.

VÊ TRAILER DE ‘WHEEL OF FORTUNE AND FANTASY’

Wheel of Fortune and Fantasy, de Ryusuke Hamaguchi, segue mais ou menos o conceito do resto da obra do realizador japonês ou pelo menos dos seus dois filmes antetiores: ‘Happy Hour: Hora Feliz’ (2015) e ‘Asako I e II’ (2018): a duplicação, o espelhamento de personagens femininos e incertezas em relação ao amor. Relativamente aos seu trabalhos anteriores e numa analogia literária este novo ‘Wheel of Fortune and Fantasy’, poder ser considerado como uma colectânea de três contos e o ritmo recorrente do filme amplifica esse efeito, mesmo não havendo nenhuma ligação entre as histórias e personagens. Os três episódios ou contos, são cada um deles em torno de uma mulher e por sua vez são divididos em três movimentos, como se fossem uma peça musical para piano e ao som deste. O primeiro é a história de um triângulo amoroso inesperado, entre três jovens; o segundo uma armadilha de sedução fracassada entre uma aluna e um professor de literatura e também escritor de sucesso;  e o terceiro, um encontro entre duas mulheres, que resulta de um mal-entendido e que acabam por ter algo a dizer uma à outra. A fragmentação da histórias parece servir mesmo para enfatizar esta narrativa primorosamente orgânica e a mise-en-scène, simples e eficaz e com poucas personagens em cena.  A maior parte da(s) ação(ões) decorre um único espaço (interior, exterior ou num táxi) e envolva apenas dois ou três atores, mas nunca ficamos com a sensação de que estamos a ver teatro-filmado. O segredo está não só na escrita do argumento, mas também na noção de uma temporalidade mais complexa, pois cada episódio flerta com o futuro, com a ficção científica, com uma Tóquio futurista e asséptica, com um tal vírus informático, que provoca o caos e também afecta os sentimentos. As cenas que presenciamos ‘Wheel of Fortune and Fantasy’, cristalizam destinos universais, são comuns e marcadas por escolhas, arrependimentos, decepções e coincidências de nós próprios ou de gente ou histórias que conhecemos.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *