Dune/©Warner Bros.

78º Festival de Veneza | Os Caçadores de Leões 2021

’Madres Paralelas’, de Pedro Almodóvar, abre a 1 de setembro (quarta) o concurso de 78º Festival de Veneza, que contará ainda, com os últimos filmes de Sorrentino, Campion, Larraín, entre outros. A grande expectativa na competição vai para o novo filme do veterano cineasta norte-americano Paul Schrader.

Ainda à sombra do Festival de Cannes, onde Julia Ducournau ganhou a Palma de Ouro pelO ‘Titane’, o 78º Festival de Veneza vai realizar-se de 1 a 11 de setembro, e trás excelentes estreias, exactamente aquelas que não estiveram (ou não quiseram estar) na Croisette e que preferiram, os bons auspícios da season do Lido: são  os últimos filmes de cineastas como Pedro Almodóvar (que abrirá o concurso com Madres Paralelas, protagonizado por Penélope Cruz), Jane Campion, Paul Schrader, Tsai Ming-liang, Radu Jude ou Denis Villeneuve, este com o tão esperado ‘Dune’, filme que será apresentado fora de competição. Em 2020, Chloé Zhao ganhou o Leão de Ouro com ‘Nomadland-Sobreviver na América’, um filme que meses depois triunfou nos Óscares. Este ano a cineasta sino-americana voltará a Veneza como membro do júri encarregado de decidir os Leões da competição oficial, com Bong Jon-hoo (Parasitas) como presidente e Virginie Efira, Cynthia Erivo, Sarah Gadon, Saverio Costanzo e Alexander Nanau, como restantes jurados.

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AS APOSTAS DOS AMERICANOS

Nos destaques do 78º Festival Internacional de Cinema de Veneza, podemos incluir além de ‘Dune’, de Dennis Villeneuve, o remake do épico de ficção científica — o outro foi assinado por David Lynch em 1984 — ‘Spencer’, de Pablo Larraín, que relata os dias antes da Princesa de Gales anunciar o seu divórcio, protagonizado por Kristen Stewart; e também a presença dos novos filmes de Jane Campion, Ridley Scott e Paul Schrader. Mais um vez intencionalmente ou não o 78º Festival de Veneza procura ofuscar o Festival de Cannes, com esta programação de 2021, que inclui uma excelente combinação de alguns dos maiores filmes americanos de estúdio do ano, como os mais aguardadas e surpreendentes obras do cinema independente e art house mundiais. Alguns dos filmes mais importantes e anunciados do ano 2021, embora fora da competição, escolheram novamente Veneza para sua estreia mundial: a saga de terror de David Gordon Green, ‘Halloween Kills’, protagonizado por Jamie Lee Curtis; ‘The Last Duel’ o drama de histórico de Ridley Scott, com Adam Driver, Matt Damon, Ben Affleck e Jodie Comer; e o muito aguardado musical ‘Last Night in Soho’ de Edgar Wright com Anya Taylor-Joy, sobre a Londres dos anos 60. Contudo, na corrida ao Leão de Ouro de 2021 de Melhor Filme estão alguns pesos pesados que auguram fazer carreira novamente nas salas e nos Óscares como: ‘The Power of the Dog’, de Jane Campion, uma adaptação literária repleta de estrelas, com Kirsten Dunst e Benedict Cumberbatch; ‘Mona Lisa and the Blood Moon’ da especialista em terror Ana Lily Amirpour; a atriz Maggie Gyllenhaal — jurada em Cannes —, estreia-se na realização com ‘The Lost Daughter’, com a britânica Olivia Colman, vencedora de um Oscar, no universo de Elena Ferrante. O cineasta mexicano Michel Franco, cuja ‘Nova Ordem’ ganhou o Leão de Prata de Grande Júri em Veneza, no ano passado, volta à competição com ‘Sundown’, um longa-metragem em inglês com Tim Roth e Charlotte Gainsbourg. O veterano Paul Schrader, outro realizador habitual em Veneza, vai lançar no Lido e competição deste ano, ‘The Card Counter’, com Oscar Isaac, Tiffany Haddish e Willem Dafoe. Mas há mais filmes a assinalar nesta programação como ‘Un autre monde’do francês Stéphane Brizé, o terceiro da trilogia do mundo do trabalho, mais uma vez como o solicitadíssimo Vincent Lindon, ao qual se junta outro francês ‘Illusions perdues’, de Xavier Giannoli; as 3h30 de duração do inclassificável ‘On the Job; the Missing 8’, do filipino Erik Matti ou ‘La caja’do venezuelano Lorenzo Vigas, o realizador de ‘Desde allá’, o filme vencedor do Leão de Ouro 2015 e ainda o filme latino-americano ‘Competencia Oficial’dos argentinos Gastón Duprat & Mariano Cohn, com Penélope Cruz e Antonio Banderas; do leste europeu vem as obras ‘Leave No Traces’, de Jan P. Matuszynski, ‘Captain Volkonogov Escaped’de Natasha Merkulova & Aleksey Chupov e ‘Reflection’, de Valentyn Vasyanovych; e por último ‘L’événement’, da cineasta do Médio Oriente Audrey Diwan, com um filme sobre o aborto juvenil.

