Madres Paralelas/© 78ª Festival de Veneza

78º Festival de Veneza | Maternal Doçura

Depois de ‘A Voz Humana’, Pedro Almodóvar regressou ao Lido, para abrir a competição de Veneza 78, com a longa-metragem ‘Madres Paralelas’, protagonizado por Penélope Cruz e em mais um drama no feminino sobre duas mulheres com forte instinto maternal. 

Pedro Almodóvar começou a desenvolver Madres Paralelas já há vários anos e na linhas dos seus filmes anteriores melhor num regresso ao universo feminino, à maternidade e às questões de família. Os dias do segundo confinamento do inverno passado, transformaram-se em meses, mas o cineasta teve finalmente tempo para terminar o seu argumento e começar a pensar ‘Madres Paralelas’, já certamente com o objectivo de estar aqui em setembro de 2021. Recorde-se que esteve no último Festival de Cannes como inesperado convidado, para entregar em mãos a Palma de Ouro de Carreira a Jodi Foster, quem sabe a putativa protagonista da sua próxima produção em inglês? Mas voltando a ‘Madres Paralelas’, começou a filmá-lo no final de março em Madrid e arredores, utilizando máscaras e equipamentos de proteção, — porém a era Covid nunca está presente no filme — como já tinha ensaiado na sua produção anterior: a curta-metragem A Voz Humana, protagonizada por Tilda Swinton, o seu primeiro filme em inglês e uma das primeiras produções espanholas realizadas (e também a recrutar actores estrangeiros) depois que as restrições afrouxaram um pouco no verão passado; e que possibilitou que fosse uma estreia absoluta no Lido de Veneza.

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‘Madres Paralelas’ é um filme que gira em torno de um trio de mulheres-mães — interpretadas por Penélope Cruz, Aitana Sánchez-Gijón e a jovem modelo-actriz Milena Smit — que expande o tema e as interpretações anteriores da feminilidade de Almodóvar, em filmes como por exemplo, Tudo Sobre a Minha Mãe, ‘Volver’ ou Dor e Glória. Ou melhor o tema de quase todos os filmes de Almodóvar. ‘Madres Paralelas’ foca-se agora no tema das mães, mais ou menos perfeitas, (sendo que não existem maternidades imperfeitas, tirando os cruéis casos de abandono ou violência???) ou melhor numa história sobre mães que agem de uma forma diferente, daquilo que a sociedade espera delas. Na verdade, no filme Almodóvar os pais além de ausentes, são bem mais imperfeitos, do que as mães e acabam por ter uma influência directa na narrativa. Duas mulheres, Janis (Penélope Cruz), como Janis Joplin, e a memória da cantora explica muito da vida da personagem, uma fotografa de moda; e Ana (Milena Smit) uma miúda que quase parece um modelo de pureza e inocência, mas que está grávida e não sabem quem é o pai. Elas dividem o quarto de hospital, e estão quase a dar à luz. São duas mães-solteiras, ambas com uma gravidez inesperada. Janis, já de meia-idade ou melhor nos limites do período fértil, não se arrepende e nas horas que antecedem o parto, exulta de alegria e vontade de ter a criança. Já Ana é uma adolescente, arrependida, traumatizada e sobretudo apavorada. Janis tenta animá-la e enquanto esperam pela sua hora, caminham pelas enfermarias do hospital, quase como duas sonâmbulas, até que aparece Teresa (Aitana Sánchez Gijón), a mãe da mais nova e actriz de teatro, com ambições. Das poucas palavras que trocam entre si, principalmente Janis e Ana, nessas poucas horas, vão criar um vínculo muito forte, que vai ser difícil de quebrar. O destino prega-lhes uma partida, que complicará dramaticamente a vida de ambas.

Madres Paralelas
Madres Paralelas/© 78ª Festival de Veneza

Esse escasso relacionamento vai evoluir à medida que as duas se afastam, depois dos respectivos partos e se voltam a reencontrar, para decidirem viver juntas numa relação de dependência. É certo que o ponto partida da história de Almodóvar é muito interessante e assenta em vários casos conhecidos de trocas de crianças nas maternidades à nascença. Mas daí para a frente o argumento, torna-se num emaranhado de situações forçadas e demasiado previsíveis, para justificar e fortalecer os laços entre as duas mulheres e num drama que vale essencialmente pelo trabalho inexcedível das duas actrizes principais: Cruz e Smit. As suas personagens, têm passados traumáticos de abandono, a mais nova inclusive de abuso e cyber bullying sexual, mas não chega para nos envolver num drama profundo e coerente, como em outros filmes de Almodóvar. Ao elenco-chave junta-se Israel Elejalde (‘Amador’) no papel de um antropologia forense (e amigo especial de Janis), que se encarregará de fazer um levantamento de uma vala comum um grupo de vítimas dos falangistas, durante a Guerra Civil Espanhola, outro tema que e tratado, mas sempre de uma forma um tanto superficial e leviana. Embora procure lembrar que os jovens na generalidade, representados na personagem de Ana, parecem preocupar-se pouco com as ditaduras e os traumas do passado histórico; e depois o filme conta também com as interpretações de Julieta Serrano, na apressada criada e Rossy de Palma, a patroa e melhor amiga da Janis, personagens paralelas, que praticamente não têm nenhuma influência na narrativa. As duas actrizes, são colaboradoras de longa data de Almodóvar e co-protagonistas de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos.

madres paralelas
©El Deseo

A produtora El Deseo, de Agustín e Pedro Almodóvar responsável por todos os seus filmes e também por este ‘Madres Paralelas’, apresentou em Veneza o novo cartaz internacional do filme, onde se destacam, de frente, Penélope Cruz abraçando Milena Smit, — algo que está no cerne do filme — que está de costas. Este novo cartaz tem letras pretas sobre um fundo laranja escuro vibrante, com as informações básicas do filme (título, realizador e o elenco artístico). A imagem completa-se com os corpos das atrizes marcados por linhas paralelas em preto, sobre fundo branco, onde as mãos de Penélope Cruz, parecem quase reais. Efectivamente, o design é bastante diferente do primeiro cartaz, da autoria do estilista e designer espanhol Javier Jaén, que gerou polémica quando foi censurado pelo Instagram, por mostrar um mamilo do qual caia uma gota de leite.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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