MONSTRA 2026 | Competição Portuguesa Vasco Granja, em análise
No dia 20 de março, assistimos, na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, à importantíssima Competição Portuguesa da MONSTRA. Em palco, para uma sessão de perguntas e respostas pós visionamento, estiveram presentes a esmagadora maioria dos realizadores e realizadoras que integraram a programação. Aqui, ano após ano, apresenta-se uma selecção das melhores curtas-metragens de animação nacionais.
A curta vencedora recebe o galardão principal do Festival de Animação de Lisboa – o Grande Prémio Vasco Granja. Nesta 25ª edição da MONSTRA, 9 curtas competiram por esta distinção. Falamos agora sobre 7 destes filmes, uma vez que havíamos já assistido aos filmes “Sombras de Nós Próprios” de Pedro Serrazina (Prémio Especial do Júri) e “Amarelo Banana” de Alexandre Sousa numa sessão prévia da Competição de Curtas.
A Última Meia de Carolina Batista (Portugal, Itália, 2025, 11′)

“Os laços de uma família são colocados em causa enquanto lidam com o desaparecimento de uma peça de vestuário que tem o poder único de definir os seus níveis de autoestima.”
Esta secção competitiva central para a MONSTRA, a Competição Portuguesa, arrancou com “A Última Meia” de Carolina Batista. Do ponto de vista narrativo, este pequeno filme é bastante fora da norma. Narra-se a história invulgar de uma família que fica perfeitamente obcecada com um item de roupa: meias. Ao ponto destas meias causarem o caos total e ameaçarem a destruição da sua vida familiar.
Na realidade a meia isolada funciona como uma metáfora transversal: simboliza a solidão no quotidiano, a memória e o apego excessivo a objectos, bem como a procura de significado que reside nos mais banais dos gestos.
Todavia, o maior trunfo de “A Última Meia” não reside na sua história invulgar e simbólica, mas no seu uso muito eficaz de stop-motion com marionetas.
Pontuação: 65/100
Lembra de Mim de Bárbara Barreto, Caroline Soares e João Cadima (Portugal, 2024, 5′)

“Um filme sobre a refrescante inocência infantil, onde duas meninas, sem quaisquer preocupações, começam a brincar juntas sem se conhecerem. É esta autenticidade e espontaneidade que, às vezes, se vai perdendo com o tempo.”
Realizada a três mãos, “Lembra de Mim” é uma curta-metragem estudantil, criada na Universidade Lusófona, a qual reflete acerca da criação de amizades durante a infância. O estilo de animação, que combina desenho com animação digital, é tecnicamente bastante bem executado, embora não particularmente inventivo.
O desenho é algo infantil durante grande parte desta obra, o que está perfeitamente em sintonia com as temáticas que são abordadas. A história é bastante pura e reconfortante, transportando-nos para tempos mais simples. Todavia, sentimos que faltava a este pequeno filme de 5 minutos um maior desenvolvimento narrativo. Quiçá este momento de pura amizade em idade tenra pudesse ser confrontado com a vida adulta e as suas responsabilidades? Talvez uma comparação de momentos na vida pudesse enriquecer a história?
Pontuação: 60/100
Argumentos a Favor do Amor de Gabriel Abrantes (Portugal, 2025, 10′)

“Discussões de casal, tiradas da vida, entre fantasmas.”
Gabriel Abrantes é o rei português do bizarro, do Kitsch, do improvável. De curtas a longas-metragens, passando por pintura e criações envolvendo realidade virtual, Abrantes é um artista multifacetado e com um trajeto repleto de pérolas. Particular destaque para a sua longa “Diamantino”, uma deliciosa comédia fantástica que parodia a figura de Cristiano Ronaldo e que lhe valeu o Grande Prémio na Semana da Crítica de Cannes em 2018.
As obras deste cineasta são sempre arrojadas e “Argumentos a Favor do Amor” não escapou a esta regra. Em primeiro lugar, deixamos a ressalva de que o estilo de animação 3D empregue não nos encheu as medidas, mas a narrativa mais do que compensou.
Com “Argumentos a Favor do Amor” entramos de rompante na privacidade de um casal, à medida que nos são apresentadas várias discussões basilares: sobre cumplicidade, procriação, sexualidade. A estranheza, essa entra de forma profunda no nosso ser.
Além disso, o filme é bastante auto-consciente e irónico na sua abordagem, como é aliás bastante comum na obra deste cineasta. O humor absurdo é bem-vindo e não o trocaríamos por nada.
Pontuação: 75/100
Machinarium de João Pedro Oliveira (Estados Unidos da América, 2025, 10′)

“Em ‘Machinarium’, fragmentos de maquinaria, arquitetura e movimento são entrelaçados numa densa tapeçaria audiovisual. Sem querer ilustrar uma narrativa específica, a obra convida o ouvinte-espectador a habitar uma paisagem em constante transformação, composta por ritmos metálicos e estruturas cintilantes, onde a noção de lugar é continuamente reconstruída.”
João Pedro Oliveira produziu a obra a partir dos Estados Unidos da América e foi o único cineasta a não representar o seu filme na presente edição da MONSTRA.
“Machinarium”, um filme que se centra em potencialidades técnicas e maquinais, como o título antevê, foi vaiado pelo público bastante participativo nesta sessão da Competição Portuguesa. Não percebemos exatamente o porquê, pois não foi a única obra apresentada pautada por uma componente mais abstrata. Quiçá por ter sido criada com recurso à problemática tecnologia da inteligência artificial?
Embora não haja uma história a narrar, “Machinarium” é interessante na sua exposição do potencial da maquinaria. É provocador também como puro exercício de imaginação de formas que se desdobram e multiplicam – tudo o que a máquina é e pode ser. Além disso, a componente sonora é dominante e desafiante em igual medida. Incómoda mas elaborada, com uma paisagem sonora concordante com o “Machinarium” que nos rodeia.
Para quem possa ter interesse, a obra encontra-se disponível para visualização no Vimeo.
Pontuação: 55/100
Cão Sozinho de Marta Reis Andrade ( Portugal, França, 2025, 14′)

