Titane/Festival de Cannes ©

74º Festival de Cannes (Dia 8): ‘Titanium’ e o Clima

A realizadora francesa Julia Ducournau, em ‘Titane’ revelou o talento da actriz Agathe Rousselle, num filme-pesadelo digno de David Cronenberg. ‘The French Dispacht’, de Wes Anderson é a grande desilusão, num Festival também preocupado com as questões climáticas.

A realizadora de Grave (2017), a francesa Julia Ducournau, abusou violentamente das emoções do espectador em ‘Titane’, um filme insólito, chocante e provocador, apresentado na competição. Após o seu triunfo na Semana da Crítica 2016 (precisamente com ‘Grave’), ela é uma das poucas cineastas do género fantástico, no contexto do cinema francês, que conseguiu esta oportunidade de chegar ao concurso oficial de Cannes, com este tremendo ‘Titane’. Neste filme, junta Vincent Lindon e a estreante e multifacetada Agathe Rousselle (com seu cabelo curto e rosto andrógino, é o rosto de várias marcas de moda alternativas, além de jornalista, fotógrafa, designer, etc.), numa história bizarra sobre a maternidade e a fusão entre humanos e automóveis, que faz lembrar o universo de David Cronemberg. E aliás até bastante, o recém-recuperado ‘Crash’ (1996).

VÊ TRAILER DE ‘TITANE’

‘Titane’ é antes demais, um filme perturbador, violenta, radical, mas também singular, já que conta a história de um improvável encontro, entre uma silenciosa dançarina, assassina em série e um bombeiro envelhecido, que usa esteróides para se manter em forma. Rouselle, na sua dupla identidade, é uma figura estranha, que abusa da noção de género, com mudanças do feminino, para o masculino extremamente rápidas e numa mistura, de gentileza e brutalidade assassina. Contracenando com ela, está Vincent Lindon (em mais uma brilhante e esfíngica interpretação), no papel de um pai inconsolável, após o desaparecimento de seu filho. O complexo e novo relacionamento entre estes dois seres é um dos principais motores de ‘Titane’, além dessa estranha fusão entre seres humanos e automóveis. E assim, Julia Ducournau fez como que um piscar de olho, a um dos cineastas que mais a influenciaram, David Cronenberg, para falar sobre corpos torturados e maternidade. Algumas das cenas mais realistas são extremamente dolorosas e outras invocam um universo fantástico e distópico, mas sempre com algum esforço, exagero e pretensão. Julia Ducournau é uma cineasta com talento e ‘Titane’ é um trabalho interessante, para quem gosta de emoção fortes; ’Titane’ torna-se numa experiência intensa, ou melhor numa fábula fascinante, talvez um pouco pretensiosa e sem sentido, mas que pode dar o Prémio de Interpretação a Agathe Rousselle, tal é o poder magnético da sua figura no filme.

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VÊ TRAILER ‘THE FRENCH DISPATCH’

Bill Murray insistiu em usar sua máscara até o tapete vermelho, talvez não apenas por ter ficado impressionado, com a circulação das pessoas em Cannes — anda tudo sem máscara na rua — como também porque The French Dispatch, de Wes Anderson foi na generalidade, muito mal recebido pela crítica. Embora para o público francês tivesse ficado muito entusiasmado, com o filme. Pudera! É uma verdadeira operação de sedução à França e aos franceses, estreado em vésperas do 14 de juillet. ‘The French Dispatch’, é um filme coral, com um elenco de estrelas, com uma série de sketches poéticos passados numa França fantasiada, como se estivesse -mos folheando, uma revista (ou melhor a French Dispatch), sumptuosamente ilustrada. Mas é só isso, porque ’The French Dispatch’ é um filme que até irrita pois está carregado de estética e meios, e tem muito pouco para dizer e quase nada de cinema. Um filme que tem muito estilo, mas pouca substância. É uma das grandes desilusões desta Cannes 74.

VÊ TRAILER DE ‘LA FIEVRE DE PETROV’

Kirill Serebrennikov, o realizador russo do excelente ‘Leto’ apresentado em Cannes em 2018, regressou à competição com ‘La Fievre de Petrov’, um filme poético, alucinógeno, intrigante e poderoso, passado na Rússia pós-soviética, sobre um cartoonista que sofre de uma gripe maldita e que por vezes se baralha entre a horrível temperatura fria, muito álcool e drogas. É uma verdadeira ‘trip’ de exageros às vezes sem qualquer sentido. Neste filme, o realizador russo mostra-nos que a realidade pode ultrapassar a ficção. La Fievre de Petrov’, é um filme interessante, mas que não chega nem aos calcanhares do anterior. Por razões políticas, o cineasta russo não teve permissão para deixar seu país e foi portanto, via Facetime, de um smartphone que subiu a passadeira vermelha; e respondeu por Zoom às perguntas dos jornalistas, numa entrevista coletiva.

VÊ TRAILER DE ‘BERGMAN ISLAND’

Além de mim também parece que o Tim Roth, que é originalmente britânico, também não assistiu à final do Europeu de Futebol, por causa da estreia oficial de Bergman Island, da francesa Mia Hansen-Love, na noite de domingo e que foi literalmente fazer turismo cultural para a ilha de Faro, na Suécia. Este é mais um daqueles filmes que também não sei o que está a fazer na competição? Roth, interpreta o papel de um cineasta, que acompanhado da namorada Chris (a luxemburguesa Vicky Krieps), veio buscar inspiração à ilha Faro, onde o grande cineasta sueco filmou e viveu os seus últimos anos de vida. Mas Bergman deve estar neste momento a revirar-se no túmulo e a perguntar o que é que aquela gente foi lá fazer? Gente que incluí também a estrela norte-americana Mia Wasikoska e o norueguês Anders Danielsen Lie, protagonista de The Worst Person in the World’.

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VÊ TRAILER & PRESS CONFERENCE DE ‘FLAG DAY’

Flag Day de Sean Penn (a sua nova experiência como realizador depois de O Lado Selvagem, em 2006), resume-se literalmente e apenas à afirmação de um pai-galinha, e um ‘jeitinho’ da direcção artística, para estar nesta competição. Não apenas porque realizou, mas também porque Sean, desempenhou um simpático papel de um pai mitomaníaco da sua própria filha, Dylan Penn, que nem de longe nem de perto tem o talento do pai, como se viu neste filme. De qualquer modo, num filme fraquíssimo que em circunstância alguma poderia estar na competição, parece não haver qualquer semelhança na relação entre os personagens do filme e o pai e a filha, na vida real. E ainda bem!

VÊ CLIMAT PRESS CONFERENCE 2021

O Festival de Cannes parece igualmente bastante comprometido com as questões climáticas, e a prova é que Thierry Frémaux anunciou isso mesmo, criando, entre outras coisas, uma nova seção Cinema para o Clima. Isto é, o Festival de Cannes ficará cada vez mais verde. Isso foi confirmado pelos signatários dos movimentos: Tribune pour le climat e #Onestprêt, que apareceu no jornal Le Monde e numa conferência de imprensa: ‘Não podemos mais falar de problemas ecológicos, mas de sobrevivência’, martelou Louis Garrel, muito envolvido no movimento batizado de #Onestprêt. Cyril Dion, co-realizadora  de ‘Demain’, por sua vez queria ver mais ficções cinematográficas, que não mostrassem apenas situações apocalípticas: ‘Está na hora de fazer filmes que ofereçam soluções para sair desta crise climática’, disse sob fortes aplausos. E tem muita razão, fala mesmo que está dentro do assunto e que espera mesmo por soluções. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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