©MONSTRA

MONSTRA 2026 | Competição Médias 2, em análise

Em 2026, a equipa criativa da MONSTRA teve uma excelente ideia: dividir a competição de curtas-metragens em duas secções distintas. Uma composta de filmes de animação até 15 minutos, outra feita de médias-metragens entre 15 e 40 minutos de duração.

Lê Também:
MONSTRA 2026 | Competição Curtas 2, em análise

Depois de já termos visto algumas das obras em competição na secção de curtas.metragens, refletimos agora acerca dos nossos filmes favoritos da Competição de Médias 2.

Pub

Water Girl de Sandra Desmazières (França, Países Baixos, Portugal, 2025, 16′)

Water Girl Short Film
©Unifrance

“Mia passou a sua vida inteira a fazer mergulho livre, a pescar e a nadar por entre algas e pedras. O tempo passou, deixando as suas marcas no corpo de Mia e mudando as paisagens à sua volta. Entes queridos foram desaparecendo. Mas hoje, ela lembra-se de tudo.”

Conjugando 2D digital, desenho e técnica mista, “Water Girl”, da autoria de Sandra Desmazières, abriu esta sessão da Competição de Médias-Metragens 2 numa nota de absoluto êxtase.

Nada falta a este filme, que em 2025 chegou a competir na secção de curtas do Festival de Cannes. A sua animação é para lá de deslumbrante, as alusões constantes ao mar e a sua representação fazem-se sentir integrais para contar a história de Mia e o impacto emocional desta narração é imenso.

“Water Girl” dispensa o uso de quaisquer diálogos para ilustrar a vida da protagonista, as suas perdas e vitórias, os seus processos de luto e as suas lutas como mulher, as suas desilusões e maiores pesares. Em apenas 16 minutos, constrói-se habilmente toda uma existência humana robusta.

Pub

Esta curta-metragem exímia apresenta-se como uma meditação sobre o tempo, o corpo e a memória, ao acompanharmos o processo de envelhecimento de Mia e toda a sua vida ligada ao mar. A ausência de diálogos já mencionada é particularmente inteligente, transformando “Water Girl” numa espécie de fluxo de consciência visual, onde passado e presente se vão entrelaçando.

O corpo de Mia funciona como um arquivo, o qual é igualmente marcado pelo tempo e pela paisagem que a rodeia. Ao longo da sua vida, recuperamos alguns eventos basilares, como o seu desejo frustrado de maternidade. Esta perda é profunda e sentimo-la com toda a intensidade, sendo-nos transmitida de uma forma onírica e simbólica.

Pub

A obra de Sandra Desmazières trata-se de um exemplo valoroso de cinema autoral contemporâneo, afim à poesia visual e mais afastado das estruturas narrativas clássicas. A sua história não é linear, nem precisa de o ser, usando metáforas visuais fortes para expressar emoções incontornáveis como luto, desejo ou aceitação.

Pontuação: 85/100

Pub

Society of Clothes de Dahee Jeong (França, Coreia do Sul, Canadá, 2024, 16′)

MONSTRA Society of Clothes
©MONSTRA

“Quando o sol nasce na Sociedade da Roupa, uma camisa e um par de calças saem do armário, transformando-se numa figura humana. Neste mundo, todos existem apenas como peças de roupa. Elas vagueiam pelas ruas, sem corpo e sem rosto, executando tarefas diárias absurdas.”

Outro dos nossos destaques nesta Competição de Médias-Metragens da MONSTRA 2026 é, sem dúvida, o sul-coreano “Society of Clothes”, uma obra que foi já exibida em dezenas de festivais, com uma premissa absolutamente deliciosa e uma execução que não desilude.

Pub

O conceito é bastante simples, mas intrigante e absurdo: o mundo que nos é apresentado é o da Sociedade da Roupa, um universo onde peças de vestuário substituem os humanos e movem-se no seu lugar. Aqui, a vida torna-se um pouco mais caótica quando uma criança humana é subitamente introduzida neste cenário invulgar.

A ideia de Dahee Jeong funciona como um dispositivo alegórico que nos permite questionar o que define, afinal, a identidade humana. Visualmente, é inegável a associação ao movimento surrealista, com uma afinidade clara e bem-vinda às obras de René Magritte, à medida que os objectos são dissociados daquela que é a sua função habitual.

Pub

A semiótica é aqui uma possível grande ajuda para interpretar “Society of Clothes”. Neste mundo desprovido de códigos, a identidade vê-.se reduzida ao que é visível: roupas, estilos, códigos sociais. O filme deixa a sugestão subtil de que o nosso “eu” não passa de uma mera projeção social, feita de signos exteriores.

O existencialismo faz-se também impor: o que é então ser humano? O que significa verdadeiramente existir? “Society of Clothes” é muito inteligente no modo como coloca, através de metáforas visuais, questões fundamentais para toda a humanidade.

Pub

Há múltiplas interpretações possíveis para esta pequena obra, para as suas metáforas visuais e para o significado da rotina absurda que aqui é traçada. Cabe-nos a cada um, individualmente, procurar as respostas.

Pontuação: 80/100

Lê Também:
MONSTRA 2026 | Little Amélie or the Character of Rain, a Crítica

A MONSTRA (Festival de Animação de Lisboa) está à solta em vários espaços da capital até dia 22 de março. Deste lado, continuamos com a nossa cobertura das várias secções do Festival de Animação de Lisboa.


About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *