“Segundo Amor”: A Nouvelle Vague Portuguesa Foi a Avignon e à Praia e Voltou com um Dente Partido | IndieLisboa 2026
Primeira longa-metragem de Rodrigo Braz Teixeira, em Competição Nacional no IndieLisboa 2026, “Segundo Amor” é um filme pequeno, frágil, solar e imperfeito, mas também uma daquelas obras onde se percebe que alguém está a aprender a filmar filmando, que é como deve ser.
“Segundo Amor”, primeira longa-metragem de Rodrigo Braz Teixeira, chega à Competição Nacional do IndieLisboa 2026 como chegam muitos primeiros filmes: de mochila às costas, orçamento curto, amigos disponíveis, amores por resolver, feridas geracionais ainda em banho-maria e uma câmara que parece ter sido ligada antes de alguém ter decidido exactamente o que ia acontecer. O filme, produção Portugal/França, tem 71 minutos e acompanha Saura, Filipe, João, Beatriz, Rita e Marchana, um grupo de jovens que partilha uma língua própria feita de hesitações, ironias, dores de crescimento e aquela forma muito particular de quem tem vinte e tal anos dizer “está tudo bem” quando obviamente não está, porque há muitas dúvidas e vem aí a vida adulta.
Filmar fácil é muito difícil
Convém dizer desde já: escrever sobre “Segundo Amor” não é exactamente fazer uma crítica, pelo menos não no sentido tribunalício da palavra, com martelo, toga e sentença final. É mais uma carta de incentivo com pequenas multas de trânsito. Rodrigo Braz Teixeira vem de “Miraflores”, curta que tinha qualquer coisa de revelação suburbana, embora de um ambiente de classe média alta, adolescente, nervosa, quase apanhada no ar antes de cair ao chão. Agora atira-se à longa-metragem e, claro, sofre as dores de crescimento. Seria estranho se não sofresse. Uma primeira longa sem dores de crescimento é como uma adolescência sem borbulhas, uma paixão sem humilhação ou uma ida ao IndieLisboa sem alguém dizer “isto era melhor em 16 mm”. Desconfia-se logo.

Rodrigo Braz Teixeira nasceu em 1997, cresceu precisamente em Miraflores, tem formação em Física e uma biografia pública deliciosa que fala também numa carreira em declínio na patinagem. Ou seja, estamos perante um realizador que, antes de filmar o amor a desfazer-se, já tinha percebido duas coisas fundamentais: a gravidade existe e cair faz parte da vida. Começou a filmar ainda miúdo, com o irmão Martim Braz Teixeira — quem aliás montou este filme —, e que é conhecido publicamente como músico: Jasmim; e seu o melhor amigo, o actor e argumentista Filipe Cates, e essa origem caseira, fraterna, quase de brincadeira levada a sério, que continua a sentir-se em “Segundo Amor”.
Autoficção, amigos e amores em banho-maria
O filme é autoficcional? Parece. Ou melhor: tem aquele perfume de autoficção que hoje anda por todo o lado, como se a cinematografia contemporânea tivesse descoberto que a melhor maneira de não pagar direitos de adaptação é adaptar a própria vida, ou uma versão suficientemente nebulosa dela para ninguém poder processar ninguém. As personagens usam nomes próprios muito próximos, ou directamente os seus nomes, as situações parecem arrancadas a conversas reais — escritas em colectivo —, os silêncios têm a textura embaraçada de quem não está a representar completamente e as cenas às vezes parecem começar cinco segundos antes de o cinema chegar. Isto tanto pode ser uma força como uma armadilha. A força é a autenticidade. A armadilha é achar que a autenticidade, sozinha, já é dramaturgia. Não é. Mas às vezes chega muito perto.
“Segundo Amor” cruza duas linhas principais. De um lado, há Saura (Lightfoot-Leon) e Filipe (Cates), outrora ligados por uma relação amorosa que agora começa a perder ar, como um colchão insuflável no segundo dia de campismo. Ele insiste, ela escapa. Ela percebe antes, ele chega tarde. Ela dança, ele tenta compreender. Nada disto é novo, evidentemente, mas também o amor nunca foi novo e continua a render tragédias, canções pimba, romances de aeroporto e longas-metragens de 71 minutos. Do outro lado, há uma viagem de amigas por França, entre Avignon e uma zona campestre próxima de Montpellier, à procura de uma mítica abadia, que funciona como reportagem íntima, desvio turístico, passeio de Verão e sessão colectiva de terapia sem recibo verde. Pelo meio, há acidentes, línguas misturadas, dentes partidos, conversas vagas, frases que parecem improvisadas e aquela energia muito juvenil de quem acredita que atravessar uma fronteira ajuda a resolver aquilo que não se consegue dizer em casa.
VÊ TEASER DE “SEGUNDO AMOR”
O melhor do filme está quando aceita a sua leveza sem hesitações, nem limitações. A câmara de Rodrigo — que também assina a fotografia — procura rostos, corpos, tardes, janelas, estradas, quartos, paisagens, pequenas variações de luz e de humor. Há qualquer coisa dos primeiros filmes da Nouvelle Vague, não como citação de museu, mas como atitude: filmar com o que se tem, com quem está, onde se pode, antes que a vida fuja. Há ecos de Jean- Luc Godard, sim, mas menos o Godard do manifesto e mais o Godard do gesto nervoso, da juventude que caminha como se estar no mundo já fosse uma forma de montagem. Há também Eric Rohmer, sobretudo o Rohmer das conversas onde nada acontece até percebermos que aconteceu tudo: “Pauline na Praia”, os “Contos das Quatro Estações”, esse cinema onde as personagens passam metade do tempo a explicar sentimentos que o corpo já denunciou há meia hora.
