'Mudança'©Teatro do Bairro Alto

71ª Berlinale: Filmes Portugueses de Táxi para o Forum de Berlim

‘No Táxi do Jack’, o novo filme da realizadora Susana Nobre e ‘Mudança’, de Welket Bungué com Joacine Katar Moreira, são mais dois filmes portugueses com estreia mundial, nas secções Forum e Forum Expanded, da 71ª Berlinale, para já de 1 a 5 de Março. Estas secções são dedicadas às obras mais  experimentais e de vanguarda do festival.

A realizadora portuguesa Susana Nobre (n. 1974) vai estrear na 71ª Berlinale a sua nova longa-metragem: No Táxi do Jack’.  O filme conta a parte da vida do Sr. Joaquim Calçada, de 63 anos e que está a poucos meses de se reformar. No entanto, o ex-operário fabril e ex-emigrante nos EUA, vê-se obrigado a cumprir as regras do centro de emprego público, para poder usufruir do subsídio mensal. Apesar de saber que não voltará mais à vida activa, Joaquim tem de andar de empresa em empresa a pedir carimbos, para atestar que anda à procura de trabalho. É uma norma absurda em muitos casos, mas tem de ser cumprida. Nestas, suas deslocações e no seu dia-a-dia, ele recorda a sua vida de emigrante na América, onde trabalhou como taxista e motorista de limusine, em Nova Iorque, e onde assistiu às diversas quedas da bolsa e de correctores de Wall Street. 

VÊ TRALER DE ‘O TÁXI DO JACK’

Este novo filme de Susana Nobre, vem na linha dos seus dois anteriores ‘Vida Activa’ (2013) e ‘Provas, exorcismo’ (2015). Entre, 2007 a 2011 a realizadora trabalhou como Profissional de Reconhecimento e Validação de Competências, num processo de educação de adultos que estava a ser posto em prática no Programa Novas Oportunidades: ‘este programa tinha tido um forte impacto social devido ao baixo grau de escolaridade da população portuguesa — chegou a ter ‘um milhão de inscritos’ — era  uma bandeira do Partido Socialista, que estava então no poder’, diz a realizadora. Foi neste contexto de aproveitar uma oportunidade de trabalho e investigação para fazer um novo filme, que Susana Nobre, foi colocada num centro Novas Oportunidades, em Vila Franca de Xira, a cidade situada a 30 km de Lisboa, que foi, no tempo da ditadura, o fim do troço da auto-estrada Lisboa-Porto. Toda esta zona ribatejana, que compreende Alverca, Alhandra e todo um eixo que acompanha as margens do Tejo até Lisboa e ainda para norte, foi em tempos uma zona fortemente industrializada. A paisagem é muito particular, onde coexistem as lezírias do Tejo, as linhas de caminhos de ferro, a base aérea de Alverca — perto da OGMA-Oficinas Gerais de Material Aéreo, onde trabalhou o Sr. Joaquim —, uma construção desordenada e ainda várias fábricas, que caminham rapidamente para um processo de ‘desindustrialização’ e liberalização de mão-de-obra operária,— logo para o desemprego — iniciado nos anos 80 e que se acentuou, com a crise de 2012: ‘A partir da minha secretária fui assistindo ao desfilar de dezenas de trabalhadores que ficaram sem os seus trabalhos neste período. Foi nesta altura que conheci o Joaquim’.

No Táxi do Jack
© Terratreme ‘No Táxi do Jack’

Durante as entrevistas e sessões que fazia, Susana Nobre, ouviu  centenas de pessoas que falavam sobre o seu percurso e sobre as suas condições de vida, a maioria bastante duras, mas de uma extrema diversidade e sinceridade: ‘se por vezes ‘essa escuta, era desgastante, por outro lado, era fortemente absorvente’. E durante cinco anos, a realizadora filmou estas pessoas, conseguindo muito material, que resultou nos seus filmes anteriores — pelo meio fez ainda ‘Tempo Comum’ (2018), que não tem a ver com este tema — e dando ‘corpo às histórias’ que foi ouvindo — como o processo de insolvência de uma fábrica, de  ‘Provas, exorcismo’e às impressões que fui anotando ao longo deste período’. Numa combinação de estilos e contaminação entre o documentário e a ficção ou situações criadas, nasceu ‘No Táxi do Jack’, que é também um filme que dá uma óbvia continuidade aos seus ensaios anteriores, sobre o mundo do trabalho operário e da precariedade: ‘uma viagem, sobre a história da laboração de um povo, as suas crenças e desilusões’.

