"Ao Ritmo de Washington Heights" | ©2021 Warner Bros. Ent. All Rights Reserved

Ao Ritmo de Washington Heights, em análise

“Ao Ritmo de Washington Heights”, longa-metragem realizada por Jon M. Chu (Asiáticos Doidos e Ricos),  baseada no musical da Broadway criado por Lin-Manuel Miranda (“Hamilton”), encontra-se em exibição nas salas de cinema nacionais desde 10 de junho.

Entre o calor extenuante, as coreografias que guiam danças sem fim e a jukebox musical que oscila entre o Pop, Rap ou Salsa, faz-se a representação de uma cultura de imigrantes de 1ª e 2ª geração ameaçada pelas garras da gentrificação. “In the Heights” é uma carta de amor de um habitante de um “barrio” para o mundo. E que contagiante carta é esta! 

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“Alza la bandera
¡La bandera Dominicana!” 

in the heights 2021
Anthony Ramos em “in the Heights” |©NOS Audiovisuais

 Carnaval Del Barrio, Lin-Manuel Miranda

Dezenas de dançarinos e 14 horas de filmagens para um número musical que transpira uma sensual e inegável “latinidade”.

As luzes acendem-se em Washington Heights… o cheiro a café quente (cafecito caliente) paira no ar mesmo à porta do metro da rua nº181, onde um caleidoscópio de sonhos se reúne entre uma comunidade unida.Na intersecção disto tudo, Usnavi (Anthony Ramos) é o dono de uma simpática e magnética mercearia que poupa cada cêntimo. Esperançoso, canta e imagina uma vida melhor.

UM LONGO TRAJETO ATÉ CASA COM ESTE AO RITMO DE WASHINGTON HEIGHTS (2021) 

Ao Ritmo de Washington Heights
© NOS Audiovisuais

“In the Heights” (aqui pode ser visto o número inaugural da longa-metragem), no original, conta com a realização competente embora pouco inventiva de John M.Chu, um imigrante de 1ª geração filho de pais chineses. Foi ele que, com o seu “Crazy Rich Asians”, apresentou o maior elenco asiático a alguma vez figurar numa grande produção de Hollywood. Esta sua revolução étnica e de inclusividade, a qual provou que um filme sem grande presença de atores brancos é capaz de singrar nas bilheteiras cinematográficas dos EUA, sem dúvida o tornou um maestro apropriado e dedicado aquando da escolha do condutor de “Ao Ritmo de Washigton Heights”.

Aqui se manifesta a oportunidade de repetir o feito, desta vez para a comunidade latina (embora as vendas de “Ao Ritmo de Washington Heights” estejam algo aquém do aguardado). Não obstante o facto de esta ser a longa-metragem de Chu, a mesma baseia-se na peça de Lin-Manuel Miranda, a sua primeira, a qual o compositor, ator, dramaturgo, rapper e tanto mais começou a criar há 15 anos atrás (aos 19 anos), enquanto estudava Teatro na Universidade. Este seu musical, cujo conceito foi criado a duas mentes com a também Latina Quiara Alegría Hudes (autora do livro que deu origem à peça), é agora adaptado ao cinema com argumento da própria.

Antes, passou pela Off-Broadway e pela Broadway, venceu um Tony e figurou entre os finalistas para a indicação ao Pulitzer. Iniciava-se a jornada de Miranda como voz fundamental do Teatro Musical no Século XXI, como impulsionador de uma “revolução latina” na 7ª arte. A jornada chega agora a este novo palco, o grande ecrã mundo fora.

