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Wicked: For Good, em análise

“Wicked: For Good” (2025), a segunda parte de “Wicked”, filmada em conjunto com a primeira metade, e por isso editada com uma rapidez pouco usual, chega às salas de cinema um ano após o arranque desta duologia. Traz-nos a história reinventada do musical “O Feiticeiro de Oz” (1939), onde a Bruxa Má do Oeste prova antes ser uma heroína mal compreendida.

Wicked: a adaptação de uma adaptação, de uma adaptação

Wicked 2 Glinda
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Uma adaptação em cima de uma adaptação, em cima de uma adaptação. “Wicked” traduz para o grande ecrã, com fidelidade, a narrativa de um dos musicais da Broadway mais populares de sempre, também em cena há muitos anos em Inglaterra. Falamos de “Wicked”, claro está, a peça sobre a amizade inesperada entre a Bruxa Boa, Glinda e a Bruxa Má, Elphaba, aqui elevada à qualidade de verdadeira protagonista da história.

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“Wicked”, a peça, que dá também pelo nome de “Wicked: The Untold Story of the Witches of Oz”, com livro por Winnie Holzman e canções de Stephen Schwartz (“Pippin”, “O Princípe do Egipto), estreou em São Francisco em 2003, e depressa se mudou para a Broadway, onde se manteve no Gershwin Theatre desde então. Nos papéis originais de Galinda temos Kristin Chenoweth e como Elphaba Idina Menzel (também conhecida por dar voz a Elsa em “Frozen”). Ainda hoje as atrizes se mantém muito associadas a estes papéis, tendo inclusive um cameo na primeira metade do filme “Wicked”, em 2024.

Ora, para além de adaptar a peça da Broadway, o filme de Jon M. Chu que nos propomos a analisar tem origem num livro lançado em 1995 por Gregory Maguire e intitulado “Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West”. Este livro, por sua parte, baseou-se no filme original de 1939, que era ele mesmo inspirado por uma outra obra literária: o romance infantil “The Wonderful Wizard of Oz”, lançado em 1900 por L. Frank Baum.

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Wicked for Good
© Universal Studios. All Rights Reserved. 2025.

Portanto, quando falamos de “Wicked” não falamos de uma narrativa nova, mas antes da capacidade de traduzir para o grande ecrã um retelling que tem já uma história muito longa, com mais de 100 anos de antecedentes. Por isso, quando criticamos “Wicked: For Good” fazemo-lo tendo sempre em conta o vasto material de origem, nunca no vazio.

A percepção da verdade na obra de Jon M. Chu

A história de “Wicked”, situada na Terra de Oz, na Universidade Shiz e na Munchkin Land, é uma história sobre amizade, sobre aparências e sobre a diferença gigante entre a verdade e a percepção da verdade. Num mundo de enganos e desenganos políticos, a figura do Feiticeiro de Oz, aqui interpretada por Jeff Goldblum, assume particular importância. Ele é um político corrupto, que sorri e apela, com a sua força magnética, aos seus cidadãos, e que conta mentiras para encontrar um inimigo comum. Neste caso, o inimigo comum de eleição são os animais, vistos como causadores de todos os problemas, embora infelizmente o filme nunca justifique, na primeira ou na segunda metade, a sua mitologia em detalhe. Porque são os animais o inimigo em comum? Saber o porquê tornaria a componente política de “Wicked” e “Wicked: For Good” bem mais rica.

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Por outro lado, Elphaba vai substituir os animais como inimigo comum nesta segunda metade de “Wicked”. Esta cruel necessidade de haver uma bruxa a queimar na fogueira é um momento ao qual o filme escolhe voltar duas vezes. Primeiro no número de abertura de “Wicked”, com a maravilhosa canção “No One Mourns the Wicked”, cantada pela intéprete de Glinda, Ariana Grande, num belíssimo tom operático e lírico. Depois, no final de “Wicked: For Good”, voltamos inteligentemente à mesma cena para a podermos testemunhar de um outro ponto de vista – o ponto de vista de quem sabe que a verdade é o que menos importa para os cidadãos de Oz e que a reconstrução terá de ser baseada numa mentira e, parcialmente, na eliminação da diferença. Um final agridoce, e que adiciona peso a “Wicked: For Good”.

Uma segunda metade mais fraca em “Wicked: For Good” (2025)

Glinda em "Wicked: For Good" (2025)
©Photo by Giles Keyte/Universal Pictures – © Universal Studios. All Rights Reserved.

Mas continuando a escrutinar esta segunda metade. Há que dizer, em primeiro lugar, que “Wicked” (2024) é um filme muito mais completo do que “Wicked: For Good”. Na primeira metade somos apresentados a Glinda (Ariana Grande), a Elphaba (Cynthia Erivo), ao Princípe Fiyero (Jonathan Bailey, de “Bridgerton”) e a todas as restantes personagem que compõe este universo. Somos também introduzidos à Shiz University, onde as nossas duas protagonistas se conhecem, onde descobrem o quanto se odeiam na música “What is This Feeling”, onde finalmente se tornam amigas no Oz Dust, entoando Ariana Grande uma divertidíssima “Popular” de seguida.

