©Lluis Tudela/72ª Berlinale

72ª Berlinale (Dia 6) | Alcarràs de Carla Simón

Baseado na sua própria experiência pessoal, ‘Alcarràs’, a segunda longa-metragem da cineasta catalã Carla Simón, é um extraordinário mosaico sobre o mundo rural, a família, as tradições e futuro das sociedades. Mais uma pequena pérola prestes a fechar esta competição da 72ª Berlinale.

Em ‘Alcarràs’, de Carla Simón, tudo começa a ver-mos como o avô, o patriarca, anda cada vez mais calado e ninguém na grande família Solé sabe qual a razão. Como em todos os verões, esta família reúne-se em Alcarràs, uma pequena cidade rural do interior da Catalunha, onde têm um grande pomar de pessegueiros. Há oitenta anos que a família Solé cultiva essa terra, mas desta vez parece que vão fazer a última colheita: os novos proprietários ou melhor os herdeiros do proprietário que faleceu, planeiam reaver as terras arrendadas e substituir os pessegueiros, por painéis solares. O sustento de parte da família Solé está obviamente ameaçado por este despejo. O que leva também à discórdia entre eles, que enfrentam obviamente um futuro incerto. É mais do que o seu pomar que está em jogo. Tal como na sua estreia nas longas-metragens com o filme ‘Verão 1993’ (Grande Prémio do Júri da secção Generation Kplus da Berlinale 2017 e estreado em Portugal), a espanhola de origem catalã Carla Simón, encontra-se novamente no tema na vida rural da Catalunha: A família da minha mãe mora lá. Depois da estreia de ‘Verão 1993′,  a realizadora diz que recebeu muitas propostas, para dirigir argumentos escritos por outros: No entanto, tentei ser honesta, comigo mesma e percebi que o que me motiva – o que realmente me apaixona – é minha família e as suas histórias. Então pareceu-me natural continuar no mesmo terreno. Porém, a história que filmei é bem diferente da minha família. Acontece com todos os processos criativos, explica Simón para justificar a sua abordagem. Esta região, que fica perto de Lleida (ou Lérida em português) é caracterizada por estações do ano distintas e um clima mutável — aliás um território muito parecido com o centro-sul de Portugal — e que a realizadora conhece bem: Esta é uma história sobre o sentimento de pertença a uma terra, a um lugar, mas também é um drama sobre os eternos conflitos geracionais, mas também da necessidade de ultrapassar algumas das tradições antigas e a importância da unidade familiar, em tempos de crise.

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Efectivamente as preocupações económicas exacerbam a dinâmica familiar: os mais jovens desta família Solé vivem o momento, enquanto o pai (e filho mais velho), que trabalha e vive na terra com a mulher e quatro filhos, teimosamente fecha os olhos para o futuro imediato; o avô insiste em confiar numa promessa há muito esquecida de reivindicar a casa e o terreno. As diferentes atitudes dos membros da família são incorporadas por um conjunto de interpretações tão naturais e incríveis, que parece que estamos perante uma família de verdade e que não são na realidade actores. O elenco deste filme coral é composto por atores não profissionais da zona de Lleida e trabalhadores da terra, constituído após um longo processo de seleção que durou mais de um ano, pois teve que ser interrompido e repetido devido ao início da pandemia. Os personagens principais incluem intérpretes com Jordi Pujol Dolcet, Anna Otín, Xenia Roset, Albert Bosch, Ainet Jounou, Josep Abad, Montse Oró, Carles Cabós e Berta Pipó, nomes que não dizem grande coisa, nem aos espectadores catalães. A verdade é que quando vemos o filmes e a desenvoltura até das crianças, acreditamos mesmo que eles formam uma família normal, como tantas outras. Além disso sutilmente ‘Alcarràs’ aproxima-nos de temas politicamente tão relevantes, como o futuro dos pequenos e médios agricultores na Europa e o negócio das energias alternativas como os painéis solares e as alterações que provocam na paisagem. Se a tradição é a única coisa com a qual todos os membros da família concordam, isso também não é um bom presságio para o futuro que aí vem, que é um pouco ameaçador, para a estabilidade familiar e pessoal de cada um. Dependendo da sua idade e sexo, cada membro da família aborda a situação que lhes é colocada do despejo, de maneira diferente, desde as brigas às birras dos adolescentes. E aí está o grande fascínio deste filme simples, despretensioso e muito eficaz na sua mensagem humana e actual. Quando aprofundamos pouco mais a história desta família, vamo-nos apercebendo que ‘Alcarrás’ ajuda-nos igualmente a a reflectir também sobre temas como as contradições entre a agricultura no século 21 e as questões ambientais, as relações familiares em tempos de crise, o conflito entre tradição e as rápidas mudanças das nossas sociedades. Um brinco!

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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