A MÚSICA NAS VEIAS, NOS POROS E EM TODO O LADO NUM BAIRRO DE MANHATTAN 

in the heights 2021
©NOS Audiovisuais

 

Narra-se no trailer do filme “as ruas eram feitas de música” , um lema que parece para lá de apropriado. Composto por um total de 17 canções, as quais vão amalgamar géneros musicais díspares de forma única, do Hip-Hop à Salsa, passando pela Pop e R&B, até à estrutura clássica do Teatro Musical, “In The Heights” faz a festa com a presença de centenas de dançarinos e muitas personagens distintas, cada uma com o seu “sueñito” (o seu sonho), ao longo de quase duas horas e meia muito bem passadas de filme. A elasticidade das tonalidades é impressionante, com todos estes géneros a serem projetados e imiscuídos, de forma mais do que recorrente, numa mesma música.

No âmago de tudo está o próprio bairro, Washington Heights, em Manhattan, Nova Iorque, o qual é conhecido pela grande percentagem de imigrantes de países da “América Latina” (América do Sul, Central e México). É lá que a argumentista Quiara Alegría Hudes, filha de mãe de Porto Rico, vive. Já Lin-Manuel Miranda, responsável por música e letra,  cresceu no habitualmente apelidado bairro de “Heights”, onde vive até hoje. Ao contrário do que acontece em muitas produções de Hollywood, esta longa-metragem foi gravada no próprio local que lhe dá título, Washington Heights, quiçá a personagem central de toda a trama, aquela que une todos os jovens sonhadores que nos são apresentados.

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Chu, Lin-Manuel e companhia têm vindo a enfrentar algumas críticas severas.  Argumenta-se, na imprensa, nas redes e  na Grande Maçã, que o bairro representado é composto, em vasta maioria, por pessoas originárias da República Dominicana e que dessas perto de 90% são latino-africanas. Como hino de inclusão e representatividade, como manifestações daqueles que muitas vezes ficam esquecidos nas grandes produções e que compõem uma franja tão dominante da sociedade dos EUA, “Ao Ritmo de Washington Heights” soa a uma vitória para quem vê e ouve do outro lado do Oceano, não obstante alguns sinais de alarme que nos dizem que certos nova-iorquinos, oriundos de Heights, se sentiram “whitewashed” (branqueados).

Apenas Leslie Grace (Nina) é uma jovem dominicana negra a ocupar um lugar central no elenco mas, não obstante, os seus restantes companheiros musicais são todos eles orgulhosamente latinos e transmitem, nesta história sobre sentido de comunidade, uma energia própria.  contagiante. mantendo-se o feito intacto perante o olhar do mundo.

Contudo, nunca se pode dar a sua defesa por dormente.Ao longo de toda a obra, temáticas sensíveis, como por exemplo o “Programa Dreamers” (DREAM Act), relacionado com o acolhimento e  legalização de imigrantes nos EUA que se mudaram enquanto bebés ou crianças para o país, são abordadas de forma superficial e, sem serem esquecidas ou vistas como acessórias, integram as preocupações desta comunidade, que aqui é vista de uma perspetiva positiva e esperançosa.

 

A GRANDIOSIDADE DE UM VERÃO FILMADO COM DEZENAS DE INTERVENIENTES EM CENA

in the heights 96 000
As senhoras do salão personificam a energia latina contagiante | ©NOS Audiovisuais

 

Jon M.Chu pode não ser o nome determinante quando pensamos em “Ao Ritmo de Washington Heights”, uma vez que a obra vive muito mais das composições musicais que já eram inerentes  à peça musical  do que de quaisquer outros elementos que tenham sido acrescentados aquando da tradução cinematográfica. Não obstante, e perdoando algumas sequências com efeitos especiais excessivamente melodramáticas e, convenhamos, pirosas ( sim, falamos do dueto final entre as personagens Nina e Benny), a transposição fílmica tem um grande trunfo do seu lado: a sua grandiosidade.

Os dias escaldantes de verão representados no filme, vividos em Nova Iorque por intérpretes, dançarinos e figurantes, foram gravados em grande escala. Um dos números musicais mais completos e interessantes do filme, “96.000”, captado ao longo de dois dias na piscina de Highbridge Park, exigiu a coordenação de mais de 500 dançarinos e dançarinas, numa apresentação musical que reune grande parte do elenco e que toca em géneros musicais sem fim e em muitas das temáticas mais estruturantes da obra como a gentrificação, imigração e perpétua desvantagem de certos grupos étnicos, tal como é o caso da comunidade Latina em Washigton Heights, em Nova Iorque e nos EUA.

