Indie Lisboa ’26 | Fordlândia Panacea, a Crítica
A MHD continua a acompanhar um dos maiores festivais de cinema em Portugal que conta com estreias mundiais e internacionais de filmes portugueses e estrangeiros, com muitos convidados de todo o mundo: o IndieLisboa. Hoje, analisamos o novo filme da realizadora portuguesa Susana de Sousa Dias: “Fordlândia Panacea” (2025).
Susana de Sousa Dias é já presença habitual no festival onde estreou filmes como “Viagem ao Sol” (2021, corealizado com Ansgar Schaefer) e “Luz Obscura” (2017). “Fordlândia Panacea” teve a sua estreia mundial no IDFA (Festival Internacional de Documentário de Amesterdão) em novembro de 2025. Chegou agora a Portugal na competição nacional do IndieLisboa. Um filme sobre fantasmas e renascimentos no Brasil.
Qual a narrativa de Fordlândia Panacea?
“Fordlândia Panacea” faz parte da competição nacional do 23.º IndieLisboa. Teve exibição no festival nos dias 4 de maio na Culturgest e 6 de maio no Cinema São Jorge. A MHD assistiu à segunda sessão, a 6 de maio, que contou com a presença da realizadora Susana de Sousa Dias e do produtor Ansgar Schaefer no final da exibição para uma conversa com o público.
“Fordlândia Panacea” surge como continuação de “Fordlândia Malaise” (2019) e, de acordo com a realizadora, haverá ainda um terceiro filme sobre Fordlândia, fazendo-se, assim, uma trilogia. Os documentários surgiram para a realizadora com um duplo significado. Em primeiro lugar, Susana de Sousa Dias descobriu que tem familiares no Brasil e um passado ligado à colonização. Depois, porque a autora ficou com curiosidade em perceber como Henry Ford – o grande magnata americano ligado à fabricação de automóveis – quis construir uma pequena América dentro do Brasil e transformar Boa Vista em Fordlândia, uma cidade utópica.
O documentário procura, portanto, dar a conhecer a história daquele lugar e, sobretudo – como a própria realizadora diz – , o antes de 1928 e o depois de 1945, a duração da cidade-utopia criada por Henry Ford.
Dar voz ao passado e ao presente

Nos seus últimos trabalhos – mais concretamente, a partir de “Fordlândia Malaise” em 2019 – , Susana de Sousa Dias praticamente deixou para trás a temática do Estado Novo, com a qual trabalhava desde 2000 com “Enfermeiras no Estado Novo”. Contudo, a sua filmografia mantém-se com as mesmas preocupações, as mesmas inquietações e quase sempre o mesmo estilo de filmagem e montagem, com arquivos e o uso preponderante da voz off. Para Susana de Sousa Dias, a imagem e o som do cinema transmitem emoções distintas e complementares. Precisamente por essa razão os projetos da realizadora são tão longos e duradouros, pois são trabalhados em todo o detalhe.
Pessoalmente, infelizmente, não vi o primeiro filme desta que será uma trilogia. Assim, é impossível para mim estabelecer um cruzamento, um ponto de comunicação entre os dois filmes. Acredito que, certamente, faria uma melhor crítica e mais completa a “Fordlândia Panacea” se tivesse visto “Fordlândia Malaise”…
Em todo o caso, vou analisar “Fordlândia Panacea” como um projeto singular – ainda que não o seja verdadeiramente. Apesar disso, conheço bem a filmografia de Susana de Sousa Dias, tendo visto todos os seus outros filmes desde “Natureza Morta” (2005) até “Viagem ao Sol”. Nesse ponto de vista, posso afirmar que “Fordlândia Panacea” marca uma certa rotura com projetos anteriores da autora mas não completa. Tematicamente, mesmo “Viagem ao Sol” já se dividia entre Portugal e a Alemanha e mantinha ligações ‘discretas’ à época do Estado Novo. No entanto, já se sentia algo de diferente…
Os fantasmas sempre ali estiveram
Neste momento, a realizadora está a centrar as suas obras no Brasil e também (futuramente) na Angola. Contudo, a realizadora mantém-se fiel às suas origens. Porquê? Porque, apesar de não abordar o Estado Novo de António de Oliveira Salazar, aborda os totalitarismos, os fantasmas do passado. A grande ‘novidade’ de “Fordlândia Panacea” é que, além dos arquivos, Susana de Sousa Dias também filma e dá-nos a conhecer o ‘agora’. Ainda que este ‘agora’ seja claramente um ‘agora’ preso ao passado.
A linguagem de Fordlândia Panacea