71ª Berlinale
©Terratreme ‘No Táxi do Jack’

Em ‘No Táxi do Jack’, o Joaquim Calçada, o seu verdadeiro nome português, começa por nos contar, ele próprio as suas histórias e memórias e depois, através de um táxi Mercedes, que vai simulando circular, pelas ruas e luzes de uma Nova Iorque, reconstituída em estúdio, pela equipa de filmagens. Esta viagem imaginária e fantástica de um Jack, ao seu passado nova-iorquino, mistura-se com fragmentos da história recente de Portugal e de personagens que giram à volta de Joaquim: a actual mulher, Maria e Rato, o seu amigo incapacitado e cego. Joaquim, já perto da reforma, com muitos anos de trabalho na OGMA, vê-se confrontado com uma crise económica, que obrigou a empresa a uma reestruturação e, sucessivamente, aos despedimentos. Joaquim apesar de tudo, não está tão mal assim de vida — tem a casinha construída pelos pais — mas navega no seu próprio atlas da memória, desde a América da emigração onde viveu e trouxe umas parcas economias, de um Portugal empobrecido pelos anos de ditadura, que o obrigou a imigrar e pelas sucessivas crises económicas que o País tem enfrentado ao longo do século XX. ‘No Táxi do Jack’, é  um road-movie fechado em circulo, realizado nos subúrbios pós-industriais, que em vez de levar o seu personagem principal pela estrada fora e parando de vez em quando, andas às voltas numa rotunda de pequenos lugares, onde gira agora a vida, apesar de tudo, animada graças ao temperamento optimista de Jack. Um filme que é uma espécie de ficção-documental, com particular incidência para a extraordinária cumplicidade que Joaquim Calçada estabelece com a câmera — como já estivesse habituado, há muito tempo a representar. Uma palavra também, para a excelente e apropriada banda-sonora ao tempo passado e presente, que se adequa perfeitamente com a figura do protagonista — tem um certo ar de bom malandro, antiquado e ao estilo Elvis Presley — bem como da belíssima fotografia, que parece a dos filmes americanos da década de 70.  Vai ser uma surpresa na 71ª Berlinale, embora não esteja numa secção competitiva, e portanto estará fora dos prémios oficiais. 

Mudança
Mudança ©Teatro do Bairro Alto

A MUDANÇA DA JOACINE

Marcado também por uma estética experimental e de vanguarda, é o filme ‘Mudança’, que vai estrear no Forum Expanded, da 71ª Berlinale, uma enorme ‘galeria de arte cinemática’, onde se reunem projectos radicais de natureza filmíca ou que melhor combinam o cinema, com as artes visuais e do espectáculo. E neste caso, ‘Mudança’ é um extraordinário filme-dança, com valores feministas, do actor-realizador luso-guineense Welket Bungué (‘Berlin Alexanderplatz’, 2020), que traz como protagonista a deputada independente Joacine Katar Moreira, a declamar, sem gaguejar, num exercício de oratória poética de cerca de 26 minutos. Bungué, antes deste trabalho não conhecia a deputada, também de origem guineense, Joacine Katar Moreira, e acabou fascinado por ela, pela sua inteligência, capacidade para contornar a sua gaguez, facilidade em dirigi-la e sobretudo, não sendo uma actriz profissional, possuir uma grande intimidade com a câmera: é filmada em grandes planos, na maquilhagem e deslizando suavemente sobre o palco.

VÊ TRAILER DE ‘MUDANÇA’

A maior parte do filme foi parcialmente rodado no Teatro do Bairro Alto (Antigo Teatro da Cornucópia), e foi um desafio lançado pelo seu actual diretor artístico Francisco Frazão, enquadrado no programa ‘Essenciais’, que tem como objectivo, ‘gerar vida, discurso, compreensão e celebrar a humanidade’. Neste filme, Joacine declama com um empolgada inspiração textos de poesia-prosa, do livro ‘Cabaró, Djito, Tem!’ (1996), escritos pelo pai do realizador, Paulo T. Bungué. ‘Mudança’ é precisamente um manifesto, um alerta às sociedades em geral, quanto aos problemas de inclusão social e racismo, através de discurso feminino — a que Joacine se adequa na perfeição — e claramente uma ode, contra o legado colonialistas e fascistas. O filme aborda em concreto ainda as questões de género, das estruturas de poder, do machismo na sociedade contemporânea, da sustentabilidade do planeta, esta com um referência precisa ao povo bijagó, — do arquipélago Bijagó, na Guiné Bissau —, sobretudo da sua ecológica e exemplar relação com o seu ambiente.

71ª Berlinale
Mudança ©71ª Berlinale

Porém, Joacine Katar Moreira não será a única em palco ou melhor na tela da 71ª Berlinale. O filme, vive igualmente e por isso é um video-dança, da relação entre a palavra e o movimento dos corpos de outros intérpretes: primeiro o do próprio Bungué num bailado em forma de close-up e depois com outros participantes como Alesa Herero, Lulu Santy; e ainda a colaboração de Lafayette e Katia Vicente. O espaço cénico, combina essa atmosfera e a sensação dos ecossistemas do arquipélago dos Bijagó, com a floresta amazónica, criado através de imagens digitais ou melhor das pinturas do artista plástico Nú Barreto — que são projectadas sobre os performers — e com a música de Mû Mbana. ‘Mudança’ é um filme que em Berlim, mesmo numa projecção online, vai provocar diálogo, interrogação e discussão, aliás como sempre acontece na militante Berlinale. Como já é do conhecimento geral as muito aguardadas estreias na 71ª Berlinale, o maior festival e mercado europeu do inicio da temporada, serão realizadas através de streaming para a indústria e imprensa entre 1 e 5 de Março (de segunda a sexta), próximos e depois num Summer Festival, aos berlinenses, em julho, já  esperemos, presencial e nas salas de cinema.

JVM

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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