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O elenco e dançarinos de “Ao Ritmo de Washington Heights” reuniram-se num “campo musical” de dez semanas, aperfeiçoando danças e prestações vocais até ao milímetro durante 10 semanas. O resultado? Um musical capaz de encher as medidas aos e às fãs deste género.

Sim, ao longo de 143 minutos existem pontuais momentos mortos e sim, quando o carismático protagonista Usnavi (Anthony Ramos) sai de cena perde-se parte do magnetismo que contagiou quem vê do outro lado. Nem todas as cenas são tão fortes, enquanto afirmações políticas, quanto o tenebroso número protagonizado por Olga Merediz como a Abuela Claudia. Contudo, não precisam de o ser. “In the Heights” é um pouco de tudo, não é apenas crítica de um sistema que perpetua diferenças sócio-económicas e inferioriza certas etnias, longe disso! É muito mais a celebração de um bairro, o hastear de muitas bandeiras que juntas formam uma verdadeira família.

Vários dias depois da ida à sala de cinema, os momentos musicais teimam a perdurar e a exigir serem trauteados. Sem dúvida este “Ao Ritmo de Washington Heights” promete ficar na história do cinema no que às adaptações de teatro musical diz respeito!

 

TRAILER | “AO RITMO DE WASHINGTON HEIGHTS” TRANSPORTA OS RITMOS LATINOS ATÉ AO CORAÇÃO DOS SONHADORES 

 

O musical deste verão, apropriadamente escaldante e esperançoso, está em exibição nas salas de cinema de todo o país desde 10 de junho. Todos os holofotes apontam para “Ao Ritmo de Washington Heights”. 

Ao Ritmo de Washington Heights, em análise
AO RITMO DE WASHINGTON HEIGHTS

Movie title: Ao Ritmo de Washington Heights

Movie description: "Ao Ritmo de Washington Heights” é uma fusão da música e letras de Lin-Manuel Miranda com a visão animadora e autêntica do realizador Jon M. Chu.

Date published: 26 de June de 2021

Country: EUA

Duration: 143 minutos

Director(s): John M.Chu

Actor(s): Anthony Ramos, Corey Hawkins, Leslie Grace , Melissa Barrera, Lin-Manuel Miranda

Genre: Musical , Romance

  • Maggie Silva - 85
85

Summary

Há chama, paixão, personalização e um ritmo marcado por um crescendo e pela intoxicação a cada linha de diálogo e cada movimentação neste “Ao Ritmo de Washington Heights”.

Jon M. Chu ajuda, na cadeira da realização, a imortalizar a visão da comunidade unida de “barrio” que ajudou a moldar a identidade dos autores Lin-Manuel Miranda (conceito, letras e músicas) e Quiara Alegría Hudes (conceito, livro original, argumento).

Pros

O talento contagiante do jovem Anthony Ramos na pele de Usnavi (e o elenco como um todo, repleto de veteranos da televisão e cinema norte-americana e mais além).

As grandiosas coreografias e números poderosos que tornam “In the Heights” um Musical com “M” grande.

A confluência de géneros musicais que nos embala. Há canções de cinco, seis, sete minutos, que oscilam entre tonalidades e tradições sonoras sem nunca aparentarem desconexão. Bravo!

Dizer que um filme tem “alma” parece vazio de significado, mas é um termo tão apropriado para descrever a representação divertida, livre de pretensão, mas consciente de um bairro latino em Manhattan que aqui se imortaliza.

Cons

As letras e músicas de Lin-Manuel Miranda são o maior trunfo desta obra e, ao fim do dia, são elas que persistem na memória. O resto torna-se, quiçá demasiado, “acessório”.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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