Mike (Roman Bilyk) e sua linda esposa Natasha (Irina Starshenbaum).

71º Festival de Cannes (2): A Música e a Liberdade

O realizador Kirill Serebrennikov ficou em prisão domiciliária na Rússia, mas o seu filme “Leto” (“Verão”) é uma obra que mostra bem como os movimentos de ‘rock soviético’, confundiam a censura, e ajudaram a abrir as portas da liberdade na URSS, dos anos 80.

O talentoso cineasta (e director teatral) russo Kirill Serebrennikov em “Leto” mergulhou numa bela história de ternura e de euforia musical, para contar a preto e branco — num culto subtil à nouvelle vague e ao Maio de 68 —  as peripécias da cena musical da Leninegrado dos anos 80, do tempo de Brejnev, e do aproximar da Perestroika.

O filme passa-se em Leningrado, num verão do início dos anos 80. Os LP’s de Lou Reed, David Bowie, Bob Dylan, Velvet Underground espalham-se por todos os lados, e a cena do rock começa a ferver no Leningrad Rock Club, abrindo as portas para a Perestroika. Um dos mais populares guitarristas e vocalista Mike (Roman Bilyk) e sua linda esposa Natasha (Irina Starshenbaum) cruzam-se com o jovem Viktor Tsoï (Teo Yoo), que se vai tornar numa estrela emergente da cena musical, numa história de amor sobretudo à música e à liberdade. Todos juntos e com seus amigos, vão mudar o destino do rock’n’roll na URSS.

"Leto"
A cena musical do ‘rock soviético’ dos anos 80 é retratada de um forma alegre e juvenil.

São personagens, estilos e músicas da época, tudo combinado com numerosos detalhes de ficção e da curta vida real do influente cantor e compositor soviético Viktor Tsoï, que faleceu tragicamente num acidente de viação aos 29 anos. Kirill Serebrennikov evita alegremente a estrutura convencional de um biopic, mas também parece não ser esse o objectivo do filme. A cena musical dos anos 80 é efectivamente a estrela de “Leto”, e Serebrennikov está mais preocupado que o espectador a conheça na sua amplitude como uma porta que se abriu para o mundo da música, para lá do Muro e como um manifesto em favor da liberdade artística e política.

É preciso dizer que “Leto”, está na Croisette à revelia, pois a cadeira de Kirill Serebrennikov na conferência de imprensa do filme ficou vazia, já que ele está em prisão domiciliária na Rússia, desde o ano passado, acusado de corrupção – dizem que utilizou o dinheiro do Estado que financiava o seu projecto teatral, para fazer este filme —, mas  os seus pares afirmam que foi um pretexto, para o calar das suas contestações políticas. Embora o filme não seja abertamente político é sem dúvida uma subtil e ácida declaração de livre expressão artística e individual, que claramente tem sido muitas vezes posta em causa pelo regime na Rússia da actualidade.

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O filme começa muito bem com estimulantes sequências de fãs que entram pela janela, invadindo os bastidores do Leningrad Rock Club para acompanhar os vários músicos em concerto. Na plateia de um dos poucos espaços públicos permitidos pelo regime para os músicos de rock, o público é instruído a sentar-se educadamente e a ouvir em vez de cantar e dançar. Um dos múltiplos mergulhos nesta extravagante fantasia hedonista e roqueira é a utilização de Skeptic (Alexander Kuznetsov), um narrador ocasional e o nosso guia entre as diversas personagens, guitarras, e festas de um grupo de amigos.

Serebrennikov, que trabalhou com os co-argumentistas Michael Idov e Lily Idova, vai pouco a pouco identificando as principais figuras dessa massa vibrante e agitada de jovens vanguardistas. Primeiro centra-se em Mike (Roman Bilyk), o vocalista de uma das bandas mais populares do Club, e sua doce mulher Natacha (Irina Starshenbaum), cujo o relacionamento monogâmico representa — aliás como os outros em torno deles notam com alegria e desaforo —, como que uma inversão do comportamento das estrelas do rock. No entanto, à medida que conhecemos Mike e os seus amigos vamos compreendê-los; e “Leto” vai alternando sem parar entre as farras e piqueniques ensolarados na praia com sessões de improviso à guitarra e como o título num “verão”, da década de 80; mas de facto o filme está claramente à espera de outra estrela, que chega subtilmente com Viktor (Teo Yoo), um jovem sossegado e tímido, que parece vir de outro mundo, e com um talento natural para a música sobretudo de expressão lírica.

Leto
Mike (Roman Bilyk) e sua linda esposa Natasha (Irina Starshenbaum).

Natacha, é a primeira a notar uma espécie de magia melancólica em Viktor, à medida que o filme re-orienta-se gradualmente para este, em vez de seguir a já afirmada carreira de Mike. No entanto, o filme nunca segue em cima e de perto a carreira de Viktor Tsoï, mas antes move-se nos ritmos febris e irregulares de todo o grupo que gira à sua volta e dos outros dois personagens Mike e Natacha. Por vezes concentra-se figuras periféricas na história, mas volta sobretudo ao grupo no geral.

Os números musicais do filme, alternam entre performances teatralizadas e súbitas fantasias da estética do videoclipe dos tempos áureos da MTV, isto é com imagens realistas que de repente são interrompidas pelos desenhos e lettrings animados. “Leto” é no entanto mais tocante, nos seus interlúdios mais simples e despojados, e muito à custa dos desempenhos muito equilibrados de Roman Bilyk e Irina Starshenbaum.  Contudo, o sóbrio magnetismo asiático de Teo Yoo, em Viktor é notável e o bastante para levar os espectadores perceberem aquilo que e representou para o rock na URSS e a explicação para seu duradouro e adorado culto.

A maioria das belas melodias e composições musicais são originais e da autoria de Vladislav Opeliants e feitas para o filme de Serebrennikov, no entanto a banda sonora de “Leto” inclui ainda músicas de David Bowie e T-Rex, aliás as grandes influências dos dois jovens músicos retratados no filme. O experimentalismo de Serebrennikov e de “Leto” honram sem dúvida o espírito de Viktor Tsoï, e a desconhecida — pelo menos para nós ocidentais — cena do rock russo dos anos 80.

José Vieira Mendes (em Cannes)

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