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É neste filme que se deslocam também pela primeira vez à Cidade Esmeralda para conhecer o Feiticeiro (Jeff Goldblum), e quando tudo corre mal, e descobrimos que o Grande Feiticeiro não é senão um aldrabão, incapaz de fazer verdadeira magia, a parelha Grande-Erivo entoa em uníssono uma excelente versão de “Defying Gravity”, antes de fecharmos para o que seria a intermissão no caso da peça e, no caso do filme, é a marca natural que separa a primeira da segunda metade da obra.

O grande problema, claro está, é que acontece muito menos na segunda metade do musical. Depois de nos apercebermos das aldrabices do Feiticeiro, Elphaba anda para trás e para a frente, em vão a tentar que os cidadãos de Oz confiem nela e vejam as mentiras com que se debatem. Todavia, Elphaba rapidamente percebe que “No Good Deed” (Goes Unpunished) e que ela terá de ser um símbolo de mudança, sacrificando-se pelo caminho.

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A mensagem de “Wicked: For Good” é bela, sólida, um pouco agridoce, deixando-nos antever que não há assim tanto espaço para diferença  – no mundo de Oz ou no nosso. Todavia, é narrada de forma algo arrastada, para mal dos pecados desta segunda metade. Temos mais de 2 horas de filme, inclusive duas novas músicas originais, mas nem em termos narrativos nem em termos musicais somos realmente convencidos.

For Good – a escapatória desta segunda metade

A canção “For Good”, uma linda balada cantada a duas vozes entre Ariana Grande e Cynthia Erivo é mesmo o ponto alto de “Wicked: For Good”, o instante em que Glinda e Elphaba compreendem que ambas melhoraram como pessoas devido à sua amizade. Todavia, esta segunda metade é o filme de Glinda, não de Elphaba, e as duas protagonistas passam demasiado tempo separadas.

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Uma vez mais, as críticas nunca podem ser feitas no vazio. Pensemos na estrutura clássica de musicais da Broadway e do West End, com uma enorme tradição da melhor música ser a que antecede a intermissão, sendo a segunda parte da maioria dos musicais composta por reprises e por temas menores quando comparado com a primeira parte. Pensemos num “One Day More” antes da intermissão de “Les Miserables”, pensemos em “All I Ask of You” em “Phantom of the Opera”, e por aí adiante.

Jon M.Chu (experiente nos musicais com “In the Heights” ou “Step Up”)  e a sua equipa criativa não são culpados deste facto, mas é inevitável mencioná-lo. Os temas musicais da primeira metade são muito mais fortes, com a excepção da já mencionada canção “For Good”, perfeita na capacidade de unir toda a narrativa de “Wicked”.

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Além disso, há um número significativo de eventos a acontecer na primeira metade. Lá, oscilamos entre instantes mais alegres e mais tristes, existe muito desenrolar narrativo, muitos eventos, muito sumo. Muita descoberta, traição e purga. Neste “Wicked: For Good”, devido à própria natureza da história que inspira o filme, ficamos aquém. E, verdade seja dita, era difícil que tal não acontecesse. As canções são mais tristes, o humor está mais ausente, há uma perspectiva de sofrimento e sacrifício que permeia toda a longa.

A única excepção é o momento em que descobrimos mitologia associada a “O Feiticeiro de Oz”, com o espantalho, o leão e o homem de lata a relacionarem-se com os eventos e personagens do primeiro filme de forma satisfatória.

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Wicked for Good
Photo by Giles Keyte/Universal Pictures – © Universal Studios. All Rights Reserved.

Feitas as contas, “Wicked: For Good” é ligeiramente longo de mais e com eventos a menos, as suas músicas são mais fracas, mas o universo mantém-se popular e de boa saúde, apesar de tudo, tendo em conta as performances excelentes de Ariana Grande e Cynthia Erivo, as quais serão de certo novamente nomeadas aos Óscares.

De positivo, fica a reflexão sobre a diferença, sobre a importância de nos impormos perante a tirania. Todos pensamos ser Elphabas, mas muitos de nós somos Glindas. Mas como “Wicked: For Good” nos diz, também as Glindas do mundo podem crescer, aprender, mutar-se e tornar-se seres mais empáticos. E se este é um filme de massas, que é, ao menos que a sua mensagem nos transmita algo bem positivo, como é o caso.

Wicked: For Good - em análise

Conclusão

  • “Wicked: For Good” é uma conclusão digna para uma bela história musical sobre amizade e a percepção da verdade. As músicas não são tão estimulantes quanto as presentes na primeira parte, mas assim acontece também no espectáculo da Broadway que inspira esta longa-metragem. A história, essa também se faz sentir menos completa, não obstante um final satisfatório que une as duas metades.
Overall
6.5/10
6.5/10
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