The King | © Netflix

76º Festival de Veneza | Chalamet, The King

Timothée Chalamet é o protagonista do ‘The King’, um drama histórico do australiano David Michôd inspirado em Shakespeare, apresentado fora de concurso. Na competição foi a vez do filme de animação ‘nº 7 Cherry Lane’, de Yofan.

Depois de terem colaborado em ‘O Reino Animal’ e ‘The Rover – A Caçada’, os australianos David Michôd (realizador) e Joel Edgerton (actor/argumentista) juntaram-se para fazer este ‘The King’, e o ambicioso desafio de fazerem o guião deste filme a partir dois dos mais famosos dramas históricos, de William Shakespeare. Kenneth Branagh, já tinha pegado em ‘Henrique V’, para realizar e interpretar o seu próprio filme em 1989.  Este ‘The King’, mais um filme da Netflix — produzido pela Plano B, a empresa de produção de Brad Pitt — que está extra-competição, mas tinha a Sala Darsena cheia, foi livremente inspirado na trama das peças de Shakespeare: ‘Henrique IV’ e ‘Henrique V’. O filme dirigido por David Michôd e com Edgerton como actor embora secundário, recria a ascensão atormentada de Hal (Timothée Chalamet) que, depois de se ter negado a viver durante uns anos a vida na corte de Inglaterra, é proclamado como rei Henrique V, após a morte do seu pai. Forçado pelas circunstâncias, o jovem Hal vai ter de assumir o pesado fardo de governar o reino, dando conta rapidamente das intrigas na corte, armadilhas políticas que o levam a uma guerra desnecessária com a França e a carregar com todo o difícil legado deixado pelo seu pai e antecessor.

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TRAILER DE ‘THE KING’

‘The King’ é muito bem filmado, em localizações no Reino Unido e na Hungria e, possui — não deve ser por acaso — uma estética muito semelhante à série ‘A Guerra dos Tronos’. A primeira parte do filme é um pouco teatral e lenta, mas o ritmo da intriga ganha ascendente sobretudo com a cena da batalha na lama, que culmina no conflito com a França.

The King
‘The King’ foi livremente inspirado nas peças de Shakespeare: ‘Henrique IV’ e ‘Henrique V’. | © Netflix

O elenco ‘The King’ é notável, pois ao lado de Timothée Chalamet (lançado por Luca Guadagnino em ‘Chama-me Pelo Teu Nome’), encontramos Joel Edgerton (Uma História de Amor), Robert Pattinson, Ben Mendelsohn, Lily-Rose Depp — a filha de Johnny, que também anda por aqui por causa do filme ‘Waiting For the Barbarians’, de Ciro Guerra, que vamos ver daqui a dias —, Sean Harris, Tom Glynn-Carney e Thomasin McKenzie. ‘The King’ é um drama histórico bem realizado que vai obviamente, quanto mais não seja pelo elenco, fazer uma boa carreira nas salas.

‘nº 7 Cherry Lane’
Este filme é uma declaração de amor ao cinema e a Hong-Kong. | © Far Sun Film Company Ltd.

O filme ‘No.7 Cherry Lane’, do chinês Yonfan, é uma lindíssima história com um triângulo amoroso, feita em animação e por um conjunto de 60 desenhadores, quase todos vindos dos estúdios do oriente. Concebido primeiro em 3D e depois desenhada em 2D, a história de ‘No.7 Cherry Lane’ passa-se em Hong Kong em 1967. Enquanto as revoltas políticas, contra a administração britânica inflamam a sociedade, um jovem estudante universitário e exímio tenista inicia um relacionamento com Yu, uma mãe solteira exilada de Taiwan durante o período do Terror Branco, — a supressão de dissidentes políticos e Lei Marcial, entre 1947 a 1987 — e a sua filha Meiling, uma bela e decidida adolescente de dezoito anos. ‘No.7 Cherry Lane’ é um filme muito oportuno pois coincide com os actuais acontecimentos em Hong-Kong, mas é mais uma fantasia sobre o ontem, hoje e amanhã da grande metrópole oriental. Porém, não é apenas a história de um triângulo amoroso atormentado, mas uma bela celebração da paixão pelo cinema, pela música, pela moda e sobretudo, pela cidade de Hong-Kong atravessada desde então por profundas mudanças, políticas sociais e urbanísticas: os aviões passam muito baixos sobre os prédios, quando estava operacional o velho aeroporto de Kowloon. Como todas as histórias de amor desesperadas, esta é também cheia de contradições, altos e baixos, vícios e virtudes. O enredo é um pouco ortodoxo, mas acaba por se tornar num clássico de sentimentos divididos entre o espiritual e o físico, o dever e a vontade. Sendo o único filme de animação nesta Veneza 76, esta lindíssima trama sentimental, funde-se em milhares de belas imagens desenhadas à mão, em estilo pop bem combinadas com uma excelente banda-sonora, que enche o filme inteiro.

JVM em Veneza

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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