"French Exit" | © Sony Pictures Classics

French Exit, em análise | Made in USA

Michelle Pfeiffer foi nomeada para o Globo de Ouro pelo seu trabalho em French Exit”, uma bizarra comédia com realização de Azazel Jacobs e argumento escrito por Patrick deWitt.

O privilégio tem a capacidade de retorcer e distorcer a realidade. Quem vive numa torre de marfim não vê o mesmo mundo que o comum dos mortais. Estão tão altos que a gente normal é-lhes como formigas. Não tanto animais inferiores que devem ser espezinhados, mas seres estranhos que se regem por ordens naturais diferentes. Por conseguinte, o comportamento desses cronicamente endinheirados nem sempre corresponde ao que se espera da gente que vive na nossa sociedade. Trata-se de uma vivência libertadora, mas também insular, solitária, um beijo doce que deixa um sabor amargo na boca.

No mais recente filme de Azazel Jacobs, esta ideia de privilégio enquanto impulso surrealista estende-se tanto às personagens como à câmara. As figuras que vivem a história de “French Exit” são bizarras, mas encaram sua própria estranheza como um facto sem importância. Seguindo o seu exemplo, a subjetividade textual e formal do filme também apresenta situações caricatas com extrema serenidade, uma secura hilariante e um gosto pelo absurdo bem aguçado. Um passeio matinal pelas ruas de Paris é filmado com tanta casualidade como uma sessão espírita protagonizada por uma vela falante.

french exit critica
© Sony Pictures Classics

Antes de continuarmos a revelar mais detalhes insólitos, talvez seja boa ideia descrever a premissa narrativa de “French Exit”. Adaptado de um romance de Patrick deWitt, o filme foca-se nas tribulações de Frances Price, uma viúva rica que vive em Manhattan com seu filho adulto, Malcolm. Um dia, ela descobre que a fortuna do marido está a chegar ao fim e, com medo da penúria, a socialite vende todas as propriedades e atravessa o Atlântico na companhia do progénito. Frances vai viver no apartamento parisiense de uma grande amiga, caridosa o suficiente para ajudar a mulher financeiramente arruinada.

No cruzeiro, o par cruza-se com uma vidente detentora de poderes mágicos. A rapariga, a quem Frances chama de bruxa, dorme com Malcolm e mostra-se capaz de ver quem o gato dos Price realmente é. Acontece que o felino de estimação é a reencarnação do patriarca falecido e é a sua fuga que vai precipitar o clímax do enredo. Quando ele se escapa do apartamento francês, Frances pede ajuda a um detetive, que encontra a bruxa, enquanto uma vizinha intrometida se infiltra no seio familiar. Além deles, também chegam à residência a dona do apartamento, a noiva de Malcolm e seu novo namorado.

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Para um filme tão focado numa ideia de solidão, é fascinante quanta gente se enfia no espaço doméstico de Frances, quase como se a comédia negra se transfigurasse num screwball dos anos 30. É claro que, no estado mental da heroína, até numa sala cheia de pessoas, ela sente-se sozinha. Tal é o fado de quem vive encurralado dentro da própria cabeça, aqueles que são sufocados pela forca da depressão e amordaçados com perda, com luto e tristeza tão grande que não se consegue articular. Em certa medida, o humor invulgar de “French Exit” existe para distrair o espetador do que é óbvio desde o primeiro minuto. Isto não é uma farsa, é uma tragédia.

As pistas estão lá sempre, especialmente na prestação miraculosa de Michelle Pfeiffer no papel de Frances Price. A senhora caminha pelo filme como uma fera ornamentada em Chanel, sua face imperiosa uma visão que estarrece e atrai em igual medida. Não conseguimos desviar o olhar da sua pessoa, mas também não nos queremos aproximar em demasia do seu áspero glamour. Temos medo do que ela nos possa fazer, ou talvez do que ela possa fazer a si mesma se nos intrometermos em demasia na sua esfera pessoal. Como o sol, ela puxa os corpos em redor com magnífica força gravitacional. Como o sol, ela queima.

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© Sony Pictures Classics

Qual estrela de cinema da Velha Hollywood, Pfeiffer magnetiza a tela, mas sua acutilante psicologia pinta sombras profundas na visão luminosa que é Frances. Sua obstinação tresanda a autodestruição, sua confiança tem rachas, sua abrasividade é nada mais que um escudo cheio de mossas. Não existe muito calor nesta caracterização cruel, mas chamar-lhe um desempenho frio também é errado. Há poucos sorrisos mais impactantes que aquele que se esboça no rosto da atriz assim que Frances toma uma fatídica decisão, quando o seu desejo mortal começa a afigurar-se no horizonte. Outros intérpretes escolheriam o caminho do melodrama, mas Pfeiffer opta pela felicidade enigmática e temos de a felicitar pela decisão arriscada.

“French Exit” é um belo poema que canta a maravilha da sua protagonista, mas isso não significa que Michelle Pfeiffer seja o único membro do elenco a merecer elogios. Lucas Hedges quase é um coprotagonista e também segue a abordagem de Pfeiffer na sua negociação de humor seco e expressão saturnina. Danielle Macdonald deleita como a vidente superpoderosa e Tracy Letts tem um cameo de deitar a casa abaixo. No entanto, queremos terminar este texto com particular homenagem a Valerie Mahaffey. Como a vizinha caótica dos Price, a atriz nomeada para um prémio Spirit é um circo em forma de pessoa, nervos que tombam para piada crua, sinceridade que se desmancha em ironia. Ela e Pfeiffer fazem deste filme, um evento obrigatório para todos os que se consideram cinéfilos.

French Exit, em análise
french exist critica

Movie title: French Exit

Date published: 4 de March de 2021

Director(s): Azazel Jacobs

Actor(s): Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Tracy Letts, Valerie Mahaffey, Susan Coyne, Imogen Poots, Danielle Macdonald, Isaach De Bankolé, Daniel di Tomasso

Genre: Comédia, Drama, 2020, 110 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Mesmo que feita em estilo anti naturalista, “French Exit” é uma grande montra para seus atores. Trata-se de uma sobremesa cómica com um travo de arsénico. Imperdível, é tão deliciosa quanto venenosa, tão absurda quanto astuta. Começamos o serão a rir, mas somos capazes de o terminar em lágrimas. Depois não digam que não vos avisámos.

O MELHOR: Pfeiffer e Mahaffey. As duas atrizes merecem muitos prémios pelo seu trabalho. Ambas estão brilhantes.

O PIOR: O equilíbrio tonal é muito complicado e nem sempre funciona. Algumas das desventuras amorosas de Malcolm podiam ter sido cortadas, por exemplo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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