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A pandemia trouxe um ligeiro impacto negativo sobretudo no que diz respeito à questão de género, pois há apenas cinco cineastas-mulheres na competição de Veneza 2021, em comparação com as oito do ano passado; mas assistimos a um regresso em força das estrelas e VIPs’, a um reforço das produções apoiadas pelos estúdios de Hollywood, com filmes da Warner Brothers, Universal e Disney na seleção oficial. De facto, Veneza 2021  será novamente usada pela indústria americana, para ver como os espectadores (e a crítica) reagem ao regresso de grandes títulos: a Warner Bros com ’Dune’, a Disney com ‘The Last Duel’, a Universal comHalloween Kill’, a Focus Features/Universal com ‘Last Night in Soho’. Este festival do outono europeu, será novamente a plataforma de lançamento global e potencial, da temporada dos prémios de cinema. O Lido tornou-se de há uns anos para cá, uma espécie de amuleto da sorte para o Óscar de Melhor Filme, mesmo para produções de cinema de autor de origem norte-americana, apoiados pelos grandes estúdios. É o caso já referido de Chloé Zhao e de ‘Nomadland-Sobreviver na América’, vencedores de Veneza em 2020, e que foram Melhor Filme e Melhor Realizadora, nos Óscares deste ano. Mas existem outras histórias  recentes de sucessos em Veneza: Joker, de Todd Phillips (vencedor do Leão de Ouro em 2019) e História de um Casamento de Noah Baumbach, em que a sua entusiástica recepção em Veneza 2019, acabou por o alavancar, para seis nomeações ao Oscar, incluindo Laura Dern, como melhor atriz secundária.

VÊ TRAILER DE ‘È STATA LA MANO DI DIO’

FORZA ITÁLIA

O cinema italiano também regressou em força a Veneza 78, com cinco filmes italianos em competição: ‘América Latina’, dos irmãos Damiano e Fabio d’Innocenzo (‘Fabulace’), ‘Il Buco’, do realizador Michelangelo Frammartino, ‘Freaks Out’, de Gabriele Mainetti e ‘Qui Rido Io’, de Mario Martone; e sobrerudo com ‘È stata la mano di Dio’, o novo filme do italiano Paolo Sorrentino, vencedor de um Oscar (‘A Grande Beleza’), que também terá sua estreia mundial em competição no 78º Festival de Veneza. Trata-se do seu filme até agora mais pessoal, pois diz respeito ao realizador e sua família: um drama da maioridade, que segue um rapaz  que cresce na agitada Nápoles, dos anos 1980, onde a tragédia pessoal e social é contrabalançada pela alegria inesperada, que surge quando a lenda do futebol Diego Maradona se junta à conturbada equipa da cidade. O realizador, voltou à sua cidade natal, Nápoles, para rodar este filme, algo que não fazia desde a sua estreia nas longas-metragens com ‘L’uomo in più’ em 2001. A Netflix lançará ‘È stata la mano di Dio’, em todo o mundo, um filme produzido por Lorenzo Mieli para a The Apartment Pictures, uma empresa da Fremantle. Finalmente, ‘Il Bambino Nascoto’ de Roberto Ando, fechará a 11 de setembro, Veneza 2021, mas já fora da competição. Fora da competição, também haverá muita música com ‘Hallelujah: Leonard Cohen, a Journey, a Song’, da dupla Daniel Geller e Dayna Goldfine, um olhar sobre o falecido músico canadiano, através da sua canção mais famosa; e ‘Deandre#Deandre—Storia di un Impiegato’, de Roberta Lena, sobre o lendário cantor e compositor italiano Fabrizio Cristiano De André. Veneza 78 pisca também o olho às séries de televisão, este ano com 5 episódios de ‘Scenes From a Marriage’, uma minissérie da HBO, dirigida por Hagai Levi com Jessica Chastain e Oscar Issac, numa adaptação moderna do clássico de 1973 de Ingmar Bergman.

