Festival de Cannes 2026 | Thierry Frémaux abriu o baralho e já sabemos que filmes vão disputar a Palma de Ouro
Entre regressos de luxo, autores que o Festival de Cannes 2026 não larga e algumas apostas mais arriscadas, a competição já tem rosto e, pelo menos no papel, tema para dar conversa até à Croisette ficar sem champagne, entre 12 e 23 de maio próximos.
Thierry Frémaux voltou a fazer aquilo que sabe melhor: transformar uma simples lista de filmes numa pequena liturgia cinéfila internacional. A Seleção Oficial do 79.º Festival de Cannes 2026 foi anunciada esta quinta-feira e a competição principal confirma aquilo que o festival anda há anos a aperfeiçoar com zelo quase administrativo: misturar os “suspeitos do costume” do cinema de autor mundial com algumas entradas novas, embrulhar tudo numa retórica de descoberta, risco e excelência, e deixar a crítica a fingir que isto ainda é apenas uma lista, quando na verdade já é meia narrativa do ano.
A competição do Festival de Cannes 2026 reúne 21 filmes, com nomes como Andrey Zvyagintsev, Rodrigo Sorogoyen, Ira Sachs, Pawel Pawlikowski, László Nemes, Cristian Mungiu, Hirokazu Kore-eda, Ryûsuke Hamaguchi, Asghar Farhadi e Pedro Almodóvar, entre outros.
O mais útil, para já, é separar a espuma da Croisette do essencial: sobre o que são estes filmes? Nem todas as sinopses completas foram ainda publicadas de forma desenvolvida, mas da apresentação de Frémaux e das informações já conhecidas é possível traçar um mapa bastante claro da competição.
Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, promete ser um retrato da burguesia russa em tempos de guerra, centrado num empresário confrontado com a conscrição e com a decomposição moral do seu mundo privado. Pelo que Frémaux descreveu, o filme cruza crítica social, poder económico, guerra e crise conjugal, quase como se Chabrol tivesse ido jantar com a oligarquia russa e saído de lá com vontade de filmar um pesadelo. A imprensa internacional já o descreve como uma fábula política com contornos de thriller criminal.
El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, parece ser um dos títulos fortes da presença espanhola este ano: um drama sobre o reencontro entre um realizador de cinema consagrado e a filha, atriz sem grande sucesso, anos depois de um afastamento prolongado. O filme decorre no contexto da rodagem de uma obra ambientada no Sara Ocidental dos anos 30, o que sugere uma estrutura de espelhos: um filme sobre um filme, mas sobretudo sobre ressentimento, legado, hierarquia, família e ego. Em resumo: Bardem e Victoria Luengo a resolverem contas sentimentais com o cinema metido ao barulho.
The Man I Love, de Ira Sachs, é, segundo Frémaux, um filme de época recente passado em Nova Iorque e centrado na crise da sida, especialmente no impacto dessa devastação sobre os artistas. Pelo tom da apresentação, não será apenas um melodrama memorialista, mas também um olhar para a persistência da desigualdade global no acesso ao tratamento. Ou seja: um filme sobre memória, desejo, perda e política do corpo, território onde Sachs, convenhamos, costuma mexer-se com particular inteligência.

Fatherland, de Pawel Pawlikowski, leva-nos à Alemanha do pós-guerra e ao regresso de Thomas Mann ao país em 1945 para receber o Prémio Goethe. Frémaux sugeriu um filme sobre reconciliação, fratura moral, inteligência europeia e a dificuldade quase indecente de viver depois da barbárie. Sendo Pawlikowski, tudo isto deverá vir em preto e branco ou, pelo menos, com aquela austeridade visual que faz parecer que o cinema ainda pode ser uma forma séria de pensar a História.
Moulin, de László Nemes, é um filme sobre Jean Moulin, figura central da Resistência francesa. O tema está claro: ocupação, clandestinidade, heroísmo e memória histórica. Também está claro que Nemes volta a um território onde a pressão moral, a densidade atmosférica e a encenação do trauma costumam pesar mais do que qualquer facilidade narrativa.