A idade em que o metabolismo já entrou no segundo acto
Mas Rodrigo Braz Teixeira não é Godard, nem Rohmer, nem precisa de ser, graças a Deus e à repartição das finanças. O que interessa é perceber que há ali uma vontade clara de filmar o tempo antes de ele ganhar forma adulta. “Segundo Amor” é sobre jovens a caminho dos 30, essa idade terrível em que a pessoa ainda acha que está no prólogo da vida, mas o banco, os pais, o senhorio e o metabolismo já começaram o segundo acto. Saura, Filipe e os outros vivem nesse intervalo: demasiado crescidos para serem adolescentes, demasiado perdidos para serem adultos, demasiado conscientes para serem inocentes, demasiado jovens para aceitarem que algumas coisas acabam sem grande explicação, apenas porque acabam.
O grande momento do filme é, sem dúvida, a coreografia de Saura ao som das Cocktail, uma das primeiras girl bands portuguesas, activas na segunda metade dos anos 70. A cena tem qualquer coisa de libertação íntima, de musical secreto, de catarse sem grande aparato. Saura Lightfoot-Leon, actriz e bailarina anglo-espanhola, nascida nos Países Baixos, traz ao filme uma presença física muito forte, entre a doçura, a opacidade e o desafio. Dança como quem diz aquilo que a personagem não consegue traduzir. E “Segundo Amor” é também isto: um filme sobre tradução, sobre pessoas que falam português, espanhol, francês, às vezes tudo ao mesmo tempo, e mesmo assim continuam a não conseguir dizer o essencial. O que é, convenhamos, bastante realista. A Europa unida talvez tenha aberto fronteiras, mas ainda não resolveu a frase “precisamos de falar”.
Filipe Cates, que regressa do universo de “Miraflores” e que entretanto teve uma passagem por “Beetlejuice Beetlejuice” (2024), de Tim Burton, dá ao filme uma espécie de melancolia discreta, entre o rapaz bonito, o namorado perdido e o amigo que tenta manter a dignidade enquanto o chão sentimental lhe sai debaixo dos pés. Há nele uma contenção muito justa. Não dramatiza em excesso, não transforma a separação num funeral de Estado, não pede ao espectador que lhe faça uma vaquinha emocional. Está ali, magoado, insistente, às vezes irritante, às vezes comovente, como são quase sempre as pessoas quando amam mais tarde do que deviam.
Um filme que tropeça, dança e segue caminho
O filme tem fragilidades, claro. Por vezes falta-lhe estrutura, propósito, uma linha de força mais nítida. Algumas conversas parecem existir porque aconteceram e não porque precisassem de estar no filme. A viagem a França nem sempre se integra plenamente na história de Saura e Filipe. Há momentos em que a vagueza ameaça tornar-se estilo por defeito, essa doença simpática de muito cinema jovem onde se confunde hesitação com mistério e dispersão com liberdade. Mas também é verdade que a energia do filme nasce precisamente desse risco. “Segundo Amor” não é uma obra acabada no sentido clássico; é uma obra em processo, uma espécie de laboratório afectivo onde Rodrigo testa materiais, durações, rostos, música — excelente a banda sonoraoriginal de Mariana Vieira — amizade, embaraço e luz natural.

E há uma coisa essencial: Rodrigo Braz Teixeira sabe olhar. Ainda não sabe sempre ordenar aquilo que olha, mas sabe olhar. E isso, no cinema, não é pouco. Há realizadores com dez filmes que ainda não descobriram onde pôr a câmara sem parecerem funcionários de uma produtora audiovisual de casamentos e baptizados. Rodrigo, mesmo quando falha, falha por excesso de proximidade, por confiança nos amigos, por amor ao instante, por acreditar que uma conversa à mesa, uma caminhada ou uma dança podem conter cinema. Às vezes contêm. Às vezes só contêm conversa, caminhada e dança. Mas é assim que se aprende.
“Segundo Amor” é, portanto, um filme pequeno, imperfeito, frágil, solar, caseiro, livre e às vezes irritantemente jovem, o que, neste caso, é quase um elogio. Não vem salvar o cinema português, nem precisa. O cinema português já foi salvo tantas vezes que devia ter direito a cartão de pontos. O que este filme faz é mais simples e talvez mais importante: mostra um realizador a tentar encontrar a sua língua, rodeado de pessoas que também tentam encontrar a sua. Depois de “Miraflores”, Rodrigo Braz Teixeira podia ter feito uma longa calculada, mais arrumada, mais prudente, mais “profissional”. Preferiu fazer um filme de Verão sobre a confusão sentimental, linguística e geracional de quem ainda está a perceber onde começa a vida adulta e onde acaba o primeiro amor. Ou o segundo.
E isso merece atenção. Não indulgência cega, que isso não ajuda ninguém. Mas atenção. Porque filmar fácil é muito difícil. Filmar pouco, com poucos meios, é ainda mais difícil. Filmar amigos sem os transformar numa tertúlia privada é dificílimo. E filmar o amor jovem sem cair na publicidade a águas aromatizadas já é quase um feito olímpico. “Segundo Amor” tropeça, perde-se, dança, insiste, vagueia, apanha sol, parte um dente e segue caminho. Como as suas personagens. Como o seu realizador. Como se deve fazer uma primeira longa: não chegar perfeita, mas chegar viva.
JVM