VÊ TRAILER DE ‘SCENES FROM A MARRIAGE’

UMA LONGA ORIZZONTI

A secção Orizzonti do 78º Festival de Veneza, abrirá com ‘Land of Dreams’, da dupla iraniana Shirin Neshat e Shoja Azari,  protagonizado por Matt Dillon. Esta secção paralela inclui ainda alguns filmes bastante interessantes: ‘Amira’, do realizador egípcio Mohamed Diab, ‘A Plein Temps’, do francês Eric Gravel e ‘107 Mothers’, do realizador checo Peter Kerekes. O Kosovo estará representado pela primeira vez na Orizzonti com ‘Vera Dreams of the Sea’, da realizadora Kaltrina Krasniqi. O realizador britânico Harry Wootliff vai estrear ‘True Things’, protagonizado por Ruth Wilson e Tom Burke. Entre os recém-chegados a Orizzonti este ano estão Bogdan George Apetri com ‘Miracle’ e Laurynas Bareisa com ‘Pilgrims’. Entre os títulos asiáticos da programação de 2021 da Orizzonti estão ‘White Building’ do realizador cambojano Kavich Neang, ‘Anatomy of Time’, do cineasta tailandês Jakrawal Nilthamrong e um título de animação japonês ‘Inu-Oh’ do realizador Yuasa Masaaki. O fecho da Orizzonti será com o drama ‘Rhino’, do realizador ucraniano Oleg Sentsov, cuja a sua prisão — entretanto já foi libertado — pelo governo russo, mobilizou nos últimos anos, uma célebre causa em toda a indústria cinematográfica europeia. Pela primeira vez, o Orizzonti adicionou uma seção Orizzonti Extra com foco nas ‘novas tendências do cinema mundial’, o que não deixa de ser redundante e reforçando ainda mais esta programação alternativa e experimental. Esta seção apresentará pela primeira vez, um novo Prémio do Público, votado pelos participantes do festival e apoiado por um dos principais patrocinadores do 78º Festival de Veneza: Armani Beauty. Ao contrário de outras seções de Veneza, o Orizzonti Extra apresentará uma ampla gama de filmes ‘sem quaisquer restrições em termos de género, duração ou origem’, desde que tenham pelo menos 60 minutos de duração. As projeções do Orizzonti Extra também contarão com discussões públicas entre realizadores, escritores e actores das produções e o público de Veneza, com curadoria de Chiara Tagliaferri e serão transmitidas online, abrindo a hipótese de muita gente em casa assistir. Além de ‘Land of Dreams’, nos filmes da Orizzonti Extra incluem-se ‘Costa Brava’, de Mounia Akl, ‘Mama I’m Home’ do realizador Vladimir Bitokov e um atraente título de um filme finlandês ‘The Blind Man who did not Want to See Titanic’, do realizador Teemu Nikki.

VÊ TRAILER DE ‘LAND OF DREAMS’

AS MEDIDAS SANITÁRIAS

Veneza, foi no ano passado, o primeiro grande festival internacional de cinema, a realizar um evento presencial desde o início da pandemia do coronavírus e efectivamente as coisas correram muito bem. O festival de 2021, vai acontecer numa altura em que as taxas de infecção estão começando a subir novamente na maior parte da Europa, incluindo a Itália, devido a variante Delta do Covid-19, altamente contagiosa e que se tem espalhado com intensidade. Há cerca de uma mês, o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, aprovou um decreto ordenando o uso dos chamados ‘passes verdes’, do COVID-19 para diversas atividades comercias, incluindo no acesso aos cinemas. As medidas, entraram em vigor a 6 de agosto e mantêm-se: exigem que todos provem que receberam pelo menos uma dose da vacina COVID-19, tomada nos últimos nove meses, que recuperaram do COVID-19 nos últimos seis meses ou tiveram resultado negativo para o coronavírus nas 48 horas anteriores. Quer isto dizer que tal como em Cannes, além da apresentação dos Certificados de Vacinação, estará disponível no Lido um serviço de testagem, que verificará os participantes de 48 em 48 horas. Estes são os filmes que vão concorrer ao Leão de Ouro em Veneza 2021, bem como os títulos que serão exibidos fora de competição e em secções paralelas do festival.