Stories of the Night, de Léa Mysius, adapta o romance de Laurent Mauvignier e marca a primeira presença da realizadora em competição. Pelo que foi dito, deverá ser um drama noturno, fechado e tenso, daqueles em que uma noite concentra todas as violências latentes, todos os segredos mal guardados e toda a podridão emocional que o quotidiano normalmente disfarça.
Fjord, de Cristian Mungiu, decorre na Noruega, mas, segundo Frémaux, não é propriamente um “filme norueguês”: é antes um confronto entre sensibilidades, códigos e culturas europeias distintas. O fiorde funciona tanto como espaço geográfico como figura narrativa, quase armadilha moral, num filme sobre decisões difíceis e sobre o modo como diferentes europeus olham para o mesmo problema e nem sequer concordam sobre o nome da culpa.
Notre Salut, de Emmanuel Marre, revisita a vida quotidiana sob o regime de Vichy e o comportamento dos funcionários, da burocracia e das pequenas engrenagens do poder em contexto de colaboração. Ou seja, não tanto a História dos grandes monstros, mas a História dos obedientes, dos administrativos, dos que vão “fazendo o seu trabalho” enquanto o mundo moralmente apodrece à volta deles. Tema simpático, portanto.

Gentle Monster, de Marie Kreutzer, parte da vida de um casal para observar o momento em que um dos membros revela uma faceta monstruosa, ou pelo menos profundamente inquietante, da sua personalidade. Não parece ser terror, mas antes um drama íntimo sobre intimidade, violência latente e a descoberta de que, afinal, dormir ao lado de alguém não significa conhecê-lo.
Nagi Notes, de Koji Fukada, foi apresentado por Frémaux como um filme japonês sobre companheirismo, solidão e encontros entre solitários. Em bom português: um daqueles filmes em que a delicadeza social e a melancolia urbana se encontram, e em que o silêncio provavelmente dirá mais do que metade dos diálogos.
Hope, de Na Hong-jin, é descrito como um filme que muda constantemente de género ao longo da narrativa e nunca se deixa fixar numa só direção. Frémaux insistiu nessa mutabilidade, quase como se o filme estivesse sempre a escapar ao espectador. Isso sugere suspense, ação, viragens bruscas e um jogo permanente com as expectativas — coisa que o cinema sul-coreano, aliás, faz melhor do que quase toda a gente.
Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda, cruza temas caros ao realizador — infância, inocência, formação e passagem de um estado a outro — com a questão da inteligência artificial. A ideia, pelo menos dita assim por Frémaux, é deliciosa: Kore-eda a olhar para a IA não como gadget futurista, mas como problema humano, ético e afetivo. O que muda numa criança, numa família ou numa consciência quando a tecnologia entra na equação do crescimento? É por aí.
Garance, de Jeanne Herry, marca a primeira ida da realizadora à competição. Frémaux não desenvolveu tanto o enredo como noutros casos, mas a presença de Adèle Exarchopoulos já basta para pôr o radar da crítica a funcionar. Para já, parece tratar-se de um drama francês de personagens, centrado numa protagonista feminina forte, talvez emocionalmente ferida, talvez pronta a estragar a vida de alguém — ou a sua própria.
The Unknown, de Arthur Harari, é adaptado de uma banda desenhada e foi apresentado como um objeto cinematográfico singular sobre substituição de identidades, esquizofrenia e instabilidade da perceção. Traduzindo: um filme que provavelmente vai dividir a sala ao meio e obrigar metade dos críticos a escrever “intrigante” quando o que querem dizer é “não tenho a certeza de ter percebido, mas talvez isso seja bom”.
Sudden, de Ryûsuke Hamaguchi, é uma coprodução franco-japonesa filmada em Paris com atores franceses e japoneses. Frémaux não entregou demasiado, mas tudo aponta para um filme de encontros, deslocação, delicadeza afetiva e pequenos abalos interiores — ou seja, aquilo que Hamaguchi costuma transformar em grandes abalos morais sem levantar a voz.
The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach, volta a circular por essa Europa periférica, migrante e fraturada que a realizadora tem sabido filmar tão bem. A apresentação sugeriu um filme sobre deslocação, paisagens europeias e personagens em trânsito, como se o continente ainda pudesse ser lido através dos seus desencontros mais silenciosos.