“Fordlândia Panacea” pode ser visto simultaneamente como um documentário e um filme-ensaio, algo que é comum na filmografia de Susana de Sousa Dias. Nesse sentido, os intervenientes que falam no filme não nos são mostrados, porque “este não é um filme de personagens”, tal como referiu a realizadora na conversa no final da sessão. Efetivamente, o interesse da realizadora – e que admito que também é o interesse do espectador; pelo menos, para mim, foi – é filmar o espaço e conhecer o espaço. Porque é que Henry Ford quis construir uma pequena América em Boa Vista? Porque razão ainda hoje a cidade se chama Fordlândia e não voltou a ser Boa Vista? O espaço é A PERSONAGEM do filme. E as vozes que ouvimos também não são necessariamente taxativas. São histórias e lendas que passam entre familiares e são vozes que transmitem igualmente as suas opiniões e que se complementam.
Neste novo filme, contudo, Susana de Sousa Dias não tem uma estética visual linear. Não são apenas arquivos mas também imagens que ela filmou contemporâneas. Isto também porque, na verdade, quase que se pode afirmar que há naquela cidade duas Fordlândias: a Fordlândia cidade-fantasma com as fábricas em destroços e a Fordlândia cidade-viva onde a população vive e trabalha em edifícios contemporâneos (ainda que o destaque da realizadora seja mais – e bem – a parte dos destroços).
As diferentes fontes de imagem
Em suma, “Fordlândia Panacea” tem arquivos – desacelerados ou não – a preto e branco e a cores – alguns sonorizados com sons próprios, outros com a narração – , filmagens aéreas em drone, filmagens ‘terrenas’ da população e filmagens ‘terrenas’ do espaço, de dia e de noite. Por tudo isto, os fantasmas e as almas vivas se confundem. Fordlândia não é só um local preso num momento histórico, é um local que persiste ligado às suas raízes, assume a sua História colonial e vive o presente ao lado do passado.
Alguns momentos-chave de Fordlândia Panacea

“Fordlândia Panacea” – como qualquer outro dos filmes de Susana de Sousa Dias – é um documentário que exige concentração. Exige a sala de cinema. Entramos no filme e vivenciamo-lo.
Ao longo do filme, há vários momentos simbólicos que me ficaram na memória e que trazem importantes mensagens. Para começar, o filme abre com arquivos a preto e branco onde se destroem árvores. Estes arquivos são-nos mostrados em câmara lenta. É a destruição de Ford, o colonialismo americano naquela cidade brasileira que ficou cristalizado no tempo porque os seus resquícios ainda hoje persistem.
Mais a meio do filme, a montagem funciona de forma simbólica. Se, por um lado, há flashes de planos com uma banda que se cruzam sonoramente com os batuques dos bombos e que focam o espectador naquela música, por outro, pouco depois uma voz anuncia que Fordlândia é “o fim do mundo” e, de seguida, vemos um cemitério destruído. Precisamente, há a coexistência do fim do mundo com a vida. As tais duas Fordlândias que referi anteriormente… Mortes, fantasmas e nascimentos. São estas as três palavras essenciais do documentário.
Por fim, deixo apenas um lado que senti como negativo, embora até se possa compreender pelo calendário apertadíssimo de uma semana de filmagens. Assim, senti um pouco exagerado o uso da imagem em drone. Não por estar instável, longe disso; por vezes, é tão estável quanto um tripé de uma câmara. Simplesmente, senti haver demasiadas imagens aéreas. São importantes para percebermos a dimensão do espaço mas também são um pouco demais. Sinto alguma falta de travellings terrenos do género de “Noite e Nevoeiro” (1956, Alain Resnais). O filme ganharia muito com isso.
Fordlândia Panacea
Conclusão
- “Fordlândia Panacea” é um filme duro que cruza temáticas como colonialismo, capitalismo, fantasmas, utopias e renascimentos.
- Simultaneamente um documentário e um filme-ensaio, a obra de Susana Sousa Dias é, sobretudo, o retrato de uma cidade, antes e depois do fordismo.
- Um filme que cruza imagens de arquivo com imagens contemporâneas para nos dar um retrato ‘lendário’ e ‘mítico’ desta cidade.
- Muito bem construído imageticamente e sonoramente na montagem, sente-se apenas um exagero no uso de imagens de drone.