Competição Veneza 78

Madres paralelas, de Pedro Almodóvar [película de inauguración]

Mona Lisa and the Blood Moon, de Ana Lily Amirpour

Un autre monde, de Stéphane Brizé

The Power of the Dog, de Jane Campion

America Latina, de Damiano D’Innocenzo & Fabio D’Innocenzo

L’événement, de Audrey Diwan

Competencia Oficial, de Gastón Duprat & Mariano Cohn

Il buco, de Michelangelo Frammartino

Sundown, de Michel Franco

Illusions perdues, de Xavier Giannoli

The Lost Daughter, de Maggie Gyllenhaal

Spencer, de Pablo Larraín

Freaks Out, de Gabriele Mainetti

Qui rido io, de Mario Martone

On the Job; the Missing 8, de Erik Matti

Leave No Traces, de Jan P. Matuszynski

Captain Volkonogov Escaped, de Natasha Merkulova & Aleksey Chupov

The Card Counter, de Paul Schrader

È stata la mano di Dio, de Paolo Sorrentino

Reflection, de Valentyn Vasyanovych

La caja, de Lorenzo Vigas

Fora de Competição [ficção]

Il bambino nascosto, de Roberto Ando [película de clausura]

Les choses humaines, de Yvan Attal

Ariaferma, de Leonardo di Costanzo

Halloween Kills, de David Gordon Green

La Scoula Cattolica, de Stefano Mordini

Old Henry, de Potsy Ponciroli

The Last Duel, de Ridley Scott

Dune, de Denis Villeneuve

Last Night in Soho, de Edgar Wright

Scenes From a Marriage (Episodios 1-5) de Hagai Levi

Fora de competição [não-ficcão]

Life of Crime 1984-2020, de Jon Alpert

Tranchees, de Loup Bureau

Viaggio nel crepuscolo, de Augusto Contento

Republic of Silence, de Diana el Jeiroudi

Hallelujah: Leonard Cohen, a Journey, a Song, de Daniel Geller and Dayna Goldfine

Deandre#Deandre Storia di un impiegato, de Roberta Lena

Django and Django, de Luca Rea

Ezio Bosso. Le cose che restano, de Giorgio Verdelli

Fora de Competição [curtas-metragens]

Plastic Semiotic, de Radu Jude

The Night, de Tsai Ming-liang

Sad Film, de Vasili (pseudónimo)

Orizzonti

Les promesses, de Thomas Kruithof

Atlantide, de Yuri Ancarani

Miracle, de Bogdan George Apetri

Pilgrims, de Laurynas Bareisa

Il paradiso del pavone, de Laura Bispuri

The Falls, de Chung Mong-hong

El hoyo en la cerca, de Joaquin Del Paso

Amira, de Mohamed Diab

A plein temps, de Eric Gravel

107 Mothers, de Peter Kerekes

Vera Dreams of the Sea, de Kaltrina Krasniqi

White Building, de Kavich Neang

Anatomy of Time, de Jakrawal Nilthamrong

El otro Tom, de Rodrigo Pla & Laura Santullo

El gran movimiento, de Kiro Russo

Once Upon a Time in Calcutta, de Aditya Vikram Sengupta

Rhino, de Oleg Sentsov

True Things, de Harry Wootliff

Inu-Oh, de Yuasa Masaaki

Orizzonti Extra

Land of Dreams, de Sherin Neshat and Shoja Azari

Costa Brava, de Mounia Akl

Mama, I’m Home, de Vladimir Bitokov

Ma nuit, de Antoinette Boulat

La ragazza ha volato, de Wilma Labate

7 prisoners, de Alexandre Moratto

The Blind Man who did not Want to See Titanic, de Teemu Nikki

La macchina delle immagini di Alfredo C., de Roland Sejko

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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