“A história real de um cão deixado ao abandono na sua própria casa, no tempo em que o meu avô começou a experienciar a sua viuvez e eu regressava de Londres, lugar onde me senti mais sozinha que nunca.”
E chegamos assim à curta que foi reconhecida, pelo júri da MONSTRA, como a melhor da Competição Portuguesa em 2026. “Cão Sozinho”, de Marta Reis Andrade, é um filme muito bonito sobre solidão e memória. O cão titular personifica, como a artista explicitou na sessão de perguntas e respostas, a solidão que esta sentiu quando viveu em Londres e a esperança de voltar a sentir-se plena e acompanhada ao voltar para a sua pequena aldeia. Todavia, como Marta Reis Andrade deixa claro, nem sempre deixamos de nos sentir sozinhos mesmo quando acompanhados.
Tanto o cão como o avô presentes nesta pequena história deslumbrante são baseados em personagens da vida real, cuja foto podemos ver no final do filme. Tudo isto intensifica ainda mais a emotividade clara de “Cão Sozinho”, um filme que vence também através do seu casamento perfeito entre animação digital a duas dimensões e desenho.
Belíssimo e emotivo, “Cão Sozinho” foi distinguido pelo Júri como “uma fábula visualmente deslumbrante e profundamente vibrante, que mostra a dor da solidão e uma sugestão de segredismo e mistério que levam o espectador em direção à reconexão.”
Pontuação: 85/100
Corça de Maria Lima (Portugal, 2025, 5′)

“Num campo esquecido, uma menina vive completamente sozinha, cercada por coisas do seu passado. As recordações e as saudades de todos os lugares onde já viveu enchem-lhe o coração, mas também fazem-na sentir que não pertence verdadeiramente a nenhum deles. As memórias conduzem-na até à sua casa antiga, agora abandonada, onde o tempo parece suspenso. Por entre as sombras da sua infância, lembra-se de algo que muda a forma como se vê a si própria e aos lugares a que já pertenceu.”
“Corça” é uma curta-metragem muito mais lírica e onírica do que propriamente narrativa. Funciona quase como um poema visual, e o seu estilo visual, evocativo de aguarelas, ajuda a reforçar esta pertença ao mundo dos sonhos e da projeção.
Visualmente interessante e estimulante, o filme de Maria Lima peca apenas por não conseguir justificar a sua premissa. Alguém perguntou à cineasta, durante a conversa posterior, qual era o significado da Corça. Lima limitou-se a responder que era um animal que via na sua infância ao regressar da escola, sem nenhum simbolismo associado. Por vezes, é mesmo melhor deixar a obra de arte falar por si só, para que cada um de nós possa projetar as suas próprias conclusões.
Perguntas e respostas à parte, o filme não impõe uma interpretação óbvia para a presença da corça, deixando-nos antes criar significado como espectadores. Será a corça uma representação de fragilidade, liberdade, de ligação ao meio natural? Cabe-nos a nós decidir.
Pontuação: 70/100
Porque Hoje é Sábado de Alice Eça Guimarães (Portugal, França, Espanha, 2025, 13′)

“É sábado, dia de descanso. Uma mulher acorda cedo pois quer oferecer a si própria uma prenda: tempo. Mas sempre que surge um momento de inspiração é interrompida por situações domésticas que reclamam a sua atenção: as crianças, a roupa, as refeições. A carga mental dessas tarefas acaba por se tornar insuportável e ela entra em ponto de ruptura.”
Numa sexta-feira à noite, esta sessão da Competição Portuguesa Vasco Granja fechou em chave de ouro com “Porque Hoje é Sábado”. Este é um excelente filme sobre maternidade, feito de cores vibrantes e ousadas.
Fala-se da individualidade, curiosidade e vivacidade de uma mulher, virtudes que se vêm ameaçadas pelas obrigações da maternidade e da vida quotidiana. Curiosamente, a cineasta referiu na conversa após a projeção que o filme se baseia muito na sua experiência. Tal acaba por ser algo surpreendente, pois a obra consegue ser bastante opressiva, triste e até fatalista.
Nesta história, a mulher e a mãe não conseguem conciliar-se e a primeira acaba por ter de se anular para consegui prosseguir com a sua lufa-lufa quotidiana. Mas por muito negativa que a história possa parecer, quantas mulheres não estiveram já na pele da nossa protagonista?
Talvez por isso mesmo esta tenha sido a curta-metragem vencedora do Prémio do Público nesta Competição Portuguesa em 2026. Admitimos que foi também a nossa favorita!
Pontuação: 85/100
A MONSTRA decorre entre 12 a 22 de março de 2026, em vários espaços da cidade de Lisboa. Continuamos a trazer as nossas impressões sobre as longas e curtas-metragens exibidas.

