'Que Rido Io'/78º Festival de Veneza ©

78º Festival de Veneza: Teatro no Cinema do Mundo

Fecharam hoje os filmes da competição de Veneza 78, uma mostra que olhou para o ‘teatro do mundo’, sem deixar ninguém indiferente, mesmo sempre de ‘máscara’. Amanhã com a entrega dos Leões, estes irão certamente, certificar uma das melhores e mais equilibradas selecções dos últimos anos.

‘Qui rido io’ de Mario Martone é um filme biográfico dedicado ao comediante napolitano Eduardo Scarpetta, maravilhosamente interpretado por Toni Servillo e ambientado nas Nápoles da belle époque. O cineasta italiano Mario Martone, em ‘Qui rido io’, apresentado na Veneza 78, recriou a  figura e a vida de Eduardo Scarpetta, o comediante napolitano que transformou a comédia em arte e influenciou dramaturgos como De Filippo ou Murolo. Trata-se de um corte transversal na história da comédia e ao mesmo tempo um filme sobre o actor e sobre este importante género do espetáculo italiano realizado pelas mãos de um dos mais ‘teatrais’ — no melhor dos sentidos — realizadores europeus. E que mesmo assim, nunca deixou de nos surpreender com os seus filmes inspirados ou melhor vindos directamente do teatro. Após uma esplêndida releitura do espectáculo teatral de ‘El sindaco del Rione Sanità’, apresentado aqui em Veneza, em 2019, Mario Martone continua a sua investigação pela tradição teatral napolitana com ‘Qui rido io’, onde mais uma vez brilha Toni Servillo interpretando o grande ator e dramaturgo Eduardo Scarpetta. Servillo e Martone trabalham juntos há mais de trinta anos: da experiência em palco com o grupo Falso Movimento e com o Teatri Uniti, para depois se estrearem juntos no cinema com ‘Morte di un mathematico Neapolitan’ (1992) e continuaram por aí fora com ‘Rasoi’, ‘I Vesuviani’, ‘Teatro de Guerra’ e ‘Noi credevi’.

‘Qui rido io’ leva-nos ao início dos anos 1900, à Nápoles da Belle Époque, onde Scarpetta é o rei das bilheterias e dos palcos. De origens humildes, tornou-se num homem muito rico que se afirmou graças às suas comédias e às suas interpretações de uma figura popular chamada Felice Sciosciammocca, que consegue suplantar outra, Pulcinella, no seio do público napolitano. O teatro foi a sua vida, além da sua complexa família, de esposas legítimas, companheiras, amantes, filhos legítimos e ilegítimos, entre eles uma dinastia teatral: Titina, Eduardo e Peppino De Filippo. No auge do seu sucesso, Scarpetta aproveitou para fazer uma paródia a partir da peça ‘A Filha de Iorio’, de Gabriele D’Annunzio, o poeta italiano e dramaturgo mais famoso na alta cultura, da época, em toda a Itália. Na noite de estreia, a comédia Scarpetta é interrompida pelos gritos e assobios de intelectuais da nova geração, que gritam escândalo. Enquanto Scarpetta  dá de frente com uma denúncia por plágio, pelo próprio D’Annunzio. O filme conta isto tudo e muito mais sobre essa figura única, com o momentos divertíssemos de Scarpetta culminando exactamente com o primeiro processo histórico de direitos autorais na Itália. O processo torna-se exaustivo e a vida de Scarpetta parece ir por água abaixo. Porém num golpe de génio e de bons aconselhamentos, o comediante acaba por desafiar o destino e vencer o seu último jogo, com um grande número de ator em pleno tribunal. É um momento do filme, extraordinariamente interpretado por Toni Servillo, que quase diria é o favorito a uma Taça Volpi de Melhor Actor 2021. 

VÊ TRAILER DE ‘REFLECTIONS’

Vidas perturbadas pelo inesperado são as contadas em ‘Reflection’, mais um filme de Veneza 78, agora do ucraniano Valentyn Vasyanovych, sobre um médico, que preso pelos russos sofrerá violência na prisão, algo que o fará mudar a sua visão de mundo. Porém o segundo filme de Vasyanovych tem como ponto essencial na sua trama, algo que parece fugir ao seu contexto de guerra: uma criança em crescimento, filha do médico, questiona o seu pai sobre os tópicos sensíveis da vida e da morte, num momento em que o horror do conflito de Donetsk, na Ucrânia, está no seu auge; e curiosamente é vivido pela população ucraniana, a uma curta distância, como que quase nada se passasse. O conflito na Ucrânia com os russos, por causa da dominação da região oriental de Donbass, começou em 2014 e que ainda continua, é contado mais uma vez por Valentyn Vasyanovych, o realizador que ganhou o Prémio Orizzonti de Melhor Filme com Atlantis (2019), e desta vez chega à competição com ‘Vidblysk’ (‘Reflection’ com título Internacional. Se o longa-metragem anterior nos levava a um futuro sombrio da Ucrânia, contando-nos a história de um ex-soldado que se oferece para recuperar os corpos dos mortos, este novo filme é centrado no médico Serhiy (Roman Lutskiy), preso pelos militares russos. É efectivamente, uma experiência que mudará profundamente este homem, fazendo-o descobrir uma realidade, humilhação, violência e indiferença dos russos em relação à vida de um outro indivíduo da sua actividade profissional. Trata-se de mais uma nova e angustiante parábola do realizador sobre o horror e a violência desumana da guerra com cenas muito perturbadoras. Este ‘Reflection’, investiga também a nossa capacidade de compreender, o que não tem sentido e de ajudar as crianças a tornarem-se adultos e a deixar para trás a sua necessidade de abrigo. O ainda jovem cineasta Valentyn Vasyanovych, colaborou como produtor, editor e diretor de fotografia em ‘The Tribe’, um filme ambientado numa instituição para surdos e com língua gestual. Este ano, no Lido, vai ser apresentado também e como filme encerramento, ‘Horizons with Nosorih’, a biografia do realizador Oleg Sansov, que esteve vários anos preso pela Rússia de Putin, no rescaldo da intervenção armada na Ucrânia, filme que nos traz de volta igualmente à guerra em Donbass.

VÊ TRAILER DE ‘FREAKS OUT’

‘Freaks Out’, do italiano Gabriele Mainetti, é um filme de super-heróis ou melhor de não- heróis, mas de um ‘quarteto fantástico’, que possuem todos super-poderes. Em primeiro lugar é preciso ter coragem para colocar na competição de Veneza 78, uma espécie de filme de super-heróis, que não obedece aos cânones do cinema de autor; e com personagens que não habitam nem Metropolis, nem Gotham City. Mas antes ‘Freaks Out’ insere um conjunto de personagens de circo — do circo que já foi e se volta a tornar o mundo  — muito particulares, no fundo da página mais sombria e negra da História da Europa, do século XX: o nazismo. O filme é ao mesmo tempo uma história de aventuras, um filme de guerra, — faz lembrar às vezes Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino — de um romance de amadurecimento e não menos importante uma reflexão sobre a diversidade e a diferença. Matilde, Cencio, Fulvio e Mario vivem como irmãos no circo de Israel, o Mágico, na Roma ocupada de 1943. São quatro malucos, figuras únicas, protagonistas de uma história maior que eles. Quando Israel, o patrão desaparece misteriosamente, não se sabe se em fuga ou capturado pelos nazis porque é judeu, os quatro ficam sozinhos na cidade ocupada e os ocupantes estão de olho neles. Porém este grupo de ‘aberrações’, tem um plano que vai mudar os seus destinos e o curso da história. O filme com muita emoção e rédea à solta para a imaginação.

78º Festival de Veneza
‘Un Autre Monde’/78º Festival de Veneza©

‘Un Autre Monde’, do francês Stéphane Brizé (A Lei do Mercado) é outro grande filme desta (que aliás fechou) Veneza 78, que nos mostra igualmente o ‘teatro do mundo’, ou melhor do mundo do trabalho, visto agora do ponto de vista das elites empresariais. Este filme, já está garantido e comprado para estrear em breve Portugal, tal como os anteriores de Brizé, quase sempre sobre questões laborais (Em Guerra). ‘Un Autre Monde’ conta a história de um gestor de empresa, da esposa, e da sua família, numa época em que as escolhas e decisões profissionais de alguns,  acabam por perturbar a vida de muitos ou de todos, porque afinal vivemos numa comunidade de troca de valores. Philippe Lemesle  (Vincent Lindon, o actor francês mais requisitado do momento e cúmplice de Brizé na trilogia sobre o trabalho — e sua esposa (Sandrine Kimberlain) estão prestes a separarem-se. O seu amor está irremediavelmente desgastado pelas pressões do trabalho de Philippe. Gestor de um grande grupo industrial, este já não sabe como resistir aos inconsistentes pedidos dos seus superiores, que representam os accionistas, para reduzir os custos operacionais, com consequências para os trabalhadores Antes queriam que fosse gerente eficaz, agora querem-no um executor de downsizing: um processo que acontece quando existe do ponto de vista da gestão, uma redução da força de trabalho de uma empresa. Porém, para Philippe, chegou talvez momento de repensar a vida e livrar-se de tanta pressão. Philippe Lemesle move-se enfim, num ambiente de liderança empresarial, de meritocracia, onde existiam antes várias ‘histórias de sucesso’, de gestores da empresa, que conseguiam conciliar uma cultura de objectivos e responsabilidade social. Contudo, com as sucessivas crises económicas dos últimos anos e algumas profundas alterações nos processos de trabalho e mercado, é cada vez difícil mesmo para os bons gestores resistirem a tanta pressão. Reclamar parece vergonhoso aos olhos dos mais desfavorecidos e por outro lado é uma humilhação e um gesto de fraqueza imperdoável para os colegas e concorrentes. Isto torna-se proibitivo e correm o risco de ser substituídos, por outro gestor mais jovem e dinâmico, disposto a fazer a ‘limpeza’; ou então por quem questione exactamente o que lhe é pedido. Neste mundo empresarial, não se pode mais desfrutar do direito de contestar ordens superiores que têm de ser rapidamente impostas aos trabalhadores ou pontos de vista de gestão mais alternativa e mais justa para os trabalhadores.  É tudo isto que retrata, ‘Un Autre Monde’ que no estilo observacional e quase naturalista de Stéphane Brizé conta essa história de um mundo silenciosamente dividido em dois, de vidas profissionais e pessoais que naufragam de um momento para outro, de um mundo em que homens e mulheres com engravatados e de roupas apertadas lutam pela sua sobrevivência e cada vez mais para encontrarem um sentido para a sua vida profissional e pessoal. Efectivamente é muito difícil sentir dor, quando se está perdido ou quando faz parte da elite elite económica e dos mais favorecidos. Mas está-se sempre a tempo de mudar é este o sentido do filme de Brizé, sempre atento às questões sociais.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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