Coward, de Lukas Dhont, é um drama sobre a Primeira Guerra Mundial, visualmente inspirado nas fotografias a cores em autochrome da época. Aqui o tema não é só a guerra, mas também a sua inscrição material na imagem: medo, coragem, juventude, morte e memória vistos através de uma luz histórica muito específica. Só por essa descrição já se percebe que Dhont quer fazer um filme de guerra sem parecer um filme de guerra vulgar.
The Black Ball, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, os Javis, é um dos títulos espanhóis mais comentados: um filme que cruza diferentes épocas da história de Espanha, com ligação a Federico García Lorca e à questão da homossexualidade em tempos diversos. O que está em causa é, ao que tudo indica, a experiência de ser homem gay em diferentes períodos espanhóis, num projeto que mistura memória cultural, repressão, desejo e tradição teatral. E sim, parece ter ambição para dar e vender.
Life of a Woman, de Charline Bourgeois-Tacquet, terá como centro uma figura feminina interpretada por Léa Drucker, mas Frémaux guardou mais o encanto do anúncio do que a revelação do enredo. Tudo indica um drama francês de observação íntima, provavelmente sobre identidade, envelhecimento, autonomia ou reconfiguração de uma vida — o tipo de título que em Cannes pode tanto ser uma bomba emocional como um sonífero elegante.
Parallel Tales, de Asghar Farhadi, é, segundo a apresentação, um filme coral passado em Paris, com várias histórias paralelas entre vizinhos e pessoas que se observam de prédio para prédio, até que os seus destinos se cruzam. Farhadi em modo parisiense é basicamente uma promessa de mal-entendidos, culpa, tensão moral e civilidade a desfazer-se em lume brando.

Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar, já estreado em Espanha antes de Cannes, surge como um dos filmes mais expostos da competição. A imprensa espanhola descreve-o como uma obra íntima sobre luto, depressão e o próprio gesto de criação, perguntando até que ponto um artista pode alimentar-se da vida dos outros. Portanto, Almodóvar volta com autoficção, dor emocional, desejo de exposição e aquele prazer meio cruel de transformar sofrimento em mise-en-scène.
Fora de competição, o Festival de Cannes 2026 anunciou ainda Diamond, de Andy Garcia; Her Private Hell, de Nicolas Winding Refn; L’Abandon, de Vincent Garenq; Karma, de Guillaume Canet; L’Objet du délit, de Agnès Jaoui; L’Âge de fer, de Antonin Baudry; e The Electric Kiss, de Pierre Salvadori, que abrirá oficialmente o festival. Nas sessões da meia-noite estarão, entre outros, Colony, de Yeon Sang-ho, e Full Phil, de Quentin Dupieux; em Cannes Première surgem John Travolta com Propeller One-Way Night Coach, Kiyoshi Kurosawa, Volker Schlöndorff e Daniel Auteuil; e nas Sessões Especiais aparecem documentários assinados por Steven Soderbergh e Ron Howard.
No fundo, a competição do Festival de Cannes 2026 parece organizada à maneira habitual da casa: um pouco de guerra, um pouco de culpa europeia, alguma família disfuncional, umas quantas crises de identidade, sexo, memória, sida, inteligência artificial, homossexualidade, colaboração política, trauma histórico e burguesia em decomposição. Ou seja, o costume, mas o costume, em Cannes, continua a vender-se como se fosse o primeiro dia da criação do mundo. E talvez seja por isso que continuamos todos a olhar para esta lista com a mesma mistura de entusiasmo, ceticismo e ligeira submissão estética: porque Cannes sabe que o importante não é apenas escolher filmes. É fazer-nos acreditar, durante umas horas, que o cinema ainda manda em alguma coisa. Filmes ou cineastas portugueses nada, teremos que aguardar pelas secções paralelas, Quinzena dos Cineastas, Semana da Crítica ou L’Acid. Vou estar lá em Cannes de 12 a 23 de Maio para vos contar tudo ao pormenor.
JVM

